Corrida às apps de rastreamento de contactos. Mas será que funcionam?

Austrália lançou a sua nesta semana, à semelhança da estreada em Singapura ainda em março. Também há projetos em Portugal e os gigantes Google e Apple uniram-se num projeto que já está a ser abraçado pela Alemanha.

Em pouco menos de 24 horas, mais de dois milhões de australianos descarregaram nos seus telemóveis a aplicação de rastreamento de contactos desenvolvida pelo governo para ajudar a travar a propagação do novo coronavírus. A ideia é que, quando uma pessoa testar positivo, quem tiver estado próximo dela possa ser informado rapidamente.

A Austrália é o último país a aplicar esta tecnologia, mas não é o único. O problema é que, para funcionarem, estas aplicações têm de ser descarregadas por um grande número de pessoas. Além disso, há sempre dúvidas sobre a privacidade (quem tem acesso à informação) e o que é feito com os dados recolhidos pela aplicação (sejam estes guardados só no telemóvel ou centralizados numa base de dados).

A Austrália, um país de 25 milhões de pessoas, registou 6731 casos de coronavírus (mais 21 casos do que na véspera, sendo o aumento diário inferior a isso desde há uma semana). Já houve 84 mortes e 5626 pessoas recuperadas, o que representa pouco mais de mil casos ativos. A aplicação surge como mais uma ferramenta para permitir rapidamente levantar as restrições sociais no país.

A COVIDSafe funciona utilizando a função de Bluetooth do telemóvel para detetar outros utilizadores próximos (que também tenham descarregado a app). As aplicações trocam informações e os dados são guardados durante 21 dias. Quando os utilizadores fazem o download, têm que fornecer um nome (ou pseudónimo), indicar a faixa etária, o código postal da residência e o número de telemóvel.

Se o utilizador estiver infetado, tem que dar o consentimento à app para que a informação sobre os contactos dos últimos 14 dias seja fornecida às autoridades de saúde que, com base nos parâmetros escolhidos, podem então decidir quem deve ser alertado para o eventual risco de contágio. Até agora, esse trabalho é feito por equipas de investigadores, que tentam refazer os passos dos infetados e encontrar possíveis contágios.

Centralizar vs. descentralizar

A aplicação australiana vem no seguimento da que foi desenvolvida ainda em março para Singapura: TraceTogether, também baseada nos dados Bluetooth. E nesta cidade-estado de 5,7 milhões de habitantes, dada às tecnologias e onde a confiança no governo é elevada, apenas uma em cada cinco pessoas fez o download. O que mostra as dificuldades que outros países vão ter.

Na Coreia do Sul, por exemplo, estão a usar os dados de localização das pessoas por GPS ou através das operadoras de telemóvel para seguir o coronavírus e eventuais contágios. Mas isso significa uma vigilância centralizada, que é vista como mais invasiva e que vai contra as leis de privacidade em muitos países.

A Alemanha, por exemplo, acaba de desistir de desenvolver a sua própria aplicação, optando por aguardar pela iniciativa conjunta da Google e da Apple. Esta, que estará em princípio disponível em maio, irá apostar na descentralização, onde como acontece na aplicação australiana, os dados são guardados no telemóvel de cada utilizador.

Muitos outros países já estão também a apoiar esta solução conjunta dos dois gigantes das telecomunicações, que poderá até correr nos telemóveis sem a necessidade de qualquer (apenas com uma autorização expressa dos utilizadores), o que significava chegar a muito mais pessoas.

Além disso, a Apple não está disponível para autorizar o Bluetooth a funcionar em segundo plano nos iPhones em aplicações de terceiros, o que obriga os utilizadores destes telemóveis a terem a aplicação sempre ligada em primeiro plano.

Berlim tinha, até agora, apoiado um projeto a nível europeu, conhecido como PEPP-PT, que tem estado contudo sob forte pressão por causa do plano de armazenar as informações num servidor central -- que os críticos dizem poder ser mais uma ferramenta para a vigilância em massa por parte dos governos.

O Comité Europeu para a Proteção de Dados já recomendou que qualquer informação recolhida através das aplicações de rastreio do coronavírus devem ser armazenadas apenas nos telemóveis dos utilizadores e ser encriptadas.

O download e uso da app é voluntário, o que a deixa vulnerável. "As pessoas das artes performativas vão amarrar o telemóvel a um cão e deixá-lo correr à solta no parque. Os russos vão usar a app para lançar ataques de negação do serviço ou espalhar o pânico e o pequeno Johnny vai fingir os seus sintomas para obrigar que toda a escola vá para casa", escreveu o cientista da universidade de Cambridge, Ross Anderson.

Portugal e outros países

Em Portugal também está a ser desenvolvida uma aplicação pelo Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência, em parceria com o Instituto De Saúde Pública da Universidade do Porto que, segundo os seus responsáveis, cumpre escrupulosamente todas as regras europeias no que diz respeito à privacidade. Ainda não há data para o lançamento.

No Reino Unido, a aplicação que está a ser desenvolvida vai mais longe e permite ao utilizador colocar os seus sintomas, o que poderá enviar um alerta para os utilizadores com quem ele esteve em contacto. Caso não se confirme o coronavírus, os utilizadores recebem um OK, mas se for positivo, então recebem a mensagem de se autoisolarem. A aplicação, que opta pela centralização e não pela descentralização, deve estar pronta dentro de três semanas.

Em França, as autoridades tiveram luz verde da agência responsável por questões de privacidade para a sua aplicação, mas o governo de Édouard Philippe decidiu por enquanto adiar a tomada de uma decisão. A ideia é debater o tema e votá-lo no Parlamento quando a aplicação estiver concluída.

Na China, o uso da tecnologia é total, havendo códigos de QR em vários locais (desde o escritório ao centro comercial ou os transportes) que o utilizador tem que ativar com o seu telemóvel, aguardando pelo sinal luminoso sobre se pode passar ou não: verde está tudo bem, amarelo ou laranja é necessário quarentena por sete dias, e vermelho é para casos com covid-19 ou que estiverem em contacto próximo com um e têm que ficar em isolamento.

Em Taiwan, a tecnologia é usada para vigiar quem está em quarentena e garantir que não saem de casa. Se o telemóvel for desligado, é lançado o alerta às autoridades, havendo pelo menos dois contactos por dia para garantir que o utilizador não deixou o aparelho em casa. .

Israel lançou a The Shield no final de março, que é semelhante à app australiana. Inicialmente seguiam também os dados de GPS das pessoas, mas questões de privacidade obrigaram a um passo atrás.

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