"Estive quatro dias em casa: um a carpir, três a limpar e ao quinto fomos trabalhar"

Transmontana de Macedo de Cavaleiros, Justa Nobre trouxe outros sabores para Lisboa, onde, com a família, criou o restaurante O Nobre. A pandemia fê-los fechar as portas de repente, para as abrir na mesma semana com takeaway. Mas os clientes tardam em aparecer e a chef só espera grandes melhorias do negócio em setembro.

Os restaurantes reabriram a 18 de maio. Como é que passaram este primeiro mês após o estado de emergência?
Com esperança em melhores dias. Abrimos o restaurante logo na terça-feira [dia 19], as pessoas estão a começar a aparecer, sente-se que estão com vontade de sair de casa. Temos clientes que vieram mais do que uma vez, há dias muito bons, como o domingo ao almoço, há outros mais calminhos. O restaurante é um sítio muito seguro para as pessoas frequentarem, com tantas regras e tantos cuidados. Sempre tivemos muito cuidado, como ter tudo bem limpo e desinfetado, agora mais ainda. As pessoas podem sair e vir aos restaurantes com toda a segurança.

Estão a conseguir recuperar?
Ainda não, mas havemos de nos adaptar. Desejamos que as pessoas venham, queremos as nossas vidas, o nosso trabalho de volta. Durante o estado de emergência abrimos com o takeaway ao almoço, com serviço de estafetas para fazer as entregas ao domicílio ou nas empresas, o que mantivemos. Os dias entre a Páscoa e o Dia da Mãe foram muito bons, depois começou tudo a ficar um bocadinho mais calmo. Temos notado um aumento gradual de clientes, mas muito devagar. O que é que vamos fazer daqui a seis meses, não fazemos a mínima ideia, andamos todos um bocadinho à nora.

O takeaway foi uma aposta ganha?
Foi uma aposta ganha e mantém-se, não com a mesma intensidade porque, entretanto, o restaurante reabriu. As casas particulares são os principais clientes, as empresas estão praticamente fechadas, têm os escritórios com pouca gente, ninguém vem trabalhar, são poucos os pedidos.

Qual é a percentagem de negócio que conseguiram recuperar?
Um terço do negócio, ou talvez um bocadinho mais, com tudo - a sala e o takeaway. Com a entrega de comida cheguei a ter cem encomendas ao fim de semana e agora tenho quatro ou cinco porque, entretanto, abrimos o restaurante. Na sala, tenho feito mais almoços do que jantares, mas se faço 40 almoços ao domingo, há dias de semana em que não chego aos dez.

Tem funcionários em lay-off?
Só estão três em lay-off, todos os outros regressaram ao trabalho. Queremos continuar a prestar um bom serviço e é preciso muita gente. O trabalho tornou-se mais complicado, com a desinfeção permanente, a comida tem de vir toda tapada, etc.

Quantos funcionários?
Somos 24 pessoas naquela casa, é muita gente. O Nobre sempre foi conhecido por ter boa comida e um bom serviço, não queríamos tirar esse privilégio aos nossos clientes.

Estão a pensar fazer alterações na ementa ou dos preços?
Não, se aumentarmos os preços as pessoas não vêm. Tirei só três a quatro pratos da ementa. Há quem venha por certos pratos, tenho clientes que nem olham para a ementa. Vamos ver como nos aguentamos e durante quanto tempo, para já, não fazemos previsões. Sou contra despedir, eu e a minha família gostaríamos muito de não ter de despedir ninguém, mas sei lá se algum dia teremos de fazê-lo. Como pode imaginar, todos os meses estamos a perder dinheiro, vamos vendo as coisas dia a dia. O melhor que nos podia acontecer era que as pessoas começassem a sair da casa, para começarmos a trabalhar. Não precisamos de nada, não queremos apoios, só precisamos de clientes.

Significa que este primeiro mês de desconfinamento correu pior do que esperavam?
Esperávamos mais, mas, como sou sempre otimista, espero que as coisas melhorem. Sabemos que junho não é um mês para contabilizar, sempre foi fraco, a seguir vêm julho e agosto, que são meses de férias, também não serão muito bons. Estamos à espera de que em setembro as pessoas venham com vontade de comer. Precisamos que os escritórios abram, se estiver tudo a trabalhar em casa é difícil as pessoas saírem, precisamos que venham trabalhar. O dinheiro roda, tem de circular de uns para os outros, o empregado tem de sair, meter gasolina, andar nos transportes públicos, ir às compras, comer, o dinheiro tem de circular de uma mão para a outra. Se as pessoas ficam trancadas em casa, o dinheiro não circula e é muito mau para a nossa economia, não é só mau para os restaurantes.

Qual é, agora, a ocupação do restaurante?
Tínhamos 80 lugares e baixou para 40, mas tomáramos nós que fossem ocupados os 40 lugares da sala, já fazíamos 80 refeições por turno. Há pessoas que vêm comer mais cedo e outras mais tarde, dá para fazer duas mesas, o problema é que não temos clientes. Esta situação não é má só para os restaurantes, é mau para todos os setores. Em casa retraímo-nos mais em determinados gastos.

Qual é o perfil dos vossos clientes?
Mais de 90% da nossa clientela é portuguesa, sempre foi. Os estrangeiros iam mais para os sítios turísticos, das festas, mas onde estamos [Campo Pequeno] nunca foi bom. No verão temos muitos turistas portugueses que vêm visitar a cidade e normalmente visitam-nos uma vez ou duas vezes, espero que também venham neste ano. Agora é que é bom visitar Lisboa, há menos turistas, menos gente, podem ir aos museus, ver os monumentos, passear, etc.

Fecharam alguns dias durante o estado de emergência?
Só estive quatro dias em casa: um a carpir, três a limpar e ao quinto fomos trabalhar.

Tiveram dificuldades no abastecimento de bens alimentares?
Não, quando fui obrigada a fechar tinha as câmaras frigoríficas cheias, e depois, temos os nossos fornecedores, os agricultores, os supermercados. A única dificuldade é a falta de clientes.

No vosso restaurante não podem ter esplanada.
Não, mas digo-lhe uma coisa, no outro dia passei ao pé de uma esplanada em que as pessoas estavam a comer com o lixo a cair em cima. Não gosto de esplanadas assim, prefiro estar numa casa higienizada.

Há alguma lição a tirar desta pandemia?
Precisamos de estar mais unidos, sempre estivemos habituados a contar com os outros, à espera que nos venham ajudar e, agora, estamos nas nossas mãos. Claro que continuaremos a precisar de turistas, de exportar e de importar, mas temos de dar valor ao que temos, só assim chegaremos a algum lado. Também temos de pensar mais no planeta, que estava a ficar muito danificado. As pessoas estavam a enveredar por uma lógica muito egoísta, pode ser que o ser humano comece a pensar mais em que nem tudo está nas suas mãos. De repente, o mundo parou e isso vai levar a mudanças, só não sabemos para que lado.

O que é que a preocupa mais?
Preocupa-me muito o desemprego, o desemprego traz infelicidade, problemas, mais assaltos, mais malandragem, preocupa-me tudo, gosto de ver as pessoas felizes. Quando começar a haver casais desempregados, com filhos para sustentar, não vai ser fácil, preocupa-me muito. Não acredito que os governos, nem o nosso nem o de todos os outros países, consigam deitar mão a isto, não se consegue.

Tem esperança de que as coisas melhorem?
Tenho sempre essa esperança, temos de continuar com a nossa vida, o mundo não para, travou um bocado, mas não para. Temos de controlar melhor as despesas, os nossos passos, repensar um pouco mais nas contas, principalmente quem vive do ordenado.

Sentiu união na sua classe profissional?
Conversámos muito uns com os outros, as preocupações são as mesmas, mas nenhum de nós tem a solução para o problema. Estamos todos apreensivos com a situação e cada um anda a tratar da sua vida da melhor maneira que pode e sabe fazer. Fazemos o que sabemos e podemos, continuamos unidos.

Recuperou a vida que tinha?
Como estou sempre a trabalhar não tenho tempo para muita coisa, sempre foi assim. Mas ainda no outro dia consegui tirar um fim de semana para sair de Lisboa com o meu marido e os meus netos. Era do que tinha mais saudades, de estar com os meus netos, três netos, de resto não sinto falta de mais nada.

Não fecham o restaurante para férias?
Nunca fechámos e, neste ano, também não vamos fechar, apesar de haver poucos clientes. Algum dinheiro que entre, sempre é dinheiro. O Nobre é um restaurante de família, trabalham lá as minhas irmãs, quando vai uma de férias fica a outra, revezamo-nos.

Quando pensa que poderá alcançar o mesmo nível?
Calmamente, penso que as coisas vão endireitar-se, quando as pessoas começarem a ir para o local de trabalho. Mas penso que antes de setembro não mudará muito, agora vem o verão, os filhos estão em casa, não espero grandes mudanças para já.

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