Ser e não ser cineasta

Com Da 5 Bloods, Spike Lee prossegue a sua abordagem da história dos negros na história mais geral dos EUA: o seu filme existe num território original em que o próprio cinema discute os seus limites.

Um velho preconceito garante que os críticos de cinema são aqueles que querem "impor" aos outros os seus pontos de vista. E não vale a pena ter ilusões: o seu poder é imenso, talvez mesmo invencível. Mas confesso que sempre me desconcertou a raridade com que alguém tenta, pelo menos, superar a questão através de um desvio francamente mais interessante. A saber: como é que um filme se "impõe" a um crítico?

A resposta será, por certo, curiosa, quanto mais não seja porque a noção, ainda mais preconceituosa, da crítica de cinema como um "rebanho" de pensadores que se movem sempre no mesmo sentido é todos os dias desmentida pelas diferenças e contradições que se desenham entre os críticos. Dito de outro modo: não há respostas a tal pergunta que não sejam individuais.

Por mim, redobro de atenção e curiosidade sempre que um filme me impõe algum silêncio. Literalmente: quando a sua energia criativa me leva a pressentir as limitações do meu próprio discurso, de alguma maneira compelindo-me a pensar como posso, no mínimo, sugerir a riqueza e a complexidade do objeto que tenho à minha frente.

Para mim, Da 5 Bloods, de Spike Lee, disponível na Netflix com o subtítulo Irmãos de Armas, é um desses filmes. Que estamos a ver, afinal? Um filme de cinema, sem dúvida. E o simples facto de sermos levados a dizer "um filme de cinema" é revelador das convulsões do nosso tempo. A multiplicação das formas de difusão de um filme - em diversas "plataformas", como aprendemos a dizer, satisfazendo a tecnocracia triunfante - instalou este bizarro impulso, misto de nostalgia e redundância.

Sendo um filme, não é, então, necessariamente, um "filme de cinema"? Acontece que, para lá da situação das salas de cinema (antes e durante a pandemia), Da 5 Bloods existe, acima de tudo, como objeto de difusão virtual - na Netflix, precisamente. O que, mais do que uma questão técnica e comercial, envolve também um fascinante trabalho narrativo.

Spike Lee convoca-nos para uma encruzilhada. Estamos perante um filme que é também um "programa" de televisão (no sentido em que o podemos ver no nosso televisor), também um ficheiro informático (porque podemos aceder-lhe através do nosso computador) e, por fim, pelo seu modo de exposição e dramatização, também uma espécie de noticiário virtual.

Porquê "noticiário"? Porque Spike Lee tem consciência do modo como, hoje em dia, para o melhor ou para o pior, somos espectadores permanentes, eventualmente dependentes, de informações que, a todos os instantes, vão habitando todos os nossos ecrãs - desde aquele que, tradicionalmente, ocupa uma das divisões da nossa casa até ao que transportamos no bolso.

No limite, talvez possamos dizer que Da 5 Bloods já não é cinema nem televisão, mesmo se participa das regras que, habitualmente, associamos a um e outro. À falta de melhor descrição, talvez faça sentido caracterizá-lo como uma "instalação" de exuberantes artifícios narrativos, sem que isso contrarie o reconhecimento de muitos elementos do mundo em que vivemos.

Também por isso, creio que a apresentação de Spike Lee como "mensageiro" dos direitos dos afro-americanos, aqui como em toda a sua filmografia (recordemos o clássico Não Dês Bronca, cujos 30 anos têm vindo a ser assinalados desde meados de 2019), não faz justiça à sofisticação formal do seu trabalho. Ele é, afinal, um "repórter" do seu/nosso tempo que discute, ponto por ponto, filme a filme, a representação do próprio tempo presente.

A recordação das vivências trágicas dos jovens negros no Vietname não se apresenta, assim, como índice banal de um discurso panfletário. Da 5 Bloods nasce da necessidade de refazer os modos correntes de investigar e partilhar a história dos negros na história mais geral dos EUA. Daí que, no plano narrativo, tudo comunique: da aventura dos protagonistas à iconografia de Donald Trump, dos traumas da guerra às memórias de Muhammad Ali, Martin Luther King ou Marvin Gaye. É essa metódica reconversão da linguagem, isto é, das imagens e dos sons, que faz de Spike Lee um prodigioso cineasta. Mesmo que a palavra "cineasta" seja insuficiente para explicar o que ele faz.

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