Nem os 7-0 deitaram o Vitória ao chão!

Fiz duas reportagens de futebol internacional na minha carreira: uma com o Sporting em Jerusalém, porque era época de atentados e o diretor de então achou que eu era homem para fazer as duas coberturas, a do jogo da UEFA e a do conflito israelo-árabe; a segunda foi com o Vitória de Setúbal em Roma, ainda hoje penso que o Mário Bettencourt Resendes e o António Ribeiro Ferreira (diretor adjunto) me quiserem dar uma prenda, por eu ser do clube e este há mais de duas décadas estar arredado das competições europeias.

E foi cá uma prenda! No Estádio Olímpico, com Totti a brilhar pela Roma, o Vitória perdeu por 7-0. Uma desilusão tremenda minha, também das dezenas de vitorianos que tinham vindo de Setúbal (o cantor Toy era um deles), até de Carlos Cardoso, uma velha glória do clube, que na época era o treinador.

Tenho de admitir que sou um adepto pouco empenhado. O meu pai foi sócio durante muitos anos, o meu filho é desde bebé porque uma prima fez questão de inscrevê-lo e pagar as quotas, mas eu nunca fui. E contam-se pelos dedos as idas ao Bonfim nos últimos anos, um jogo contra o Paços de Ferreira, sofrível, e um outro contra o Porto, que foi emotivo mas em que perdemos.

Repararam? Perdemos. Sim, porque desde que o meu avô Zé me levava miúdo à bola (recordo que o Silvino era o guarda-redes) que sofro com o que acontece ao Vitória. Sofro muito? É discutível. Há gente muito mais ferrenha, que sente mesmo muito na pele as vitórias e as derrotas. Mas sim, sofro. Vou sempre à procura de saber o resultado da jornada e sinto alegria ou tristeza segundo aquilo que fez o Vitória. E, claro, aquelas tardes em que no último jogo do campeonato ainda se decide se há descida de divisão ou não já terminaram comigo a buzinar o carro junto ao estádio.

Irrita-me quando me perguntam qual o meu clube e depois de dizer Vitória, acrescentam nova pergunta: "Sim, sim, e dos grandes?". Sou do Vitória de Setúbal, ponto final. E torço para que ganhe a qualquer rival, dando-me especial gosto quando é ao Benfica, ao Sporting e ao Porto. Acontecia mais vezes no passado, nos gloriosos anos 1960 e 70 da equipa de Jacinto João, o JJ, mas para a minha geração o grande momento foi mesmo a conquista da Taça de Portugal frente ao Benfica em 2005. Finalmente vi o Vitória ganhar um troféu, eu que cresci a ouvir falar de grandes finais da taça (uma muito especial com a Académica de Coimbra) e de grandes noites europeias frente a Leeds, Fiorentina ou Spartak de Moscovo. Devorei miúdo um livro do meu tio Narciso, escrito por Rui Tovar, que contava a história dos clubes de futebol portugueses. O meu Vitória era ainda o terceiro melhor clube português na UEFA, mas pouco faltava para o Porto começar a brilhar.

Fiz atletismo e andebol no Vitória. Andava na Escola Comercial e o estádio era ali perto, tal como também era (é) perto do liceu, e por isso tão apetecível para os jovens da cidade. Nunca me entusiasmaram planos para tirar o Vitória do Bonfim, estádio que até uma igrejinha antiga tem, e fazê-lo jogar nos arredores. Sei que seria uma forma de rentabilizar os terrenos, mas não me agrada. A minha cidade tem o Sado e a Arrábida, mas também tem o Bonfim, jardim e estádio. Quero que continue a ter, mesmo que os adeptos dos outros clubes não encham os restaurantes como antes. O próprio Bonfim quase nunca enche.

Sim, o meu único clube é o Vitória. E quem é adepto do Vitória de Guimarães, do Sporting de Braga, do Marítimo da Madeira, sabe bem o que isso significa. Somos porque somos, não porque os títulos abundem. E o meu Vitória ainda é o sétimo maior clube português se formos ver as contas do campeonato dos campeonatos. Há pouco tempo foi ultrapassado pelo Sporting de Braga, hoje com uma vitalidade que o Vitórria (para distinguir do vimaranense) não tem.

Tenho grande orgulho quando vejo o presidente de Cabo Verde dizer que é do Vitória, o Mourinho também, e no outro dia descobri, a ouvir a TSF, igualmente um professor universitário de Braga, nascido no Irão. Legado dos tempos de JJ, que um dia adorei entrevistar para o DN. Comparável só quando fiz uma reportagem no Barreiro com José Augusto, o craque benfiquista mas para mim sobretudo um dos magriços, autor de um dos golos do 5-3 à Coreia do Norte no Mundial de 1966.

Viva o Vitória. Não vou comentar a justiça ou não da despromoção. E gosto de boas contas em tudo. Mas na cidade sente-se que é muito injusto o que está a acontecer. A perda na secretaria de um lugar na I Liga que foi conquistado em campo. Nada tenho contra o Portimonense, a minha mãe até é de Portimão, mas aqui torço pelo meu Vitória, aquele que com Manuel Fernandes e Jordão empatou 4-4 com o Porto recém-campeão europeu, aquele que com Yekini deu uma coça no Bonfim ao Benfica.

O Vitória vai sobreviver. A cidade precisa do clube. Como tantas outras cidades portuguesas precisam do seu clube e o campeonato precisa de diversidade e competitividade. Contei já a história dos 7-0 em 1999, não foi? Pois no Bonfim, na segunda mão, ganhámos 1-0 à Roma e mostrámos que o Vitória Futebol Clube não é grande, é enorme. Desculpem lá os não vitorianos a crónica clubista.

Mais Notícias