Ricardo Mexia: "Estamos todos um pouco apreensivos com o que vai acontecer agora"

O aumento do número de casos diários de covid-19 nos países mais próximos, como Espanha e França, cria uma certa expectativa sobre o percurso epidemiológico de Portugal, que também viu as infeções a subir nos últimos dois dias. "Não podemos baixar a guarda", alerta o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública.

Na quarta-feira foram confirmados mais 362 casos de infeção pelo novo coronavírus em Portugal. Nesta quinta, o mesmo indicador subiu aos 399. O crescimento dos casos diários, nos últimos dois dias, pode não passar de um acerto estatístico, lembrou ontem (dia 26) a ministra da Saúde, mas não deixa de ser um alerta para "a fragilidade das nossas conquistas", referiu ainda Marta Temido.

Numa altura em que o número de novas infeções tem aumentado de forma significativa em Espanha, em França ou no Reino Unido, por exemplo, o governo português anunciou, nesta quinta-feira, mais medidas de prevenção. Já o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública lembra que a pandemia não desapareceu e que setembro trará novos desafios (como o regresso às aulas presenciais), que podem repercutir-se no número de casos de covid. "Estamos todos um pouco apreensivos com o que vai acontecer agora", diz, ao DN, Ricardo Mexia.

"Não podemos baixar a guarda, principalmente neste período de retomas, do fim das férias, do início da atividade letiva. Tudo isso terá um impacto importante, principalmente se começarmos esse período com um número de casos desta índole", aponta o especialista em saúde pública do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.

Desde segunda-feira que a Direção-Geral da Saúde confirmou mais 1076 casos de covid-19, ainda que, nos dois primeiros dias da semana, as infeções diárias não tenham chegado a atingir a barreira dos 200. Nesta quinta-feira, os 399 casos são o maior número de registos em 24 horas desde o dia 10 de junho (quando foram notificados 402). A região de Lisboa e Vale do Tejo, onde residiam as duas vítimas mortais do último dia, é a que regista mais infeções (186), seguida pelo norte (161).

São mais 37 novos casos do que no dia anterior, quando a ministra da Saúde, em conferência de imprensa, falava na possibilidade de os números do início da semana estarem "artificialmente mais baixos do que na realidade". "Esperemos que sejam números que se esbatam nos próximos dias. O que só com o passar do tempo poderemos confirmar", continuou Marta Temido.

O aumento dos casos nas últimas 48 horas, que não se reflete no número de óbitos ou de internamentos, pode ser ainda interpretado, segundo a ministra, como exemplo da "fragilidade das nossas conquistas" na luta contra a pandemia de covid-19. "Temos tido uma situação epidemiológica que tem sido acomodável sob o ponto de vista da resposta do sistema de saúde português, e concretamente do Serviço Nacional de Saúde", mas a qualquer momento a situação pode inverter-se.

O médico Ricardo Mexia fala na mesma volatilidade. "Nós tivemos dificuldade em baixar os números. Depois, finalmente, conseguimos colocá-los próximo dos cem e agora voltámos outra vez à fasquia acima dos 300. Tenho sempre muita dificuldade em interpretar estes números, porque são variáveis e não têm só que ver com o comportamento da doença, mas não podemos deixar de estar preocupados, com os países aqui ao lado, Espanha e França, já com um crescimento importante", aponta o especialista.

Casos aumentam em Espanha e França

No último mês, a possibilidade de uma segunda vaga pandémica voltou a dominar as conversas nos países estrangeiros mais próximos de Portugal.

Em Espanha, as mais de 140 mil infeções registadas em dois meses justificam a designação de uma segunda onda, apontam especialistas ouvidos pelo jornal El País, que criticam a velocidade com que os espanhóis desconfinaram. Nas últimas 24 horas, o país registou mais 3781 novos casos de covid-19, sem contar com a comunidade valenciana. No total, desde que a pandemia começou, Espanha registou 429 507 casos e 28 996 mortes.

Espanha confirmou 3 781 novos casos de covid-19 nas últimas 24 horas.

Grande parte dos novos surtos no país vizinho estão relacionados com festas, ajuntamentos de jovens, principalmente em espaços de diversão noturna. E, por isso, o contágio acelerou entre os mais jovens.

Em Espanha deixou de ser permitido sair à rua sem máscara posta. E mesmo as crianças com mais de 6 anos terão de utilizar este equipamento de proteção individual no regresso às aulas, anunciou o ministro da Saúde espanhol, Salvador Illa, nesta quinta-feira.

No mesmo dia, o primeiro-ministro francês, Jean Castex, revelou que o uso da máscara vai tornar-se obrigatório em todo o lado em Paris.

Algumas cidades como Toulouse ou Marselha já tinham alargado o uso de máscara ao exterior em toda a cidade, mas faltava conhecer o plano parisiense, onde apenas era obrigatório em algumas ruas e nos espaços fechados.

Nas últimas 24 horas, foram registados mais de 6111 novos casos de covid-19, o número mais alto desde o fim do confinamento, segundo as autoridades francesas. A maioria das infeções aconteceu na região de Paris e no sudoeste do país. Desde o início da pandemia, França confirmou 259 698 infeções e 30 576 vítimas mortais.

Portugal entra em estado de contingência a 15 de setembro

"O que temos visto um pouco por toda a Europa é um aumento dos números nos últimos dias e o governo não pode ficar indiferente a esse aumento e não pode deixar de se preparar", disse, nesta quinta-feira, a ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, na sequência de uma reunião do Conselho de Ministros, onde ficou decidido que o país vai entrar em estado de contingência a partir de 15 de setembro.

"Os números do último dia e aquilo que sabemos dos números de hoje mostram um aumento da quantidade de casos e, por isso, apesar desta tendência decrescente na região de Lisboa e Vale do Tejo e da tendência relativamente constante ao longo da última quinzena, o governo considera que aquilo que deve fazer é continuar exatamente com as mesmas medidas que existiam até aqui na próxima quinzena", continuou a governante.

O executivo está a preparar um endurecimento das medidas de proteção sanitária para daqui a duas semanas, passando todo o país de "situação de alerta" para "situação de contingência", o segundo mais grave dos três previstos na Lei de Bases de Proteção Civil.

As novas medidas, que ficaram por detalhar, serão muito focadas na reabertura das escolas e incluirão a aplicação StayAway Covid, que deverá estar a funcionar na próxima semana.

Para Ricardo Mexia, esta preocupação é "fundamental", apesar de realçar as "experiências heterogéneas" com a aplicação de rastreio de contactos da covid-19, uma vez que esta se revelou "malsucedida" nuns países e um "bom contributo noutros".

O presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública refere também a importância destas medidas envolverem uma antecipação da vacina da gripe neste ano, tal como a diretora-geral da Saúde abordou em conferência de imprensa, e de existir um reforço de profissionais de saúde nesta altura, nomeadamente de especialistas em saúde pública. "O que os meus colegas da região de Lisboa e Vale do Tejo me dizem é que de facto houve algum reforço, mas que entretanto esse reforço já foi desmobilizado", aponta Ricardo Mexia.

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