Premium As mulheres usam calças mas os homens não usam saias. Algum dia vão usar?

Primeiro, homens e mulheres usavam saias. Depois, os homens começaram a usar calças, peça que se popularizou também entre as mulheres no século XX. A verdade é que, hoje em dia, o vestuário da mulher está sujeito a muito menos regras do que o masculino. Mas os tempos são de mudança. Como será no futuro?

Calças. Calções. Gravatas. Smokings. Coletes. Fatos. Não há peça de roupa que tradicionalmente esteja associada ao género masculino e que hoje não se possa também encontrar no guarda-roupa de uma mulher. Chapéus e bonés. Macacões e blusões. Até boxers existem para mulheres. Nos últimos dois séculos, ao mesmo tempo que reivindicavam direitos iguais e se apropriavam de todas as profissões masculinas, as mulheres começaram a usar também a sua roupa. Ao início com alguma polémica. Mas, aos poucos, com cada vez maior naturalidade. E liberdade. Uma mulher pode usar o que quiser e pode, num dia, sair de casa com um vestido, salto agulha e batom vermelho nos lábios e, no dia seguinte usar fato completo com calças vincadas, camisa, gravata e mocassins.

Mas para os homens essa transição é mais complicada. Ainda hoje, um homem de saias causa um sururu - pode ser aceite em certos meios mais artísticos ou vanguardistas mas é alvo de críticas em meios mais formais. Quem diz saia ou vestido diz sapatos de salto alto, maquilhagem pronunciada, determinados acessórios. Já vai havendo maior abertura, há cada vez mais exceções, mas, de forma geral, o guarda-roupa do homem permaneceu praticamente intacto e muito "masculino". Porquê?

"O mundo é dominado por homens", começa por afirmar, sem qualquer dúvida Paulo Morais, historiador e investigador da moda. "A única exceção é a Creta Minoica [civilização na Grécia Antiga], que é um matriarcado. De resto, ao longo da história, nas várias sociedades, o homem tem sido dominante." Portanto, tudo o homem usa primeiro. "Até os adornos e os acessórios foram, em primeiro lugar, usados pelo homem. Estavam originalmente associados ao poder militar e, ainda hoje, os militares são dos poucos homens que usam, formalmente, adornos - condecorações e galões."

Na Mesopotâmia e no Antigo Egito, as roupas eram praticamente iguais para homens e mulheres. "Na Grécia e em Roma, os chamados povos civilizados usavam o quíton, a túnica ou a toga, roupa enrolada à volta do corpo, ou seja, saias", explica Paulo Morais. "Os bárbaros - que eram nómadas e andavam a cavalo - usavam calças. Os romanos chegaram a emitir leis a proibir a utilização dos calções, que até dariam imenso jeito aos legionários e não os podiam usar porque era uma peça de roupa associada ao inimigo."

Mas os bárbaros acabaram por dominar a Europa e as calças para os homens generalizaram-se. As mulheres não adotaram as calças porque não precisavam. As saias masculinas permaneceram só em alguns contextos - como os kilts na Escócia ou as saias tradicionais dos pauliteiros de Miranda. E na Igreja Católica, onde os padres continuaram a usar batinas. Fora da Europa, os homens continuaram a usar túnicas nas comunidades muçulmana e budista, por exemplo.

A moda é uma questão de classe

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