Álvaro Marques percorre os livros que existem nos Penicheiros. Antes do 25 de Abril, estavam escondidos

PCP

Num bastião comunista, o povo tenta perceber a dimensão da queda da CDU

As diferenças que existem entre tropeçar e cair. Foi essa a discussão que tomou conta de uma praça com grande tradição comunista no Barreiro, um dia depois de o partido alcançar o seu segundo pior resultado de sempre em eleições nacionais.

"De esquerda somos, comunistas é que já não somos sempre", e Ana Viegas não proferia esta frase de ânimo leve. Ao mesmo tempo que tirava duas bicas da máquina, acertava as suas conclusões sobre a noite eleitoral de domingo com a vizinhança: "Foi um trambolhão."

No café da praça dos Penicheiros, coração do Barreiro Velho, a clientela é maioritariamente comunista e a dona da casa não é exceção. Na segunda-feira, quando se juntaram os habituais a discutir os resultados das europeias, ninguém falava da derrota da direita, da vitória do Bloco ou do aparecimento do PAN.

"Aqui somos criados a foice e martelo", explicou-se a mulher com um sorriso. Então a conversa era apenas e só sobre o que acontecera com a CDU.

Com 228 125 votos, os comunistas tiveram o seu pior resultado de sempre em eleições europeias. E o segundo pior de sempre em eleições nacionais - só a candidatura de Edgar Silva às presidenciais de 2016 foi escolha para menos portugueses (teve 182 206 votos).

Em 2017 as coisas também não correram bem nas autárquicas e o PCP perdeu dez das suas 34 câmaras, entre as quais alguns bastiões históricos como Almada, Beja, Barrancos ou o próprio Barreiro.

Este pequeno largo no centro da cidade velha é um bom promontório para tentar perceber as mudanças por que passa o Partido Comunista.

Aqui se conta uma parte da história da resistência ao fascismo, aqui se construiu uma base de apoio sólida para a formação nas primeiras décadas da democracia e aqui se assiste a um cenário que até há poucos anos seria difícil de imaginar.

No Barreiro, a CDU passou de primeira para segunda força política nas europeias entre 2014 e 2019 - de 10 756 para 6431 votos. PS e Bloco cresceram precisamente à conta das suas perdas.

"A fatura da geringonça é o PCP que a está a pagar", defende convictamente o Banana, que na verdade se chama Fernando Torres, homem que recolhe o lixo das ruas da praça. É filho e neto do Barreiro, dói-lhe ver o seu partido esmorecer.

"Não acho que seja um trambolhão. O PCP caiu de joelhos, mas vai levantar-se."

Tem uma teoria para os resultados: ao ter de negociar com o PS, os comunistas mostraram-se menos em luta - que é como o eleitorado está habituado a vê-los. "A malta nova, que já não liga muito à política, agora ainda vê menos a diferença para os outros partidos."

Banana acaba o cigarro e arrepia caminho. Tem muita rua para varrer, não lhe sobra vagar para mais conversas.

A longa história de resistência

O Largo dos Penicheiros chama-se na verdade Praça Gago Coutinho e Sacadura Cabral, ainda que ninguém o conheça por esse nome. Também lhe chamam Largo Casal, apelido do dono daquelas terras no início do século XX.

Mas se alguém perguntar pelos Penicheiros, dificilmente haverá um barreirense que não saiba indicar a localização exata.

Esse é o nome da Sociedade de Recreio e Instrução Barreirense, um enorme edifício na fachada norte da praça. Foi fundada em 1848 como filarmónica, mas uma cisão interna em 1870 dividiu os sócios em dois grupos, Franceses e Penichenses.

Os primeiros ficaram com a memória das invasões napoleónicas, os segundos com a homenagem ao benemérito conde de Peniche, sócio nos primeiros anos.

Aqui davam-se aulas de música e organizavam-se bailes ao fim de semana, incluindo competições de foxball, nos quais casais que dançavam o foxtrot tentavam marcar golos nas balizas instaladas nas pontas do salão.

A partir dos anos 1940, com a chegada massiva de alentejanos e algarvios para trabalharem na indústria petroquímica e nas corticeiras, a associação tornar-se-ia também palco de muitas tertúlias, muitas delas de contestação ao salazarismo.

"No largo ficavam muitas vezes à espera os informadores da PIDE e a GNR, mas aqui dentro falava-se em surdina do regime", lembra Álvaro Marques, 77 anos, sócio desde o nascimento.

"Combinavam-se os jornais clandestinos, a colagem de cartazes, que depois eram impressos nas salas de cima ou no cineclube, também no largo." A história mais extraordinária, no entanto, é literária.

Como qualquer associação que se prezasse, os Penichenses tinham uma biblioteca bem recheada, onde os contestatários sabiam poder encontrar livros proibidos pela Censura.

Havia obras do Marx e do Mao Tse-tung, sobre colonialismo e libertação dos povos, e variadíssimos exemplos da luta pela independência de várias nações africanas.

"Dizia-se que havia uma parede falsa onde estes livros estavam escondidos, e depois do 25 de Abril fomos lá tirá-los", recorda o homem. Mas não era afinal uma parede falsa a esconder tanta literatura, eram os degraus da escadaria. "Puxaram-se as tábuas de madeira e ali estavam eles, uma verdadeira relíquia."

Emília Adelaide, 79, lembra-se bem dessa história. Na cadeira onde hoje se senta, na esplanada do café da praça, começou a sua educação revolucionária.

"O meu marido era militante comunista, muitas vezes teve de passar à clandestinidade. Eu também me tornei a conversar com ele aqui, nesta mesma rua."

Abre a carteira para mostrar orgulhosa dois tesouros, o cartão de militante do PCP e uma foto do companheiro, António Villas-Boas, o Vilas. Daqui saía ela com outras mulheres para colar cartazes às portas das fábricas. "Uma vez caí do escadote e aleijei-me, mas não podia ir ao hospital. Como é que ia explicar uma queda àquela hora da madrugada?"

Perceber o tempo

Emília não se conforma com o que está a acontecer no partido que sempre foi seu. "Sabe o que acho? Para a malta nova, a liberdade é uma coisa garantida. Hoje ninguém acha que seja preciso lutar por ela."

Acredita que o tempo dos comunistas é o da sua geração, que o partido continuará a perder eleitores à medida que as condições de vida forem melhorando e os direitos estiverem assegurados. "Mas se a extrema-direita voltar a subir como agora se diz, se as pessoas começarem a perder a liberdade e os direitos, vai ver como o PCP volta."

Raul Malacão, 82, tem opinião parecida. Foi presidente da Junta do Barreiro de 2001 a 2013 pela CDU, e não se espanta assim tanto com a perda de votos que tem sido constante desde 2016.

"Sabe, o Barreiro tinha uma GNR ferocíssima que perseguia e metia um medo danado às pessoas. Não é só por esta ser uma terra de operários que se explica o bastião comunista. É pelo terror que toda a gente sentia e pela ousadia de enfrentá-lo que o PCP nos garantia."

Em 1974, o povo exigiu que viesse a PSP e os ânimos acalmaram. "E, ao longo dos anos, o clima antissalazarista vai-se esbatendo." Os Penicheiros passam a organizar festas de rock, os cafés do largo onde antes se conspirava vão fechando portas, um certo tempo foi chegando ao fim.

Malacão acredita que a abstenção é filha de uma urgência que deixou de existir. Mas que esse ciclo "será interrompido, mesmo pela mão da malta jovem, quando virem o empobrecimento e a extrema-direita recuperarem".

A meio da tarde começam a chegar os mais novos ao largo, vindos da escola e dos empregos. Ninguém quer dar a cara, mas Fábio Mestre, 27, pede a palavra. "O Barreiro é de esquerda e isso faz parte da nossa identidade. Se Aveiro tem os ovos-moles nós temos o comunismo", graceja. No último dia de campanha, Jerónimo de Sousa esteve inclusivamente aqui, para uma arruada - o Barreiro é importante para os comunistas.

Mas Fábio acredita que o tempo do PCP já não é o seu. "Os reformados gostam do Partido Comunista, os que estão na meia-idade preferem as ideias mais arejadas do Bloco e a minha geração já vai pelas margens, por partidos ambientalistas ou com mensagens muito específicas."

Aqui, no entanto, ganhou o PS. "É verdade, mas não há de ter sido com o apoio dos mais jovens. Esses estão fartos de ver os partidos mais interessados em atacarem-se do que em construir. Abstêm-se."

Pode contrariar-se a sua ideia: houve uma geringonça, os partidos à esquerda uniram-se. A isso Fábio responde nas legislativas. Aí acredita que a esquerda volte a ganhar. E que o PCP até ganhe um balão de oxigénio.

E diz isto: as coisas até podiam não ter corrido tão mal aos comunistas se não tivessem apostado no que o rapaz diz ser uma fórmula gasta. "Então o candidato que ainda há pouco tempo estava a dizer que só se preocupava com Lisboa vem agora dizer que a preocupação dele é a Europa?" Fala de João Ferreira, candidato nas autárquicas à capital e cabeça-de-lista nas europeias.

A queda do PCP tem variantes de gravidade quando os habitantes do Largo dos Penicheiros se põem a olhá-la. Mas ninguém ainda acredita que o partido que se fez mítico na terra tenha deitado a toalha ao chão.

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