É urgente voltar à natureza

No que toca à pandemia, haverá um antes e um depois. O mundo para o qual desconfinamos agora é outro. Temos vivido absorvidos pela preocupação e pela salvaguarda da vida humana. Esse processo tem trazido cansaço e saturação e ainda outra certeza: temos, globalmente, de mudar de vida. Agora estamos no durante e é esta a fase para preparar o que se seguirá. É o tempo de delinear a profilaxia de situações como a que vivemos. Para tal, é necessário perceber a melhor forma de tornar essa prevenção o mais "transitiva" possível, no sentido em que esta possa promover uma transição civilizacional efetiva em áreas essenciais à saúde e à vida.

Uma dessas áreas é o meio ambiente. Se antes já era urgente mudar a relação com a natureza, agora isso é vital para que haja um "depois". Não podemos ver a natureza como herança ou como algo cedido gratuitamente e com isenção de esforço. Faz mais sentido entendê-la, no contexto atual de exaustão dos recursos naturais, como um empréstimo a prazo, que tem como fiador as gerações mais novas e as futuras.

Foi nesse sentido que a União Europeia deu nesta semana o primeiro passo de uma longa caminhada - a adoção de uma nova Estratégia de Biodiversidade, com o objetivo de trazer a natureza de volta às nossas vidas, e da Estratégia do Prado ao Prato (The Farm to Fork Strategy), em defesa de um sistema alimentar justo, saudável e amigo do ambiente, na esteira do Pacto Ecológico Europeu.

Uma verdadeira estratégia ambiental não pode ignorar que há uma cadeia ambiental e que à degradação desta corresponde o declínio da cadeia alimentar. O rumo é em direção a um sistema alimentar sustentável na União Europeia que monitorize a segurança alimentar e garanta o acesso a alimentos saudáveis num planeta saudável. É um pouco a ideia de que a saúde do planeta (e a nossa) começa nos nossos costumes, claro, mas sempre no nosso prato.

Da redução da pegada ambiental do sistema alimentar da União Europeia resultará um ganho de resiliência, protegendo a saúde dos cidadãos e assegurando e diversificando meios de subsistência.
Na base da estratégia está também a noção de que a sustentabilidade ambiental não é inimiga da competitividade, nem de quaisquer agentes económicos. A noção de coesão pela conjugação de esforços, sem descurar nem o universo ativista nem o económico ou o da arquitetura e da geografia das cidades, é fulcral.

Esta é a Europa de que mais gosto. A Europa que se une e bate o pé ao mundo em defesa da natureza, não apenas pelo que esta tem de idílico, lucrativo ou turístico, mas pelo que tem de vital. É a Europa polinizadora de respeito para com toda a (bio)diversidade da vida no planeta. É a Europa lúcida.

Deputada do PS

Mais Notícias