O maior problema

Sejam algumas explicações mal-amanhadas, quer tenha havido alguma precipitação e sido cometidos alguns erros, há um enquadramento fundamental: o problema económico.

Como parto sempre do princípio de que os políticos querem o melhor para a comunidade, e sabendo que os tempos que vivemos não serão propriamente fáceis para os que mais elevadas responsabilidades públicas têm, consigo ter uma certa tolerância para as reações menos assisadas dos últimos dias.

As duas particularmente destrambelhadas são as que encontram justificação para o aumento de casos na zona da Grande Lisboa por se estar a fazer mais testes e a dos jovens serem, em larga medida, responsáveis pelos novos surtos.
Ricardo Mexia explicou: há mais casos de covid-19 porque há mais casos de covid-19. O médico não quis fazer uma graçola, estava mesmo a falar muito a sério. Ou seja, se alguém estiver doente com os sintomas da doença, vier até a desenvolver problemas agudos e não testar não vai ter covid. Testar é, para a saúde pública, sempre bom: permite detetar as linhas de contágio e saber a situação real.

Os mais novos andarem feitos loucos a contaminar toda a gente também é um argumento a que falta racionalidade. Apesar de uma das mais profundas cretinices nacionais estar na moda, a divisão norte-sul, não me parece que os rapazes e as raparigas do sul tenham mais tendência para a folia ou para estarem menos afastados uns dos outros do que os do norte. O facto é que há um surto na zona da Grande Lisboa e o norte praticamente não tem tido novos casos.

O que parece claro, e reforço o "parece" já que cada vez é mais evidente que ainda se sabe pouco sobre muitos aspetos desta pandemia, é que os surtos que têm surgido na Grande Lisboa devem-se a uma doença muito mais grave e bem mais persistente do que o covid: a reduzida qualidade de vida de boa parte dos membros da nossa comunidade. Os que se encarregaram de manter as nossas ruas limpas, as estantes dos supermercados cheias, as obras a avançar, no fundo, os que mantiveram o país a funcionar são os mesmos que vivem em casas pequenas e com poucas condições e que são obrigados a ir trabalhar em transportes públicos sobrelotados.

O dever cívico de recolhimento, decretado na quinta-feira, pouco ajudará na diminuição dos surtos. Estas pessoas têm de ir trabalhar para sobreviver e ninguém acredita que nessas freguesias sejam as festas ou os ajuntamentos que provocam o aumento de número de casos.

Lembro-me de ter aqui escrito que no princípio da pandemia eu conhecia várias pessoas infetadas (gente que esteve em férias na neve ou que viajava em negócios) e que com o tempo já ninguém do meu círculo alargado de conhecimentos estava doente.

Não é novidade que vivemos num país profundamente desigual e injusto.

Não me esqueço do bom desempenho do Governo no início deste processo - e é preciso ser dito que o balanço até agora é bem positivo -, mas com a melhoria da situação e o desconfinamento houve um certo descuido não só no tratamento de situações específicas, mas também na falta da passagem de uma mensagem de moderação. Talvez tanta exibição de normalidade do primeiro-ministro, por exemplo, tenha sido demasiada.

Há que dizer, porém, que não há melhor sinal de que a situação acalmou bastante do que já ser possível a luta política e a contestação das medidas do Governo. Como também os números de internados e nos cuidados intensivos não são proporcionais a uma certa histeria instalada em certos setores.

Apontar erros na condução da resposta à crise sanitária é necessário e politicamente muito saudável. Mas entende-se o cuidado que os partidos da oposição, nomeadamente o PSD, têm tido. Aliás, por causa dessa postura equilibrada, os sociais-democratas têm sido alvo de críticas de quem está mais interessado em criar barreiras intransponíveis entre os partidos e semear o caos político do que em tentar, de facto, ajudar a evitar erros que agravem os problemas - os portugueses saberão premiar uma oposição responsável.
Sejam algumas explicações mal-amanhadas, quer tenha havido alguma precipitação e sido cometidos alguns erros, há um enquadramento fundamental: o problema económico.

Os surtos que têm surgido na zona da grande Lisboa se devem a uma doença muito mais grave e bem mais persistente que o covid: a reduzida qualidade de vida de boa parte dos membros da nossa comunidade

Se desde o princípio sabíamos que havia uma enorme possibilidade de que a mais grave consequência da crise sanitária fosse a económica, agora chocamos mesmo de frente com a realidade. A queda do PIB e os números do desemprego, só para dar dois exemplos, amedrontam e não há economista ou entidade séria que aponte muito otimismo às previsões governamentais. Para piorar, a luta pelo turismo tem levado a uma autêntica guerra sem quartel por parte dos nossos parceiros europeus em que vale rigorosamente tudo, inclusive aldrabar estatísticas e diminuir a quantidade de testes.

É esse contexto que explica alguma desorientação do Governo e da Presidência da República na abordagem aos surtos em Lisboa.

Apesar de no essencial a mensagem dos dois estar certa e ser equilibrada, percebe-se que se instale algum medo quando os dois órgãos de soberania sentem a possibilidade de ser necessário um novo confinamento ou que se crie um clima de pânico (completamente injustificado) que afete ainda mais a economia. Sabem bem as consequências para a vida dos cidadãos que isso acarretaria e os custos políticos associados. E se seria a própria sobrevivência política dos dois que estaria em causa, essa seria apenas um pequena contrariedade num cenário de um enorme desemprego, rotura de apoios sociais e pulsões populistas. O amor à democracia convive mal com a fome. E as boas medidas, as mensagens certas e o equilíbrio convivem mal com o pânico.

O mundo está perigoso

"Não faz sentido estarmos a importar batatas da Austrália. Temos de voltar a produzir localmente. Quem puder cultivar a sua própria horta deve fazê-lo. Porque, neste momento, quem ganha com o comércio global são as empresas intermediárias."

Ouvi esta frase num programa da RTP e tive curiosidade em saber mais sobre a autora. Saskia Sassen é uma socióloga, professora numa das melhores universidades do mundo e ganhou em 2013 o Prémio Príncipe das Astúrias. Digamos que quando alguém com as qualificações desta senhora diz este tipo de coisas, alguma coisa está errada. É que não se está a falar de globalização nem dos problemas da hegemonia do poder financeiro sobre o político. Isto é um apelo ao regresso das economias de subsistência, aos mais básicos princípios económicos e a negação da especialização produtiva. No fundo, é uma espécie de manifesto a favor do empobrecimento geral. O mundo está mesmo perigoso.

PIM, PAN, PUM

Cristina Rodrigues ficou famosa durante a campanha eleitoral por concorrer por um partido de que desconhecia o programa. Foi ela própria que o admitiu. Talvez, depois de eleita deputada por esse partido, tenha tido tempo para o ler e resolveu sair ou foram os cantados problemas internos ao PAN que a levaram a isso. Não se sabe. O que é público e notório é o desfazer da organização: um deputado europeu, agora uma deputada nacional e sete dirigentes nacionais anunciaram a sua saída.
Não vale a pena comentar mais uma vez a falta de ética democrática dos deputados que sabem perfeitamente que não foram eleitos pelos seus dotes. Fica é bem à vista que partidos que baseiam a sua ação em microcausas e que não têm a mínima solidez ideológica ao primeiro problema interno desfazem-se. A importante causa da defesa dos animais, por exemplo, estará sempre muito mais bem defendida num partido que defenda soluções para a comunidade como um todo.

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