Putin tem a estrutura para ficar no poder. "Não existe oposição organizada na Rússia"

Novo ano chegará com os desafios do velho: a pandemia e a economia. 2021 tem três datas-chave: a tomada de posse de Biden, as eleições para o parlamento e os 30 anos da "maior catástrofe geopolítica do século XX", a queda da URSS.

No princípio de novembro, o tabloide britânico The Sun alegou que o presidente russo, Vladimir Putin, sofria da doença de Parkinson e poderia deixar o poder no início de 2021. O Kremlin apressou-se a apelidar de "disparate" a notícia. Por enquanto, as preocupações de Putin para o próximo ano são as mesmas que as do que agora acaba: a pandemia do novo coronavírus, que já afetou quase três milhões de russos e matou oficialmente mais de 50 mil, e o impacto que esta tem na economia, com um desemprego de 6,3% em outubro e uma queda prevista de 3,9% do PIB em 2020.

No calendário para 2021, há três eventos que importa reter. Logo em janeiro, a tomada de posse do novo presidente norte-americano, Joe Biden, e o que isso implica para as relações entre os dois países. Seguem-se, até setembro, as eleições para o parlamento russo. E, em dezembro, o 30.º aniversário da queda da União Soviética. "Putin gosta de comemorar vitórias, não derrotas. Como é que se pode comemorar a maior catástrofe geopolítica do século XX, como ele lhe chamou", lembra ao DN o jornalista e historiador José Milhazes, que viveu mais de quatro décadas em Moscovo.

A sua aposta é que a data será aproveitada para a continuação da tarefa de reescrever a história, que o Kremlin tem vindo a fazer, e usada na guerra ideológica e de propaganda, lembrando a herança soviética em áreas como a conquista do espaço ou a vitória na II Guerra Mundial. "Podemos ainda ter alguma surpresa em relação a alguma reabilitação de alguns aspetos da história soviética", refere, acreditando contudo que ele não irá tão longe ao ponto de reabilitar a figura do próprio Estaline.

Rússia vs. EUA

O ano arranca com a tomada de posse de Biden, a 20 de janeiro. "Não sei se será possível que as relações entre a Rússia e os EUA ainda piorem, tendo em conta o estado que foi atingido com o presidente Donald Trump, mas tudo pode acontecer", contou Milhazes, lembrando que o foco dado pelos democratas aos direitos humanos sempre tornou mais difícil a relação dos russos com um democrata na presidência. "Além disso, a Rússia não escondia as suas simpatias por Trump."

Oficialmente, Putin só reconheceu a vitória de Biden a 15 de dezembro, um dia após a confirmação pelo Colégio Eleitoral. "Da minha parte, estou pronto para uma colaboração e para estabelecer contactos", disse o presidente russo. Mas, no dia 23, depois de Biden prometer "retaliar" diante de um enorme ataque informático contra o governo dos EUA (Moscovo nega ser responsável), Putin disse que a nova administração será "mais do mesmo" e que não espera "nada de positivo".

Para Milhazes, nem tudo será mau: "Há um campo onde pode haver uma aproximação, que é na questão do desarmamento estratégico, nuclear." Trump rasgou todos os acordos sobre esta matéria, enquanto Biden sempre participou nos debates sobre este tema. Também pode haver uma aproximação em torno do nuclear iraniano. Mas, em geral, "Biden irá ter problemas maiores com a Rússia e vice-versa porque se espera de Biden uma aproximação à União Europeia e uma consolidação da NATO, que é coisa que Putin não quer. Para ele a política de Trump em relação à NATO era uma bênção. Neste campo as coisas poderão não ser favoráveis a Putin", referiu.

Contudo, o jornalista e historiador lembra que em matéria de política internacional o ator que conta para os EUA já não é a Rússia. "Já não é o parceiro ou o obstáculo mais importante no mundo. A questão é com a China, a Rússia tenta esticar-se para que se faça notar que ainda é importante, mas o desenvolvimento das relações entre os EUA e a China pode fazer que a Rússia passe para segundo plano, o que não irá melhorar a posição de Putin."

Eleições

No que diz respeito às eleições, que têm de realizar-se até setembro mas cuja data ainda não foi anunciada, Milhazes não espera surpresas. "As votações terminarão como terminam sempre. Com a Rússia Unida a ter a maioria absoluta no parlamento e a chamada oposição obediente, o Partido Comunista e o Partido da Rússia Justa, a receber umas migalhas para não levantar muitas ondas e as coisas continuarem como estão." E não importa que na oposição esteja ou não Alexei Navalny, que acusa Putin de o tentar matar com novitchok e que continua a recuperar na Alemanha. "O mecanismo existente é capaz de neutralizar completamente Navalny ou outra pessoa qualquer. Neste momento não existe oposição organizada na Rússia. Existem pessoas e pequenos grupos que estão sob controlo das autoridades", explicou Milhazes.

O cenário "previsível", que pode contudo sofrer alterações, refere o historiador, lembrando que neste momento qualquer oposição é invisível, porque se usa a pandemia para proibir qualquer manifestação. "No entanto, esperar que a oposição na Rússia se organize ao ponto de pôr em causa o regime de Putin é um pouco infantil. Na Rússia não são as massas que decidem. Na Rússia, se acontecer alguma coisa é na corte", ou seja, entre aqueles que estão no poder.

"Não sabemos o que é que pode acontecer que ponha em causa toda a estrutura que está construída. Ela parece ser muito sólida e parece ter um calendário muito claro que é Putin ser reeleito em 2024 e andarmos nisto até 2030", defendeu. A reforma constitucional aprovada neste ano permitirá a Putin voltar a candidatar-se, contornando o facto de que já estaria no seu segundo e último mandato. Nomeado primeiro-ministro em 1999 por Boris Ieltsin, assumiu interinamente a presidência a 31 de dezembro desse mesmo ano, sendo eleito depois em maio de 2000 e reeleito quatro anos depois. Passou depois um mandato novamente como primeiro-ministro (por causa da proibição de mais de dois mandatos consecutivos), antes de voltar ao Kremlin em 2012. Na prática, está há mais de 20 anos no poder e espera continuar mais dez.

"Mas há sempre um mas nestas questões. Estamos, por exemplo, a ver que a Rússia está a envolver-se cada vez mais em conflitos externos, que exigem meios financeiros cada vez maiores", referiu, lembrando precisamente que foi uma política externa "demasiado ofensiva e exagerada" que levou à queda da URSS. "Eles não tiveram o dinheiro para pagar o domínio. É muito bom dizer que vão construir uma base militar no Sudão, como estão a fazer, que mandam tropas para Nagorno-Karabakh, que têm um míssil novo que ninguém vê ou um submarino que ninguém ouve. Mas tudo isso custa dinheiro", explica, lembrando que o petróleo já não está a cem dólares por barril. "E isto é o calcanhar de Aquiles da economia russa, a alta dependência ao preço dos combustíveis."

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