Verão em tempos de pandemia

Todas as doenças têm variáveis e imponderáveis. O próprio sistema imunitário varia de indivíduo para indivíduo e, também por isso, há sempre algo de particular e característico na reação a uma patologia e na interação do doente com o contexto da doença. Isto é válido também para o surto, a epidemia e a pandemia, sendo certo que a diferença é que, aí, falamos de grupos. Há uma conjuntura específica quer quando falamos de políticas de resposta terapêutica quer quando falamos de medidas de mitigação e profilaxia.

Às variáveis corresponde uma constante. Na resposta de Portugal à covid-19, a constante é o pressuposto de que é imperativo salvar vidas em tempo útil. Confrontado com a ameaça à vida, Portugal não hesitou, confinou e fechou. É certo que o estado de calamidade e o estado de emergência não lesaram de modo permanente as liberdades, os direitos e as garantias. Assim, foi mais fácil a sua aceitação. Mas é importante ter a consciência de que sobrepor a salvaguarda da vida ao crescimento económico e robustecer a capacidade estrutural do Serviço Nacional de Saúde foi um ato de coragem. Não porque Portugal precise de autoestima ou de retirar dividendos políticos, mas porque foi a opção acertada, pelo caminho certo e na altura apropriada.

A interpretação correta de variáveis é indispensável para adequar respostas que permitam limitar a transmissão. Uma dessas variáveis é a da perceção comunitária. Que perceção tem (ou teve) uma determinada comunidade ou um determinado grupo, por exemplo, do confinamento e do desconfinamento? Temos um exemplo claro com os jovens. A juventude tem, no seu ADN, a irreverência. Tendo suportado o confinamento, a perturbação da sua rotina escolar e a privação do convívio físico com os amigos, acho que não é de estranhar o fenómeno de descompressão a que assistimos por parte de alguns jovens nos últimos dias.

Ser jovem é, também, relativizar por vezes o risco e acreditar até numa "imortalidade". Aos adultos, a nós, cabe a resposta pela coerência do exemplo e, institucionalmente, por medidas e campanhas didáticas e apelativas, de preferência tão fixes quanto cool. A comunicação em tempos de pandemia é parte importante da "cura".

As medidas de mitigação da covid-19 anunciadas nesta semana partem precisamente de uma perspetiva integrada que busca o equilíbrio entre noções biopsicológicas e aspetos socioculturais e económicos. O objetivo é evitar a desvalorização do risco. Todos temos saudades do verão com festivais, mas ainda não é o tempo da festa. Até lá, não podemos entristecer.

Deputada do PS

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