Um dia, um livro

O objeto veio envolto num papel verde estampado com motivos infantis, talvez o desenho de um ursinho tocando tambor. E porque não? Era um presente de aniversário para uma criança que fazia 5 anos. O objeto era um livro. O garoto o desembrulhou, contemplou aquele volume vermelho, de capa dura, cheio de páginas impressas com palavras e outras com desenhos em cores e em preto e branco. Por coincidência, o menino tinha à mão ou no bolso um lápis de cor, também vermelho. Abriu o livro e, logo na primeira pagina, escreveu: "Ruy - 5".

A pessoa que lhe oferecera o livro, uma senhora, amiga de sua mãe, reprovou:

"Ih, já começou a rabiscar o livro!"

Mas ele não queria rabiscá-lo. Queria apenas marcá-lo como seu, firmar aquela data. Deixou o livro sobre a cama junto com os outros presentes e só o retomou depois que a festa de aniversário acabou. O título na capa, leu-o com facilidade: Alice no País das Maravilhas. Para as outras informações, que constavam do frontispício, não deu muita importância na hora. "Lewis Carroll. Tradução e adaptação de Monteiro Lobato. Companhia Editora Nacional". Sentou-se, cruzou as pernas e abriu o livro na página 11, que era onde a história começava - e nunca mais foi o mesmo menino nem o mesmo homem. Tornou-se a pessoa que escreve essas linhas.

Passaram-se mais de sessenta anos - mais exatamente, 67 -, mas ainda hoje posso manusear, folhear e até reler esse livro. Para dizer a verdade, ele está à minha frente neste momento, ao lado do computador. Claro, não é o exemplar que ganhei naquele remoto dia de fevereiro de 1953 - o tal exemplar se perdeu na adolescência, junto com exemplares de outros livros, ou ficou para trás em alguma mudança de endereço. Mas, um dia, num alfarrábio aqui do Rio, encontrei outro, da mesma fornada, com a capa e o miolo de 124 páginas em perfeito estado. O melhor é que não o encontrei por acaso. Eu estava à procura dele havia muito tempo.

Antes dos 5 anos eu já conseguia ler. Aprendera meio sozinho, sentado no colo da minha mãe enquanto, rindo muito, ela lia todos os dias, para si mesma - mas em voz alta, a meu pedido - a coluna de Nelson Rodrigues, intitulada "A vida como ela é..." no jornal Última Hora. Foi um ritual que durou semanas. De tanto ouvir o som e o significado daqueles símbolos impressos na página do jornal enquanto olhava para eles, descobri com naturalidade como funcionavam - as letras formavam sílabas, as sílabas formavam palavras, as palavras formavam ideias. A partir dali, passei a aplicar o processo às outras letras impressas que via pela frente - e eram muitas, nos cartazes das paredes, nos reclames do elétrico, nas tampas das latas de doce - e saí lendo tudo que via. E escrevendo também, porque era fácil copiar os símbolos, para criar as minhas próprias palavras. Dias depois, descobri a máquina de escrever de meu pai, uma Remington semiportátil preta. Foi fácil também entender o seu funcionamento - os símbolos impressos no teclado eram os mesmos que eu já produzia com lápis no papel ou nas paredes da casa.

Com isso, aprendi a ler, a escrever e a escrever à máquina quase ao mesmo tempo. Pergunte-me agora se eu tinha outra opção futura senão viver das palavras.

A vida não é a mesma depois que se penetra no reino das palavras. No meu caso, não me recordo de um só dia em que não estivesse cercado por elas. Meus pais, simples comerciantes, não liam livros, mas eram grandes leitores de jornais - pelo menos dois por dia, que recebiam por assinatura, além dos que, com frequência, compravam na rua. Era como se se alimentassem de notícias, comentários, fotografias. E havia as revistas, semanais ou mensais, que também devoravam. Detalhe: depois de lidos, esses jornais e revistas nunca iam para o lixo. As pilhas se acumulavam nos armários e atravessavam os anos. Muito depois eu os leria, alguns ainda do tempo da guerra, como se fossem jornais do dia. Para os meus pais, não se jogavam fora as palavras.

Em pouco tempo decidi que, no futuro, seria jornalista - que viveria das e entre as palavras. Ao contrário de outros garotos da minha geração, nunca pensei em ser médico, engenheiro ou advogado, nem mesmo astronauta, guia de safari, comandante de submarino ou, Deus sabe, jogador do Flamengo. O importante eram as palavras.
Bem, aconteceu que, desde março de 1967, as palavras se tornaram uma profissão. E, com elas, veio a reboque o mundo. Por causa delas conheci pessoalmente escritores que admirava, como Nelson Rodrigues, Jorge Luis Borges, Gore Vidal, Rubem Braga, Guimarães Rosa, Fernando Sabino, Vinicius de Moraes, Carlos Heitor Cony, Carlos Drummond de Andrade - todos mestres das palavras - e outros que não admirava e continuei a não admirar. A profissão permitiu-me apertar a mão, entrevistar ou conviver por horas ou dias com cineastas, atores de cinema e teatro, artistas plásticos, bailarinos, compositores, cantores, jazzistas, sambistas, artistas do Carnaval e estrelas da televisão ou da moda, além de cientistas, políticos, empresários, grã-finos, malandros, policiais, bandidos, malucos - grandes homens e grandes mulheres, ou nem tão grandes, mas todos ao alcance de uma caneta e de um bloco de anotações ou de um gravadorzinho, daqueles de pilha, que os repórteres usavam, para resumi-los em palavras. E, mesmo tendo as palavras de tanta gente para reproduzir, tenho sido instado durante esses anos todos a usar as minhas próprias palavras para contar histórias ou dar opiniões sobre qualquer assunto. Para não falar nos livros que passei a produzir a partir de 1990 e que constituem outra história - talvez outra vida.

Tudo isso porque, um dia, há muitas vidas, alguém me ofereceu um livro num aniversário - e me perdi nele para sempre.

Jornalista e escritor brasileiro

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