No tribunal da história não há trânsito em julgado

O DN publicou no dia 24 deste mês uma entrevista ao historiador João Pedro Marques, que sou impelido, aqui, a comentar brevemente. Antecipo que, concordando com algumas observações factuais do historiador em causa, discordo frontalmente da sua perspetiva global, para não dizer da ideologia (enquanto visão de mundo) e a intencionalidade subjacente a toda a entrevista.

Começo pelos pontos concordantes. João Pedro Marques tem razão quando lembra que escravatura e racismo nem sempre estiveram cronologicamente associados, como, aliás, escrevi na minha crónica anterior, publicada no último sábado, 20 de junho, antes de ter lido a sua entrevista. Como bem ele lembrou, em Roma, por exemplo, onde a escravatura foi largamente praticada, os escravos negros eram raros. De igual modo, Marques está certo quando evoca o comércio de escravos africanos feito pelos árabes muçulmanos, assim como os europeus (brancos) escravizados pelos povos do norte de África (seria bom, talvez, por uma questão de curiosidade histórica, no mínimo, caracterizar "racialmente" estes últimos). Por fim, é hoje indiscutível a sua afirmação de que o tráfico de escravos negro-africanos contou com a participação de importantes lideranças locais.

A minha concordância com o teor das afirmações do referido historiador português fica basicamente por aí. O problema é que a entrevista parece ter sido feita com um objetivo: se não inocentar, pelo menos relativizar as responsabilidades históricas das potências ocidentais, a começar por Portugal, relativamente à escravatura e ao racismo antinegro. Logo na primeira questão, João Pedro Marques esforça-se por demonstrar com as seguintes palavras que, afinal, Portugal não foi, segundo alega, a principal potência esclavagista: "O Brasil português de inícios do século XIX teria pouco mais de um milhão [de escravos] e as colónias portuguesas em África e na Ásia teriam nessa época apenas algumas dezenas de milhares."

Espantosa. Eis como posso, para ser contido, classificar esta resposta. Além de não possuir informações para tal, não me interessa discutir quem foi o campeão desse mórbido "campeonato", mas os números esgrimidos pelo entrevistado do DN estão totalmente fora do contexto. Então o que aconteceu entre os séculos XV, quando Portugal chegou ao continente africano, e XIX? Só de Angola, por exemplo, sabe-se que foram transportados quase quatro milhões de escravos, na esmagadora maioria para o Brasil. Por que estranha razão João Pedro Marques omitiu esses números?

É igualmente inexplicável, para um cientista social, outro lapso de memória do historiador português, quando menciona as formas de exploração humana "geralmente designadas por trabalho forçado", para usar as suas próprias palavras, surgidas depois do fim do comércio transatlântico de escravos, sem mencionar, precisamente, o caso de Portugal. Acontece que, e como recordou Isabel do Carmo, em artigo no jornal Público a 11 de junho, "à escravatura seguiu-se o colonialismo, para Portugal com trabalho forçado até 1974". Sim, leu bem, caro leitor: 1974.

Na verdade, João Pedro Marques clarifica tudo quando afirma, na entrevista ao DN, que as atuais ondas de choque nascidas nos Estados Unidos e espalhadas por outros cantos do mundo, em especial na Europa, contra os símbolos do passado escravocrata europeu ou eurodescendente (e não, por exemplo, contra a prática da escravatura feita pelos árabes), são resultado de ações "geralmente feitas por "presentistas", isto é, pessoas que têm uma abordagem ética, mas não uma abordagem histórica das realidades passadas. Pensam como se o passado fosse presente e se regresse pelas regras e princípios de agora, o que é obviamente um erro".

Este é um argumento usado recorrentemente por várias vozes. Recorro, por isso, Boaventura de Sousa Santos, que, no dia 17 de junho, lembrou no jornal Público que tais símbolos, como as estátuas, "são parte do nosso presente", sendo contestados porque "representam contas que não foram saldadas, destruições e injustiças que não foram reparadas". Mais, os atuais protestos contra a manutenção desses símbolos devem-se, como sublinhou, "à continuidade no presente do poder que no passado originou as destruições e as injustiças" de que os mesmos são testemunhas.

Dois factos comprovam o raciocínio de Sousa Santos. Primeiro, ali onde os poderes de facto mudaram, pelo menos politicamente, como nas antigas colónias europeias em África, os símbolos do passado foram removidos tranquilamente, fazendo hoje parte de museus. Segundo, os atuais movimentos contra os monumentos a figuras do passado escravocrata e colonial europeu ocorrem preferencialmente em países onde as elites dominantes descendem, precisamente, desses poderes passados. Isso é óbvio, desde logo, na Europa, mas também nas Américas, onde as elites são todas eurodescendentes e os indígenas e os antigos escravos negros são profunda e estruturalmente discriminados.

A verdade, que João Pedro Marques não diz na sua entrevista, é que a história é escrita pelos vencedores. Mas também pode ser reescrita, quando os derrotados se rebelam. Como afirma um jovem intelectual brasileiro negro, Sílvio de Almeida, professor convidado da Duke University, nos EUA, e cujo percurso será interessante acompanhar, "no tribunal da história não há trânsito em julgado".

O que está a acontecer neste momento é, justamente, uma batalha pela reescrita da história, em relação ao papel e ao destino dos negros, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. As sociedades erigidas sobre o mito da supremacia branca estão a ser questionadas e o exemplo norte-americano começa visivelmente a influenciar outros países, sobretudo no resto das Américas, como o Brasil, e na Europa, que, devido ao crescimento das diásporas negro-africanas, não pode mais ser considerado um continente composto apenas por brancos (como África, aliás, não é um continente "negro").

Sim, a história não é simples e os seres humanos são complexos e contraditórios. É verdade que é preciso contextualizar. Mas contextualizar não é glorificar. Pede-se, pois, aos herdeiros do poder escravocrata e colonial do passado disposição para fazer concessões, sobretudo removendo os fatores, quer materiais quer simbólicos, que mantêm até hoje a discriminação dos negros em muitas sociedades.

Jornalista e escritor angolano. Diretor da revista África 21

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