Luis Onofre: "China devia compensar prejuízo abrindo-se ao mundo"

O fabricante de calçado e presidente da associação portuguesa do setor (APICCAPS), Luís Onofre, defende que a abertura ao mercado global podia fazer a China compensar a crise que aí vem. Na sua fábrica, parada, já se fazem máscaras de proteção.

A China, onde a pandemia do covid-19 teve início, nos últimos meses de 2019, devia indemnizar a Europa, e o resto do mundo, pela "profunda recessão económica" global que se adivinha. A ideia é defendida por Luís Onofre, designer e fabricante de calçado, para quem é vital que a Europa pressione a China a fazer "acordos comerciais justos" e a "abrir as suas fronteiras à entrada livre" das mercadorias europeias. "Tal como os produtos chineses entram livremente na Europa", lembra.

O tema do comércio justo não é novo no discurso de Luís Onofre, que é, também, presidente da associação portuguesa do calçado (APICCAPS) e da confederação europeia (CEC), onde tem vindo a defender a necessidade de uma posição da UE mais firme nesta matéria. E o próprio secretário de Estado da Economia, quando visitou as empresas portuguesas na feira de Milão, em meados de fevereiro, ainda antes de a Europa se ter tornado o epicentro do covid-19, abordou o tema, prometendo colocar a questão no centro da agenda da presidência portuguesa da União Europeia, que acontece no primeiro semestre do próximo ano, de modo a que as regras do comércio estejam assentes em valores como a "sustentabilidade ou o respeito pelos direitos humanos", salientou, então, João Neves.

A realidade da pandemia veio deixar para segundo plano - senão terceiro, quarto ou quinto - o grupo de trabalho que havia sido criado, com o calçado, mas, também, com o vestuário, através das associações setoriais, a ANIVEC e a APICCAPS. Mas, perante a evidência de uma crise sem precedentes, Luís Onofre retoma o tema, considerando que "seria justo" que, "numa altura como esta", a China pudesse, no seio da Organização Mundial do Comércio, estabelecer "acordos que viessem, de certa forma, compensar o prejuízo" que se antecipa em todo o mundo.

O objetivo é que não só os chineses comprem produtos europeus, mas, também, que "procurem vender os produtos de forma menos agressiva, com preços mais justos", defende. Uma questão que tem abordado com a diretora-geral da CEC, mas que é complicada de tratar na atual conjuntura de confinamento em que a Europa se encontra. "Ela está em Bruxelas, de mãos atadas, não consegue falar com ninguém. Aliás, sinto a Europa muito debilitada nesta situação. Se eu fosse italiano, estaria revoltado, acho que foi absolutamente injusta a falta de apoio da Europa a Itália", argumenta.

No calçado, os tempos adivinham-se difíceis. "Estou muito preocupado com o futuro do setor. A época de inverno está perdida, com as encomendas todas a serem canceladas, e a de primavera-verão do próximo ano vai ser muito complicada, ainda, porque as lojas vão ficar com as coleções deste ano dentro de portas, todas por vender, não vão comprar nem um décimo daquilo que comprariam", diz.

O que torna ainda mais frustrante a situação é o facto de as exportações de calçado, que caíram em 2018 e 2019, estarem em terreno positivo no arranque de 2020, subindo 2,3% em janeiro. "Estávamos em crescimento até meio de fevereiro, a partir daí foi o descalabro, com cancelamentos de encomendas e adiamentos para o próximo ano. Mas continuamos a falar com fornecedores e clientes, por FaceTime e similares, porque temos de nos mexer, não podemos baixar os braços."

Na sua fábrica, de Oliveira de Azeméis, Onofre dá emprego a cerca de 55 pessoas, às quais vai pagar o mês de março, por inteiro. Avança para o lay-off a partir de 1 de abril, mas tem consciência de que dois terços do salário "é francamente pouco", pelo que tentará, pelo menos ainda em abril, completar o resto. "Até onde eu puder", admite. Tentará negociar uma "compensação" de horas extras mais tarde, quando a situação se normalizar.

Sem trabalho para lhes dar, começou a produzir máscaras para oferecer a hospitais, como o de Santa Maria da Feira e o de Vila Nova de Famalicão, a outras instituições da região, como lares de terceira idade, e à Cruz Vermelha.

Uma atividade que pretende manter, mesmo em lay-off, se a lei assim o permitir. "O impulsionador disto tudo foi o senhor Vitorino Coelho [da Calçado Vs - Vitorino da Silva Coelho, S.A.]." Se nos juntarmos, podemos fazer a diferença neste momento difícil", defende. Luís Onofre assegura, para já, uma produção diária de 500 unidades de máscaras não cirúrgicas, e espera poder alcançar, na próxima semana, as 800 unidades.

Jornalista do Dinheiro Vivo

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