América desencantada

As próximas eleições dos EUA não mobilizam nenhuma paixão positiva fora dos EUA, e os ânimos que despertam entre os eleitores do país são ardentemente sombrios. Até os mais distraídos já perceberam que Trump - o mais perigoso presidente a sentar-se na Sala Oval e uma criatura paupérrima em decência humana - é uma consequência e não a causa da profundíssima degradação da sociedade e do sistema democrático-federal norte-americano. Uma corrosão que não só ecoa, mas sobretudo antecipa o que está a ocorrer e a expandir-se em muitas democracias pelo mundo fora, sem excluir alguns dos Estados membros da União Europeia. Por seu turno, Joe Biden é o candidato do resto do mundo, mesmo sem suscitar esperança ou entusiasmo. Desejamos que vença Biden, do mesmo modo como quereríamos ter um saco de areia por perto, em caso de bombardeamento, para nos protegermos dos estilhaços. Biden não irá, certamente, resolver nada, mas, pelo menos, promete uma pausa no ativismo maligno que tem transformado a presidência dos EUA numa ameaça para a própria integridade nacional, assim como num contumaz obstáculo a todas as iniciativas que ajudariam a sobreviver aos numerosos e complicadíssimos desafios existenciais da humanidade.

As complexas raízes políticas da persistente depressão norte-americana incluem: a venalidade insuportável do sistema político, cativo do "deus-dólar" (Eça de Queiroz, 1866); um Congresso transformado num descarado "leilão de leis" (Rawls, 1999); a nulidade dos grandes partidos transformados em máquinas de marketing, organizando convenções onde o debate está proibido. O mal-estar atual, contudo, mergulha na própria alma da sociedade norte-americana, em especial nessa capacidade que lhe era tão peculiar de alimentar a identidade coletiva com uma abundância mitológica omnipresente nas esferas da produção cultural e académica. Não só a indústria cinematográfica universaliza os ícones identitários do Novo Mundo, como mitos hermenêuticos e projetivos abundam na historiografia dos norte-americanos sobre si próprios. Um dos mitos mais influentes foi desenvolvido pelo historiador Frederick Jackson Turner (1861-1932), e ficou conhecido como "a teoria da fronteira da história americana" (frontier theory of american history). Partindo do estudo da conquista do Oeste, Turner criou uma espécie de "tipo-ideal" weberiano, de acordo com o qual o dinamismo dos EUA dependeria da existência de novos desafios a vencer, de novas metas a atingir. Foi essa lógica de fronteiras a transcender (e não a construir, como na doutrina Trump) que esteve presente no New Deal, na luta contra o nazi-fascismo-militarismo, ou na "corrida para a Lua". Hoje, no coração da política dos EUA, ninguém tem as mãos limpas de crude para transformar o desafio ambiental e climático planetário numa Nova Fronteira. Tal é a doença desta América, dilacerada por dentro, amputada da sua própria memória crítica, e sem bandeiras a partilhar com o resto do mundo. Esse mundo de que um dia se julgou ser farol e exemplo supremo.

Professor universitário

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