Grande Lisboa. Importante, urgente ou prioritária?

Todos nós aprendemos a distinguir o que é importante, o que é urgente (ou não) e o que é prioritário. Quando fazemos uma to do list temos (ou devemos ter) estas classificações atribuídas às várias tarefas que temos pela frente, no nosso dia-a-dia e no planeamento para o médio e longo prazo. Este método deve fazer parte da boa gestão das nossas vidas pessoais e profissionais.

Num momento de forte crise pandémica, atribuir o carácter de urgência a determinadas medidas pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Há temas urgentes e prioritários nas áreas da saúde, dos transportes públicos e das medidas firmes e preventivas necessárias para lidar com um estado de contingência, de calamidade e de alerta.

No caso da Grande Lisboa, ainda uma calamidade, não se entende porque na to do list do Governo não se tornaram absolutamente prioritárias e de aplicação imediata as medidas anunciadas nesta quinta-feira. Foram conhecidas no dia 25 de junho mas só entrarão em vigor a 1 de julho. Dada a informação que temos tido nas últimas semanas, as novas regras poderão pecar por serem tardias. E se o nível de contágio continua a subir - ainda que se negue algum descontrolo da situação na Grande Lisboa -, então o que faria sentido seria anunciar as medidas num dia e aplicá-las nesse dia à meia-noite ou no dia seguinte. Se é urgente e prioritária, é para fazer e não para adiar. Esperar uma semana é demasiado perigoso e, na prática, permite que o nível de contágio continue alto, tal como está, ou possa até piorar.

O vírus não adormecerá por uma semana porque dá jeito à política, à gestão operacional dos recursos de saúde pública e de segurança nacional, às questões jurídicas ou até à economia. É preciso ter a coragem de estancar o problema. Quanto mais tarde foram aplicadas medidas firmes, mais próximos poderemos estar de uma eventual cerca sanitária na capital do país. E o impacto económico que isso teria... ninguém quer pensar, quanto mais arriscar previsões.

Do mesmo modo, é difícil compreender por que razão os transportes públicos acumulam pessoas, a respirar em cima umas das outras, quando ainda há uma boa fatia da população da Grande Lisboa que permanece em teletrabalho.
Se os transportes são públicos, é urgente e prioritária uma medida igualmente pública que aumente a capacidade de transporte, que acrescente carruagens ao metro e aos comboios (uma necessidade que começou por se sentir primeiro na Linha da Azambuja e, agora, na Linha de Sintra)e que aumente o números de autocarros nas rotas mais procuradas. De pouco adianta informar acerca da criação de uma empresa de gestão dos transportes da Área Metropolitana de Lisboa (até porque essa ideia já data dos anos 1990), se nada se resolver no imediato na capacidade de deslocação, cumprindo as regras que preservem o que temos de mais precioso: a saúde.

É em crises sanitárias, como esta, que o poder público tem de servir para salvar os seus. Os seus cidadãos, os seus eleitores e, não menos importante, os seus contribuintes.

Não há distanciamento social possível nos transportes públicos. Basta ver, por exemplo, as reportagens televisivas dentro dos comboios e as fotos do metro de Lisboa, cheio de utentes, que alguns jornais e sites têm vindo a publicar durante esta semana. Se a ideia é criar um laboratório de imunidade no comboio ou no metro, avisem-nos já, para decidirmos se queremos ou não ser "ratinhos de laboratório". No entanto, convém lembrar que muitos portugueses não têm meios próprios de transporte e não têm mesmo alternativa, o que acentua as desigualdades sociais. Um Governo de esquerda, apoiado por uma maioria de esquerda, não pode ficar indiferente e esta situação.

Jornalista

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