Procura por recuperação das aprendizagens abre centros de estudo em agosto

Os pais estão a recorrer a estes centros para colmatar o que possa ter falhado na aquisição de conhecimentos durante um fim de ano letivo atípico e à distância para a grande maioria dos alunos. A procura é feita em grande parte pelos 1.º e 2.º ciclos, anos em que as aprendizagens de base possam ter saído mais comprometidas.

Aproximava-se a altura de fechar os livros e encerrar as portas para férias, mas os desafios impostos pela pandemia de covid-19 sobre o ensino estão a obrigar os centros de estudo a fazer novos planos. Agosto já não será mês de férias para grande parte deles, confrontados com pedidos de pais para planos de recuperação de aprendizagens para os filhos, ainda antes de o ano letivo arrancar - o que está previsto acontecer entre 14 e 17 de setembro -, para colmatar as mazelas que o ensino à distância possa ter provocado no percurso escolar de determinados alunos.

A mais de um mês para este arranque, "há pais que já estão a apostar em planos de revisões para o próximo ano, "conscientes de que o ensino à distância não foi suficiente" e que deixou lacunas nas aprendizagens. "Eles têm essa consciência e querem ajudar os filhos a recuperar, antes de começar as aulas", explica o diretor de franchising da Explicolândia - que alberga unidades de centros de estudo, criadas em 2004, espalhadas por várias localidades do centro e sul do país. José Carlos Ramos disse ao DN que os encarregados de educação mostram-se preocupados perante a possibilidade de que os cenários resultantes da suspensão das atividades letivas "comprometam os resultados do próximo ano letivo".

A única exceção desta suspensão foram os alunos dos 11.º e 12.º anos de escolaridade, que regressaram ainda em maio às escolas, uma vez sujeitos a exames nacionais. Por isso mesmo, o representante da Explicolândia diz que "os ciclos de escolaridade mais procurados para os Planos de Revisões são o 1º e o 2º ciclos, nomeadamente do 2º ao 6º anos de escolaridade". "Sendo estes os anos de escolaridade em que os alunos têm uma menor autonomia, manifestando uma grande dependência dos pais na utilização dos meios tecnológicos no suporte e apoio para a realização de trabalhos escolares", esclarece.

Um fenómeno que se estende a outras zonas do país. Desde julho que Maxime Ventura, 34 anos, dono de um centro de explicações no centro da cidade do Porto, tem recebido propostas de pais para apoio às aprendizagens perdidas ou mal consolidadas. "Nesta altura do ano costumava já estar encerrado para férias e este ano ainda estou com o centro aberto", admite.

O próprio Governo assume que o ensino à distância pode ter formado lacunas nas aprendizagens de vários alunos e, por isso, planeia que as cinco semanas iniciais do ano letivo sejam dedicadas à recuperação de conteúdos, segundo orientações enviadas às escolas. Ao mesmo passo, irá reforçar este ano os programa de tutorias, alargado agora ao ensino secundário.

Entre as disciplinas mais procuradas para estes planos de recuperação estão Matemática, Português e Inglês, adianta José Carlos Ramos.

Centros aguardam exames tardios para sobreviver a ano difícil

Ao contrário do habitual, e porque os novos tempos o exigem, setembro abrirá com a segunda fase de exames nacionais para os 11.º e 12.º anos, depois de o calendário ter sido adiado por força da pandemia. Por isso, não são apenas os estudantes mais novos que os centros de estudo esperavam ver nas suas instalações nos próximos tempos. Há uma esperança comum de que esta segunda fase traga alunos que a pandemia retirou à força.

Leonor Sousa, 53 anos, proprietária de um centro na Boavista, no Porto, lembrava ao DN como a crise sanitária colocou termo àquele que se esperava ser "um dos melhores anos de sempre". "A perspetiva era muito boa, até relativamente ao ano anterior, porque as pessoas estavam com menos dificuldades económicas, a economia estava a melhorar. Esperávamos um dos melhores anos de sempre", admitia. Até março, tinha a casa cheia. Ao todo, contabilizava cerca de 60 estudantes, alguns com explicações individuais, outros no apoio ao estudo - um serviço mais diário.

Com março, chegou a queda abrupta de todas as expectativas. O rombo nas finanças de Leonor logo naquele primeiro mês em que foram detetados os primeiros casos de covid-19 em Portugal rondou os 90%. Agarra-se, agora, a um agosto aberto para recuperação de aprendizagens de alguns alunos, mas esperançosa de que uma segunda fase de exames nacionais adiada possa trazer "procura de explicações".

Mas se é certo que a "necessidade de apoio vai haver", também é certo que haverá famílias com menos possibilidades financeiras para recorrer a estes apoios, alerta José Carlos Ramos, da Explicolândia. E, frisa, "as condições socioeconómicas são determinantes no sucesso". "Os alunos com maiores capacidades de aprendizagem, pertencentes a níveis socioeconómicos mais elevados e famílias estruturadas, conseguiram mais facilmente minimizar as dificuldades do ensino à distância."

Consciente de que a atual pandemia se fará sentir de forma mais ou menos robusta no negócio das explicações, por força de uma crise financeira que se instala paralelamente à sanitária, Maxime Venture, dono de um centro de estudo no Porto, avizinha dias difíceis. Embora vá permanecer aberto pelo menos até 15 de agosto, não está certo de que conseguirá gerir os custos do centro além deste dia. "Não o suficiente para as despesas correntes. Não é viável estar aberto o mês todo com tão poucos clientes", remata.

Ensino à distância aguçou diferenças e pode deixar "traumas para a vida"

Embora seja cedo para aferir qual o impacto que o ensino à distância implicou no percurso escolar de vários alunos, "é inevitável, de uma forma global, que este tempo afastados da escola se faça sentir" em cada um deles e, para alguns, a experiência pode significar "traumas para a vida toda", diz a psicóloga clínica Catarina Lucas.

Tendo a escola "a função de tornar todos os miúdos iguais, sem distinguir de quem somos filhos", "a partir do momento em que estudamos em casa, essas diferenças começam a ser mais notórias" e "deixamos de estar em pé de igualdade", alerta. A especialista, que durante anos trabalhou em psicologia infantil, lembra: "se tiver um pai que me ajuda a estudar, que compreende a matéria e a revê comigo, é possível que eu tenha um rendimento escolar superior a outro colega que não tem pais que consigam acompanhar. O mesmo se eu estiver numa casa com todas as condições e o meu colega viver numa casa com muito barulho e a passar frio".

Ainda que todos os alunos possam partir "com um défice", "dentro disto, vamos sentir ainda mais as diferenças entre contextos" e "há miúdos que, de facto, vão sentir-se mais atrás face aos outros", esclarece, lembrando que a sensação de ficar para trás pode ser levada com mais ou menos leveza por determinadas crianças e jovens. Mas, regra geral, "pode ser traumático e pode trazer traumas para a vida toda".

Catarina Lucas alerta: "isto mexe com a nossa autoestima, com a consciência de 'eu não sou tão bom como' ou 'eu não consigo fazer o que o colega faz'."

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