Cabo Delgado – histórias de desencantar

Conheço Mocímboa da Praia desde 2010, altura em que a energia elétrica tinha hora marcada e era providenciada por um gerador municipal. Vila pacata com alguma construção colonial e um monumento impressionante, um mausoléu construído em 1956, de homenagem aos portugueses mortos durante a I Guerra Mundial, nos combates com alemães nos arredores do rio Rovuma, perto do local onde agora está a ser explorada uma das maiores reservas de gás natural do mundo. No dia 5 de outubro de 2018 a vila foi invadida por bandidos armados durante três dias. Durante os anos de 2018 e 2019 continuaram a acontecer ataques esporádicos pelos chamados insurgentes em diversas aldeias, sempre com o mesmo padrão: grupos de homens entravam armados nas aldeias, disparavam tiros para o ar, assassinavam algumas pessoas com requintes de terror, queimavam as casas e saíam. Esperava-se que depois do ciclone Kenneth que atingiu Cabo Delgado no dia 25 de abril de 2019, diminuísse o número de ataques, mas tal não aconteceu. Rapidamente os ataques passaram de aldeias para vilas como Quissanga e Macomia, culminando na situação atual em que os terroristas tomaram pela terceira vez Mocímboa da Praia, controlando o porto de mar.

Depois de estas vilas serem atacadas o destino dos deslocados começou a ser Pemba e os seus arredores, passando mesmo o rio Lúrio, entrando na província de Nampula. Estima-se que neste momento o número de deslocados internos já ultrapasse os 250 mil, provocando mais um drama humanitário na região.

Com o avolumar destes números, a Helpo começou uma forte campanha de apoio aos deslocados. Nas comunidades onde a Helpo tem projetos de educação foram sinalizados um total de 16 102 deslocados internos.

As histórias têm um denominador comum, já que praticamente todas as pessoas não fugiram por medo ou por prevenção, mas sim durante os ataques e correndo risco de vida. A maioria dos ataques são perpetrados durante a noite, as pessoas fogem para o mato onde chegam a passar cinco noites, conseguindo levar consigo pouco mais que a documentação, a roupa que trazem no corpo e a esperança de sobreviver.

Se o horror sofrido por estas pessoas é facilmente percetível, quando se conhece as histórias individuais o cenário fica ainda mais infernal.

Nordino Amade, filho de pai português que nunca conheceu, nasceu há 50 anos em Mocímboa da Praia. Vivia numa boa casa, tem carta de condução, era agricultor. Durante um ataque, os terroristas chegaram a sua casa, raptaram duas sobrinhas que viviam com ele, de 18 e 20 anos, e de seguida queimaram a casa. Nordino fugiu com a mulher e nove filhos. Caminharam cem quilómetros até Mueda onde conseguiu receber um valor de um amigo para viajar até Namialo, na província de Nampula, via Montepuez. Escolheu Namialo por ter um amigo que o alojou num pátio com algumas habitações precárias e porque não quer mais ouvir falar de Cabo Delgado. Neste pátio vivem agora 68 pessoas.

Mais a norte, em Silva Macua, distrito de Ancuabe, província de Cabo Delgado, conheci a história de Buana Amade, de 30 anos. Vivia em Sibolongo, Mucojo, com mulher e dois filhos, quando numa noite do jejum de Ramadão de 2019 acordou com tiros, a porta foi arrombada e tentaram raptar a sua esposa. Buana Amade encetou uma feroz defesa que permitiu não perder o seu ente querido. Em troca recebeu fortes golpes de catana bem visíveis na cabeça e nos braços. Neste momento tem uma terceira filha, de 4 meses de idade, que segundo os rastreios nutricionais da Helpo está a crescer dentro dos parâmetros normais. Na aldeia de Silva Macua foi recebido pelos pais da sua esposa, mas a maior parte dos "vientes" como são chamadas as pessoas que chegam de fora, ficaram alojados em casa de desconhecidos, como foi o caso de Guilherme Germias, o chefe da aldeia que acolheu 12 pessoas que não conhecia e que têm dificuldade de comunicação, por não dominarem o português e falarem apenas maconde, enquanto naquela área a língua falada é o macua.

Moçambique está a viver um drama humanitário e toda a ajuda é pouca para minimizar o sofrimento destas pessoas. Ao passar pela fila de mães que aguardavam com os seus bebés o rastreio nutricional da equipa da Helpo, via um olhar vazio, despido de esperança. Quando havia contacto visual com a lente da câmara, aparecia um brilho e um sorriso, que nos faz pensar que afinal as coisas não estão assim tão mal. Infelizmente as coisas estão mesmo mal e é importante que se escreva sobre esta catástrofe. Mas é preciso fazer muito mais do que escrever e tirar fotos.

Coordenador da Helpo em Moçambique

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