Amor, otimismo e delicadeza

Um grande escritor brasileiro, Alvaro Moreyra, deixou centenas de pequenas receitas dessas qualidades tão necessárias nos dias de hoje.

Em tempos de desesperança, como o nosso, aplico uma receita, para mim, infalível. Releio o jornalista, poeta, dramaturgo e cronista brasileiro Alvaro Moreyra (1888-1964), principalmente suas memórias, As Amargas, Não..., publicadas em 1954. Ninguém amou tanto a vida, viu-a com tanto otimismo e falou dela com tanta delicadeza como ele. E talvez sejam estas algumas palavras a que deveríamos nos apegar nos dias de hoje: amor, otimismo, delicadeza. Eis uma pequena amostra de Alvaro:

"O céu é uma cidade de férias."
"Não devemos falar mal do nosso tempo. Ou por originalidade ou por inutilidade."
"Sou contra o equilíbrio. Acho que a gente deve cair para poder levantar-se."
"Eu não levo as asas com que vim. Desmanchei-as pela estrada. Levo as penas que sobraram."
"No meu telhado, as andorinhas ainda fazem verão.""Esqueci o berço. Não esqueci o colo."
"É um pássaro pousado, quieto, na ponta de um ramo. E, de repente, abre as asas, atira-se no espaço, voa. É outro pássaro."
"Um amigo que morre é um amigo que nunca se perde."
"Ninguém é. Todos parecem. Somos tantos quanto são os que nos veem, inclusive cada um de nós quando se olha."
"Apenas uma vez fixei os olhos de uma coruja. Baixei a cabeça, para sempre. São os olhos do Juízo Final..."
"Os olhos das corujas condenam. Os olhos dos burros perdoam."
"O burro é um perdão ambulante."
"[O homem] não possui nenhuma das virtudes que tornam os burros animais exemplares: a paciência, a compreensão, a bondade. Tenho conhecido muitos homens burros. Ainda não conheci um burro homem."
"Reticências... São elas que dizem o que não se consegue dizer... São as ressonâncias da sensibilidade... Também uma nota de órgão não morre logo..."
"Eu fui poeta. Descaradamente. Com rimas. Com uma gravata roxa. Magrinho. De pince-nez. Hoje, de óculos, penso naquele rapaz como num amigo morto."
"Deus chega de tarde."
"Em geral, a vida separa. A morte apenas ausenta."
"Nunca tentei fazer a reconciliação da minha alma com o meu corpo. Os dois não se dão - ele pensa de um modo e ela sente de outro."
"Nascer já é uma consequência. Outras consequências resultam desta."
"Que mau gosto, odiar. Que beleza, querer bem!"
"Falar é despedir-se. Estas palavras não voltarão."
"Não nasci para chefe. Chefe manda. Eu peço. Peço que não me mandem."
"A vida é a fila [bicha] da morte. Nada de cara amuada na fila."
"Ninguém envelhece. Os anjos da guarda não deixam."
"Com uma coisa nunca me conformei: "Tu és pó e ao pó voltarás." Pó, não. O acidente do corpo não tem tanta importância. O que vale é a alma. Vamos substituir uma por outra? "Tu és luz e à luz hás de voltar.""
"Que biblioteca, a velhice!"
"Sábado, muita gente vai para fora. Eu, em geral, vou para dentro."
"Hamlet fala. Carlitos [Charlot] cala. Da voz nasce a descrença. Do silêncio nasce a fé."
"Nascemos para a companhia. O amor é um canto coral."
"O verbo da vida é andar. Nunca pensei em sair desta primeira conjugação."
"Tenho, às vezes, vontade de ficar velho, para saber como será."
"Cada um carrega o seu deserto".
"No espelho somos muitos. Na memória, um só..."
"De todas as artes, a vida ainda é a mais inteligente."
"Há, decerto, santos anónimos. Passaram pelo mundo desconhecidos e, desconhecidos, seguiram para a eternidade. Não têm devotos. Ninguém lhes pede nada. São, talvez, os santos mais felizes."
"Cada um dorme o seu sono. Acordados, todos vivem com todos."
"Morrer antes do Carnaval! Nunca!"

Vejo agora que Alvaro, que não conheci, era delicado também ao falar da morte. Em As Amargas, Não..., ele sugere deliciosos epitáfios para seu túmulo - a que só chegaria dez anos depois. Eis alguns:

"Que silêncio, hein?" "Peço apenas migalhas de pão para os pardais." "Parei de rir. Parei de chorar. Morri?" "Não contem anedotas. Sei todas." "Com certeza sinto falta do mar." "Foi para isto então?" "Escutem, agora sou apenas uma alma. Sabem lá o que é isto?" "Não tenham mais medo. Já podem dizer todo o bem que sabem de mim." "O grande domingo!" "Realizei o desejo: a casa de campo." "Não tragam flores. Plantem uma roseira aqui." "Afinal, envelheci!" "Obrigado!"

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros, O Anjo Pornográfico - A Vida de Nelson Rodrigues (Tinta-da-China).

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