Preparemo-nos: basta não andar distraído e ser solidário

À atual emergência de saúde pública está a corresponder um autêntico sismo civilizacional, com várias ondas de choque. Uma delas é a do choque ideológico. Como em tudo na vida, há sempre uma lição a aprender, até mesmo com as coisas más. A primeira grande lição da crise sanitária global é a de que precisamos de um Estado decisor em áreas como a saúde e a segurança básica. Percebemos melhor, agora, que isso é decisivo para a nossa sobrevivência. Outra lição é a de que é em tempos de exceção que se cimenta a igualdade. Outras haverá e teremos tempo de estudá-las.

No último debate parlamentar quinzenal, assistimos à apologia da intervenção estatal por quem sempre promoveu o seu contrário. Talvez o único comentário a fazer seja o de que a lucidez calha felizmente a todos, ainda que a alguns mais tardiamente do que a outros. A "mão invisível" de Adam Smith não se vê cada vez melhor e em todo o lado? Mas essa é outra reflexão e outra história que temos de contar.

A segunda onda de choque é a económica. De repente, faltou-nos o chão da normalidade. À força, percebemos a importância que um cinto de segurança tem em qualquer circuito económico. Neste sentido, está a ser adotado pelo governo um arco de medidas que visam aliviar as famílias e proteger o tecido empresarial. É sobretudo aí e a nível do acompanhamento social que é necessário atuar. O governo português soma e segue.

É imperativo proteger não só a atividade que estagnou, mas a que se mantém, ainda que fragilizada, como a da agricultura, do comércio do take-away e ao domicílio, da saúde e das cadeias de abastecimento. A todos os seus trabalhadores, tal como aos dos serviços urbanos, toda a gratidão manifestada é pouca. Nunca é de mais agradecer a quem, secundarizando-se, literalmente nos alimenta, limpa, transporta e cuida.

A todos estes choques a Europa acrescenta mais um - o identitário. Não é uma novidade, como sabemos. Por resistência de alguns países, a Europa teima em não sair completamente de um armário que já ninguém sabe muito bem qual é. A Europa tem de ter mais para oferecer a si mesma do que uma mão-cheia de nada, vazia de empatia e sensível apenas na exigência do cumprimento de regras. É urgente que alguns responsáveis políticos europeus caiam em si. Seja por eurobonds seja pela preparação adequada de um programa de recuperação económica pós-pandémico baseado na solidariedade, há que recusar os instrumentos e soluções financeiras do passado. Não passam de placebos.

Que mundo vai ficar depois? Não pode ser o mundo que não é para velhos, que Trump e Bolsonaro querem. Se agora temos de "privatizar" os afetos, liberalizemos a solidariedade, em modo neo e ultra. A vida humana não pode ser combustível para a economia nem o medo para o ódio.

Deputada do PS

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