Os oficiais das Forças Armadas que revolucionaram os hospitais de Lisboa

Um submarinista, um fuzileiro e dois nerds - estes quatro oficiais das Forças Armadas fazem contas e previsões diárias para garantir que os 13 hospitais de Lisboa não entram em rutura

Na secretária de madeira robusta estão dois livros marcados: "Linear Algebra and it"s applications" e "Naval Operations Analysis" - matemática pura, aplicada às operações navais. No quadro branco junto à janela, estão notas soltas com números, equações, gráficos, curvas. À cabeça: covid-19.

Estamos no gabinete do vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, 59 anos, que navegou 22 anos em submarinos e comandou o Delfim e o Barracuda. É o chefe da equipa de quatro militares que há quase dois meses estão a ajudar os hospitais públicos de Lisboa a enfrentar a escalada de internamentos de doentes covid e a revolucionar, pacificamente, toda a gestão de camas dedicadas à covid-19.

A decisão de criar esta equipa, designada como Núcleo de Apoio à Decisão (NAD), a 15 de outubro passado, foi justificada pela Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT), "pelas competências" das Forças Armadas "em matéria de coordenação de operações, logística e informação".

Além do vice-almirante, integram o NAD o fuzileiro capitão-de-fragata Rui Lopes Carrilho e dois peritos em sistemas de comunicações e programação, o major Paulo Santos e o primeiro-tenente Vladimiro Neves.

O que parecia evidente - que houvesse uma coordenação centralizada da gestão de camas, de forma a ir aliviando os hospitais mais saturados, mantendo uma taxa de esforço equilibrada para todos eles - não estava feito.

O que parecia evidente - que houvesse uma coordenação centralizada da gestão de camas, de forma a ir aliviando os hospitais mais saturados, mantendo uma taxa de esforço equilibrada para todos eles - não estava feito.

Com a ajuda destes oficiais das Forças Armadas, os 13 hospitais públicos da região de Lisboa e Vale do Tejo funcionam como um só, com uma liderança ágil, num equilíbrio de esforço cujos pilares são consolidados diariamente pela ARSLVT, auxiliada por esta equipa.

O resultado da inovadora gestão centralizada de camas tem sido tão encorajador que a equipa será reforçada em breve para apoiar também os hospitais a Norte e no Alentejo.

Planeamento militar

Como o fizeram? Levaram a estratégia de planeamento militar para esta missão: observar, orientar, decidir e agir - num ciclo que se repete rápido, muito reativo, sempre que a realidade se altera.

"A ARSLVT tem sub-regiões e um grupo de hospitais com regiões diferenciadas. A atividade é diferente de região para região. Se não trabalharmos em grupo o sistema pode colapsar, falhando a assistência a pessoas numa determinada sub-região havendo capacidades noutras sub-regiões. A nossa equipa apoia o trabalho em conjunto dos 13 hospitais, criando maior resiliência, para que nenhum atinja o seu limite", frisa Gouveia e Melo.

Explica, desenhando no quadro, com canetas de várias cores: "Há um ciclo muito militar aqui: imaginem um círculo com quatro pontos, um em cima, outro em baixo e dois de cada lado. No topo está a letra O, de observar, conhecer a realidade; ao lado, na direção dos ponteiros do relógio, outro O, de orientar; em baixo o D, decisão; do outro lado, às nove horas de um relógio, o A, de ação. Este círculo é sucessivamente repetido, pois cada vez que se tomam decisões e ações elas influenciam a realidade, que tem de ser de novo observada e por aí fora. Este processo, numa situação de crise como a que estamos a viver, tem de ser muito rápido e essa tarefa é facilitada quando há hierarquias e disciplina bem definidas nas organizações. Os militares estão habituados a trabalhar dentro destes três paradigmas, temos de ser muito rápidos no processo de decisão, muito hierarquizados e muito disciplinados. E isso nem sempre está automatizado e adquirido no código genético da sociedade civil, porque naturalmente em tempo normal não tem que operar sobre estes paradigmas", afiança.

Previsões a duas semanas

O fuzileiro Carrilho subscreve. "Somos treinados para determinadas missões que envolvem conflitos e isso obriga-nos a desenvolver capacidades para analisar rapidamente o ambiente que nos envolve e estabelecer as linhas de ação e combate para enfrentar o problema. No fundo, é o que está ali naquele quadro", remata este capitão-de-fragata apontando para o esquema dos quatro pontos que nos tinha mostrado Gouveia e Melo.

"É tudo muito intenso. Há dias que sonho com folhas Excel. Viemos de paradigmas muito diferentes"

"É tudo muito intenso. Há dias que sonho com folhas Excel. Viemos de paradigmas muito diferentes. Mas desde que chegámos, todos têm mais informação, melhor tratada e mais útil para as decisões do dia a dia", assegura este oficial.

Habituados ao planeamento a longo prazo para diversos cenários, Gouveia e Melo, Lopes Carrilho, Santos e Neves fazem previsões para a evolução da ocupação das camas hospitalares, face ao progresso da pandemia, e estudam a melhor estratégia para otimizar a capacidade dos hospitais.

"Olhando só para as entradas e saídas, conseguimos fazer previsões a duas semanas; se tivéssemos mais informações sobre os pacientes, teríamos previsões a 3/4 semanas. Quando estamos a trabalhar ao nível da ocupação de camas, há muitas variáveis a ter em conta, como a idade dos pacientes, o sexo e as comorbidades (patologias de risco). Queremos focar-nos nos pacientes, tendo em conta as características das pessoas. Por exemplo, as estatísticas dizem-nos que, em média, as pessoas estão internadas 18 dias. Depois disso, ou a situação se agrava e a pessoa morre, ou têm alta. Mas há variações de nove dias, para trás e para a frente. Se é uma pessoa mais nova pode sair ao fim de nove dias, se é mais velha, ao fim de 27. Quanto mais nos aproximamos do limite, mais gestão tem de ser feita, gerir quase cama a cama, otimizar o sistema até ao limite", explicam.

Todos os dias os oficiais produzem um relatório e apresentam as suas propostas ao Grupo Regional de Gestão Centralizada, criado na mesma altura pela ARSLVT, e todas as semanas reúnem com os administradores hospitalares.

Todos os hospitais neste momento sabem, através de um simples relatório que pode ser consultado num telemóvel - através de uma aplicação criada por esta equipa - a situação de cada um e do todo, diariamente.

Todos os hospitais neste momento sabem, através de um simples relatório que pode ser consultado num telemóvel - através de uma aplicação criada por esta equipa - a situação de cada um e do todo, diariamente.

Enquanto Carrilho fala, os dois nerds que estão com ele na sala ao fundo de um corredor da sede da ARS LVT, em Lisboa, mal levantam os olhos dos computadores.

O major do Exército, Paulo da Silva Santos, 45 anos, é um veterano programador informático que já esteve em cinco missões no estrangeiro, entre as quais no Líbano e Mali.

Está habituado à pressão e o seu rosto transparece concentração e tranquilidade. Quando foi chamado para o NAD estava colocado no Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), na direção de Comunicações e Sistemas de Informações.

Ao lado está o tenente da Marinha Vladimiro Neves, mais novo, 30 anos, que veio do centro de Ciberdefesa do EMGFA. "Trabalho no desenvolvimento de modelos. Recebo os dados, trabalho esses dados, interpreto e passo as folhas de Excel ao Santos", explica.

Neste momento a capacidade máxima do conjunto dos 13 hospitais para doentes covid é 20% das suas camas - no total são cerca de 1000 e estão ocupadas 783 (16,4%) nas enfermarias e 142 (52%) nas UCI (à data desta quinta-feira). "Lisboa ainda pode respirar, mas sem aliviar", sublinha o vice-almirante.

Se estão a fazer uma revolução? O vice-almirante refuta a expressão. "Penso que, pelo menos, algumas das nossas práticas e técnicas vão ficar para o futuro"

Se estão a fazer uma revolução? O vice-almirante refuta a expressão. "Penso que, pelo menos, algumas das nossas práticas e técnicas vão ficar para o futuro. Estas pessoas da ARS trabalham muito e a nossa presença tem sido um bom apoio. Trouxemos o ritmo de uma unidade militar, com todos ao mesmo nível de esforço. Não há hospitais demasiado sobrecarregados, nem hospitais demasiado aliviados. Todos os dias trabalhamos para garantir esse equilíbrio complexo, com todos a trabalhar juntos".

Quem são os quatro oficiais

Vice-Almirante Gouveia e Melo

Adjunto para o Planeamento do Chefe de Estado-Maior, tem estado desde o início da pandemia a preparar e a planear as ações conjuntas das Forças Armadas no terreno, nos lares, escolas e em apoio às autoridades de saúde. Este militar está na dependência do Almirante Silva Ribeiro, Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, oficial que dirige toda a resposta militar a esta pandemia sob a coordenação e a tutela do Ministro da Defesa Nacional.

Integrou a Esquadrilha de Submarinos em setembro de 1985 e, até 1992, navegou nos submarinos Albacora, Barracuda e Delfim e comandou estes dois últimos. Ao longo da sua carreira frequentou vários cursos, entre os quais a especialização em Comunicações e Guerra Eletrónica, o "Internacional Diesel Electric Submarine Tracking Course" em Norfolk, Estados Unidos. Antes de ser chamado para o EMGFA, era, desde janeiro de 2017, o Comandante Naval na Marinha.

Capitão-de-fragata Rui Lopes Carrilho

Formado em Ciências Militares-Navais da classe de Fuzileiros, comandou na Marinha várias Unidades de Fuzileiros (pelotão, companhia e batalhão) e integrou diversos Estados-Maiores nas áreas de operações, informações e logística.

Na Escola de Fuzileiros foi professor de Liderança e na Escola Naval docente de Comportamento Organizacional, de Operações Anfíbias e de Planeamento Operacional.

Antes de ser chamado para esta equipa da ARSLVT estava colocado no Instituto Universitário Militar, onde é Diretor de Curso, docente de Comportamento Organizacional e de Organização Naval.

Aqui integrou a Equipa de Planeamento das Forças Armadas para a criação da Estrutura Hospitalar de Contingência de Lisboa, na primeira vaga da pandemia.

É também licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Mestre em Comportamento Organizacional pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (todos pré-Bolonha).

Major Paulo Silva Santos

Licenciado em engenharia eletrónica e computadores do ramo de telecomunicações do Instituto Superior Técnico, fez ainda o curso de Transmissões na Academia Militar.

É o programador informático de serviço na equipa da ARS LVT. Desde setembro exercia funções no Estado Maior General das Forças Armadas (EMGFA), na Direção de Comunicações e Sistemas de Informação.

Na sua formação militar acrescenta ainda os cursos de Guerra Eletrónica e Educação Física.

Esteve destacado para a Escola Prática de Transmissões, Regimento de Transmissões e Direção de Comunicações e Sistemas de Informação, onde desempenhou as funções de programador de informática.

Fez cinco missões no Estrangeiro como Oficial responsável das comunicações e informática. Dessas missões, duas foram no teatro de operações no Líbano e três no Mali no contexto da Missão internacional European Union Training Mission.

Primeiro-Tenente Vladimiro Neves

Fez o mestrado na Escola Naval, em Ciências Militares Navais. Navegou na fragata Álvares Cabral durante três anos, tendo exercido várias funções como oficial.

Durante este período, participou em diversos exercícios nacionais e internacionais, bem como missões de cariz humanitário, destacando-se a Standing NATO Maritime Group I (SNMG1), o Joint Warrior 151 e 162, o Portuguese Operational Sea Training (POST) e a Missão Humanitária na ilha do Fogo, em Cabo Verde "DJARFOGO".

Entre 2017 e 2019 comandou o NRP Rio Minho.

Especializou-se em Comunicações e Sistemas de Informação e frequentou diversos cursos no âmbito do plano de formação de embarque nas fragatas classe Vasco da Gama.

Desempenha atualmente funções como Chefe da Gestão da Informação do Centro de Ciberdefesa no Estado-Maior General das Forças Armadas.

Mais Notícias