Com menos covid-19 e mais desemprego, Velha Europa começa desconfinamento

À medida que as taxas de infeção vão caindo e aumentam as dificuldades económicas e a pressão das populações para o fim do confinamento, Espanha, França, Itália, Alemanha e Reino Unido dão passos para a nova normalidade.

Com os resultados do confinamento a que grande parte da população foi sujeita nas últimas semanas a começarem a sentir-se nos números divulgados diariamente de infetados e de mortes por novo coronavírus, ao mesmo tempo que os números da economia vão acentuando a ideia de crise, os governos começam a planear a seguinte fase: o desconfinamento. Mas se mandar toda a gente para casa foi fácil, permitir que saiam revela-se um processo muito mais complicado.

Na Velha Europa, Espanha e França apresentam nesta terça-feira as suas estratégias. Itália já o fez neste domingo, enquanto a Alemanha já começou na semana passada a tomar algumas medidas de abertura. O Reino Unido, que demorou mais tempo a optar pelo confinamento, está também mais atrasado.

De volta ao trabalho depois de ele próprio ter sido infetado, o primeiro-ministro Boris Johnson pede paciência e avisa que ainda é cedo para começar a levantar as restrições, admitindo sempre ter consciência do impacto que tal decisão tem para a economia.

Todos os planos vêm sempre acompanhados de alertas para eventuais segundas vagas de covid-19, que poderiam levar a novo confinamento. E uma das coisas que têm em comum é o facto de preverem todos o uso obrigatório de máscaras, nem que seja nos espaços públicos fechados e nos transportes.

A Organização Mundial de Saúde alertou para o risco de um desconfinamento precipitado poder ter um "impacto maior" a nível económico. "Os governos têm que pôr na balança as vidas e a economia. Mas sem dar passos demasiado rápidos, arriscam-se a sofrer um impacto maior na economia", disse o diretor executivo Mike Ryan.

Espanha

É o segundo país do mundo com mais casos de covid-19 confirmados, depois dos EUA, tendo o primeiro caso positivo sido detetado a 31 de janeiro. No balanço divulgado já esta terça-feira voltou a registar-se uma quebra no número de mortos - mais 301 em 24 horas, para um total de 23 822 desde o início da epidemia. Foram ainda registados mais 1308 casos, num total de 210 773. Destes, 102 548 estão curados. Na prática, isso significa pouco mais de 85 mil casos ativos. A taxa de infeção (R) é atualmente de 1.

O momento mais visível do início do desconfinamento foi a saída à rua, este domingo e pela primeira vez desde que foi decretado o estado de alarme a 14 de março, das crianças com menos de 14 anos. Segundo as regras, estas podem agora sair uma vez por dia, entre as 9.00 e as 21.00, mas num raio de um quilómetro das suas casas e sempre acompanhadas por um adulto.

O desconfinamento começará contudo apenas a partir de 2 de maio, devendo ser aprovado esta terça-feira pelo governo espanhol. Uma coisa é certa, a aplicação não será igual em todo o território espanhol e, ao contrário do que queriam as diferentes comunidades autónomas, será coordenado pelo executivo.

Há comunidades autónomas que já têm os seus planos próprios, mas tudo vai depender do que o governo disser esta terça-feira, depois do conselho de ministros. O plano, disse Sánchez no fim de semana, está a ser preparado há três semanas, sendo que os líderes autonómicos foram ouvidos esta segunda, para darem as suas sugestões.

A ideia é a partir deste 2 de maio ser possível sair à rua para fazer desporto, sozinho ou com as pessoas com quem vive. Até agora, os adultos só podiam sair para ir trabalhar (se não o pudessem fazer através de teletrabalho), comprar comida, ir à farmácia ou ao médico, passear o cão ou ajudar familiares com necessidades.

Mas o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, reitera que é preciso ir com calma, aplicando medidas de prevenção e dando atenção especial à higiene. "Convém não subestimar o inimigo", referiu. O estado de alarme declarado a 14 de março, tendo a 28 de março sido proibidas todas as atividades não essenciais no país (que só levantou a 13 de abril). O estado de alarme já foi prorrogado em três ocasiões e tudo indica que será uma quarta vez, até 24 de maio.

A nível económico, as previsões mais otimistas são para uma queda de 7% do PIB este ano, mas as mais pessimistas apontam para uma queda de 12,5%. Em Espanha, cerca de quatro milhões de trabalhadores em lay-off e mais de um milhão de trabalhadores por conta própria pediram ajuda por terem sido obrigados a suspender a atividade. A 20 de abril, havia ainda registo de 3,7 milhões de desempregados.

França

As autoridades francesas anunciaram mais 437 mortes por covid-19 esta segunda-feira, elevando para 23 293 o número de mortes desde o início da pandemia no país. Há 128 339 casos, dos quais 28 055 hospitalizados (menos 162 que na véspera).

O primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, vai apresentar esta terça-feira às 15.00 (14.00 em Lisboa) o plano de desconfinamento, que deverá começar a ser implementando a partir de 11 de maio. Os franceses estão confinados desde 17 de março e, segundo uma sondagem da semana passada, já só 43% apoiam as medidas de confinamento -- menos oito pontos percentuais que na semana anterior.

A ideia é que o plano, apresentado por Philippe aos deputados, seja discutido e votado de seguida, apesar das queixas da oposição, por ter pouco tempo para o estudar. "Vou apresentar a estratégia nacional de desconfinamento esta terça-feira à tarde, na Assembleia Nacional, em volta de seis temas: a saúde (máscaras, testes, isolamento...), escola, trabalho, comércio, transportes e reuniões de pessoas", escreveu o primeiro-ministro no Twitter.

O plano será nacional, com o Palácio do Eliseu a ter rejeitado a ideia de um desconfinamento por região. Para proteção, o uso de máscaras será obrigatório, sendo que desde esta segunda-feira que as farmácias podem voltar a vendê-las (tinham sido todas confiscadas no início de março e estavam indisponíveis). A ideia é haver 26 milhões de máscaras disponíveis para o público em geral todas as semanas.

O objetivo do governo é que as crianças possam regressar progressivamente às creches e às escolas a partir de 11 de maio, indo contra o defendido pelo conselho científico, que queria um regresso apenas em setembro. Os pais que não queiram que os filhos voltem à escola estão obrigados a seguir com o ensino à distância, mas a medida enfrenta também a oposição de alguns professores.

A nível do regresso ao trabalho e da abertura dos comércios, ainda não são conhecidos pormenores. A abertura progressiva da economia permitirá começar a lidar com a crise que o coronavírus trouxe. O governo prevê que o PIB caia 8% este ano.

França registou, esta segunda-feira, um aumento histórico no número de desempregados da categoria A (a maioritária, que inclui aqueles que são obrigados a uma procura ativa de emprego) em março: foram mais 246 100, isto é, 7,1%, para um total de 3,7 milhões de pessoas sem emprego nesta categoria no país. No total, nas categorias A a C (que inclui aqueles que fizeram trabalho temporário no último mês) o número dos sem emprego ascende a 5,7 milhões.

Itália

É o país europeu com maior número de mortos, ficando a nível global apenas atrás dos EUA. A Itália registou na segunda-feira mais 333 mortes, elevando para 26 977 o total desde o início da pandemia. Há ainda a registar mais 1739 casos, para os 199 414. Há ainda 66 624 recuperados. Os casos ativos são assim cerca de 105 mil.

As restrições impostas em Itália a 9 de março vão começar a ser levantadas a 4 de maio, mas o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, já avisou que todos vão ter que usar máscaras em locais públicos e continuar com as medidas de distanciamento social. A Itália vai entrar numa era de "responsabilidade e coexistência com o vírus", disse o chefe de governo numa declaração à nação, no domingo.

Nessa mesma intervenção, Conte anunciou o cronograma de retoma da atividade económica. Já esta segunda-feira, as empresas consideradas "estratégicas", nomeadamente aquelas com atividades produtivas e industriais mais orientadas para a exportação (indústria automóvel e moda) puderam reabrir. Empresas de construção e fábricas podem retomar quando tiverem garantidas as condições de segurança para funcionários.

A 4 de maio, haverá a abertura de mais algumas atividades, podendo ser possível passeios nos parques (que vão reabrir) e visitar familiares (mantendo sempre as distâncias de segurança). As reuniões sociais continuam proibidas.

A celebração de funerais será retomada, mesmo que com apenas a presença de 15 pessoas (de preferência ao ar livre e sempre com máscara). A Igreja Católica já lamentou que no cronograma não haja referência ao retomar das cerimónias religiosas, com Conte a ouvir as críticas e a convocar os bispos para consultas.

A 18 de maio, a ideia é reabrir os comércios, museus, estabelecimentos culturais e bibliotecas, estando a reabertura completa de bares e restaurantes prevista para 1 de junho, quando também devem reabrir salões de beleza. As medidas de segurança têm sempre que ser respeitadas.

No desporto, os atletas de desportos individuais podem voltar aos treinos a 4 de maio, mas os de desportos coletivos só o podem fazer duas semanas depois, no dia 18. O que não agradou às equipas de futebol. As competições de futebol devem regressar em junho.

A reabertura das escolas será só em setembro.

A pandemia e as medidas de confinamento paralisaram a economia italiana. Segundo previsões do governo, o país deve entrar em recessão este ano, com uma queda de 8% do PIB. O défice público subirá para os 10,4% do PIB, contra os 2,2% que eram esperados antes do coronavírus, e a dívida pública deve saltar para 155,7% do PIB.

Alemanha

Graças a uma estratégia de testagem alargada, a Alemanha conseguiu responder à pandemia, sem que o seu sistema de saúde ficasse sobrecarregado (ajudou até os países vizinhos), e mantendo os números de mortos controlados.

Esta segunda-feira, a Alemanha confirmou mais 1018 casos de covid-19, num total de 155 193 desde o início da pandemia, e o número de mortos subiu 110 para os 5750. A taxa de infeção caiu há duas semanas abaixo de 1, com o ministro da Saúde, Jens Spahn, a dizer que a pandemia estava controlada.

Mas esse controlo faz com que comecem a surgir críticas, pedindo um rápido levantar do confinamento para começar o mais rapidamente a travar a crise económica.

As restrições começaram a ser levantadas na semana passada, com a abertura dos comércios de até 800 metros quadrados, sendo que cada estado tem liberdade para implementar o calendário que quiser. E os especialistas temem que possa haver uma interpretação criativa das regras, levando a um novo pico.

O uso de máscaras é agora obrigatório nos transportes públicos e, nalguns estados, dentro das lojas, sendo que elas podem ser adquiridas em máquinas de venda automática.

A maior parte das crianças ainda vão continuar em casa, mas há alunos já de volta às aulas, sendo que os que se preparam para os exames vão voltar até dia 4. Nas escolas, as máscaras devem ser usadas nos corredores e durante os intervalos -- nas aulas as carteiras estão a uma distância de segurança umas das outras e é mais fácil a limpeza com desinfetante.

Livrarias, stands de automóveis e lojas de bicicletas também reabriram na semana passada. Os negócios que tinham sido fechados por não serem considerados essenciais, como por exemplo cabeleireiros, vão reabrir também a partir de dia 4.

Grandes eventos e ajuntamentos de pessoas continuam a ser proibidos, pelo menos até 31 de agosto. Restaurantes, cinemas e lojas de grandes dimensões também vão continuar para já fechadas.

Apesar de os alemães concordarem com as medidas de confinamento, e da chanceler Angela Merkel gozar de uma elevada aprovação na forma como lidou com a pandemia, começam a ouvir-se vozes de descontentamento, tanto da extrema-direita como da extrema-esquerda. Este fim de semana houve um protesto em Berlim a pedir "liberdade" e o fim do confinamento.

E os políticos também não poupam críticas. "Quando oiço que proteger vidas deve ser mais importante do que tudo o resto, não acho que seja totalmente verdade" disse o ex-ministro das Finanças e atual presidente do Parlamento alemão, Wolfgang Schäuble, numa entrevista ao Der Tagesspiegel. "Os efeitos enormes económicos, sociais, psicológicos e outros precisam de ser pesados", acrescentou.

O gigante europeu não está imune em termos económicos à pandemia, com as previsões a apontarem para uma contração da economia em 7% em 2020, com o país já tecnicamente em recessão.

No início de abril, havia registo de quase meio milhão de empresas a pedir o apoio do estado, estimando-se que quase nove milhões de trabalhadores estivessem em lay-off. Há especialistas que acreditam que o desemprego, em queda há anos na Alemanha, pode subir para os 6% (era de pouco mais de 3% em fevereiro).

Reino Unido

O país que começou por apostar na ideia de imunidade de grupo até perceber que esta podia implicar 250 mil mortes, não quer para já falar de desconfinamento. Mas aumenta a pressão sobre o governo britânico para apresentar os planos para uma reabertura da economia.

Esta segunda-feira, o Reino Unido anunciou mais 360 mortes por coronavírus nos hospitais, elevando para 21 092 o número total de óbitos desde o início da pandemia. Dados que não incluem, por exemplo, os "milhares de mortos" nos lares de idosos, segundo os trabalhadores da área.

No regresso ao trabalho após ter estado ele próprio infetado (e hospitalizado, com uma passagem pelos cuidados intensivos), Boris Johnson pediu aos britânicos para "conterem a impaciência". O confinamento começou a 23 de março no país.

Admitindo os problemas que o confinamento prolongado representa para a economia, o primeiro-ministro avisou contudo que é preciso "reconhecer o risco de um segundo pico, o risco de perder o controlo do vírus", porque isso "seria não apenas uma segunda vaga de morte e doença, mas um desastre económico".

Só em duas semanas no final de março, perto de um milhão de pessoas concorreram a benefícios estatais para lidar com a perda de rendimentos, sendo que o governo implementou também um programa de ajuda às empresas que podem aplicar o lay-off.

As previsões são para uma queda do PIB de 6,8%, se as restrições à economia começarem a ser levantadas já em maio. Se estas continuarem até junho, a situação será ainda pior.

Johnson não se quer comprometer com uma data para o levantamento das medidas de restrição, mas agora que está de volta a Downing Street deverá começar a pensar no plano que poderá aplicar assim que a pandemia estiver mais contida.

O novo líder da oposição, Keir Starmer, quer contudo que o governo comece um diálogo para começar a desenhar o plano de saída do confinamento. O líder do Labour lembrou que o governo foi lento a entrar no confinamento, tem sido lento a fazer mais testes e lento a garantir a proteção necessária ao pessoal médico que está na linha da frente e que tem a oportunidade de corrigir a situação na hora de levantar as restrições.

Na semana passada, os governos autónomos da Escócia e País de Gales publicaram documentos com os princípios que vão guiar o desconfinamento nas regiões e esta segunda-feira a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, disse que revelar as diferentes opções existentes "nos próximos dias".

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