Como se vive na única freguesia de Lisboa em estado de calamidade

Quem mora em Santa Clara soube pelos media que estava na lista negra da pandemia. Dizem que nada mudou desde então, nem mais sensibilização nem desinfeção. Na freguesia convivem várias realidades: centro histórico, habitação degradada, bairros sociais, prédios de classe média alta e quintas. Mas é a pobreza que facilita a propagação do vírus.

Alberto Jesus vende gelados artesanais no Largo das Galinheiras há 60 anos. A pandemia tirou-lhe clientes no início, agora estão a regressar. "Está tudo normal", diz. E à pergunta "sabe que Santa Clara continua em estado de calamidade?" responde: "Sei, mas ninguém me disse o que mudou." Os habitantes da freguesia criticam só ter sabido pelos media que era ali que havia mais casos de covid-19.

As autoridades locais não intensificaram a sensibilização para prevenir a propagação da doença, não há desinfeção das ruas e outros espaços. As mudanças que sentiram são as mesmas que na restante Área Metropolitana de Lisboa (AML), como o fecho do comércio às 20.00. Os mais novos protestam por só poderem comprar combustível nas bombas de gasolina, nem sequer um maço de tabaco.

"Nada mudou, está tudo igual, não fizeram nada. Há muitas pessoas que têm covid, como o meu cunhado e dois vizinhos, e há muitas crianças, não é seguro. Deviam desinfetar as ruas", protesta Cidália Oliveira, 40 anos, moradora num bairro social da Ameixoeira. Esta é uma das duas freguesias que deram origem à de Santa Clara no âmbito da reorganização administrativa da cidade de Lisboa, em 2013. A outra é a da Charneca. Santa Clara fica no norte do concelho, na fronteira com Loures, e é a única das 24 freguesias de Lisboa nas mais problemáticas da doença.

Felizardo Gabriel, 38 anos, tem um cabeleireiro nas Galinheiras (Charneca) e a sua grande preocupação é ter de voltar a fechar portas. "As lojas têm de fechar?", pergunta. O primeiro-ministro acabava de anunciar as medidas para as 19 freguesias problemáticas a nível da pandemia na AML, na quinta-feira depois do Conselho de Ministros. Fica tranquilo quando o informamos que não vão fechar. "Começámos a fazer alguma coisa, algum negócio, e estou com medo de que volte tudo para trás. As pessoas vêm, mas ainda não é a mesma coisa que era antes da pandemia. Concordo com mais medidas, mas não podemos fechar. Estou sempre com máscara, tendo todos os cuidados", justifica.

Província de Lisboa

O senhor Alberto tem 89 anos e é um dos muitos portugueses que trocaram o campo pela cidade nos anos 40 a 60 do século passado. Ele fixou-se nas Galinheiras. Aos 29 anos comprou um triciclo e começou a vender gelados. A idade identifica-o como grupo de risco, ele não tem medo. "Ainda não me aconteceu nada, sinto-me bem."

"Há sensivelmente 40 anos esta [freguesia de Santa Clara] era a "província" de Lisboa para onde se deslocaram muitas pessoas migradas do Alentejo e do norte do país, à procura de melhores condições de vida. Esta população tem agora entre os 60 e os 80 anos, descreve o relatório deste ano do projeto Radar, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Mas a maioria dos habitantes da freguesia é jovem, em contraste com a maioria das freguesias do concelho. E são muitas as pessoas que não sabem ler nem escrever.

A freguesia engloba várias realidades. A Ameixoeira e a Charneca eram zonas rurais, ruralidade que desaparece à medida que os prédios ocupam os campos, mas ainda há muito descampado. Os bairros mais antigos, como as Galinheiras, nasceram da habitação clandestina. Há zonas com prédios da classe média alta e bairros sociais. O núcleo histórico manteve-se, bem como as quintas e as casas apalaçadas. Instalaram-se na zona estabelecimentos de ensino, como a Academia de Música de Santa Cecília e o Instituto Superior de Gestão.

Catarina Rodrigues, 20 anos, estudante de Ciência Política e Relações Internacionais, e Mónica Graça, 27 anos, atualmente desempregada, passeiam o cão no Jardim da Quinta de Santa Clara, no centro da vila, onde moram. "É uma zona muito tranquila, calma, não há atritos, podemos andar livremente nas ruas." São as vantagens de ali morar.

Os mesmos elogios faz Maria Marieta Rosa, 67 anos, reformada, embora diga que já foi melhor. "Há 20 anos era espetacular, desde que fizeram os bairros novos há mais confusão. Mas isto é tudo muito bonito, ando pelos campos, apanho orégãos, espargos, caracóis", conta. É natural de Abrantes, de onde veio para Lisboa há 50 anos, mora num bairro social na Ameixoeira.

"A nível socioeconómico, esta freguesia apresenta realidades antagónicas, por um lado existe a população residente no centro da Ameixoeira de classe média-alta e, por outro lado, as pessoas económica e socialmente mais desfavorecidas que residem nos bairros sociais que compõem grande parte do território de Santa Clara. A maioria dos moradores supracitados são de diversas culturas e etnias, vieram ao abrigo de programas de realojamento, conferindo a este território multiculturalidade própria, porém, a mesma acarreta constrangimentos na coexistência desta população com hábitos e costumes tão diversos", caracteriza o mesmo relatório. O DN tentou falar com a presidente da junta, Maria da Graça Ferreira, mas o executivo tem andado muito ocupado, justificam. Acrescentam que também eles não conhecem ao pormenor a situação sanitária.

Transportes, casas e grupos

A autarca não sabe e a Direção-Geral da Saúde remete as questões para a Administração Regional de Saúde Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT), que não revela a localização dos surtos da pandemia. Justificam que é "por uma questão de confidencialidades, não fomentar o estigma ou os comportamentos discriminatórios". Isto, apesar de sublinharem que os focos da covid-19 estão "bem identificados". Consideram que as causas principais de uma maior propagação da SARS-CoV-2 na freguesia são as más condições de habitação, a desocupação laboral e a falta de informação sobre as questões de saúde.

Explica a ARSLVT: "A propagação da doença não é na freguesia, mas em alguns locais da freguesia, onde possam estar em causa algumas vulnerabilidades. Se considerarmos uma habitação exígua com famílias numerosas, dificultando o isolamento em caso de doença ou de contactos de risco, empregos precários ou em setores com baixas remunerações, originando a necessidade de recorrer a múltiplos empregos, pode constituir uma situação de maior risco de contágios. Estas precárias condições sociais aliadas a uma baixa literacia em saúde são potenciadoras da propagação da doença."

Os habitantes falam dos casos da doença no Lar Inválidos do Comércio, mas identificam as Galinheiras como um dos focos principais. Uns dizem que a culpa é dos transportes públicos, sobrelotados às horas de ponta, outros dos ajuntamentos. Ou ambos.
Maria de Lurdes Rocha, 68 anos, reformada da PT, espera o autocarro no Largo das Galinheiras, depois de fazer "umas compritas". É o lugar da freguesia onde se veem mais pessoas na rua. Aponta o dedo para um grupo de jovens e reclama: "É como a senhora vê, tudo ao monte e fé em Deus, ninguém respeita ninguém. Bebem da garrafa uns dos outros, fumam os cigarros uns dos outros, isto está muito complicado."

Os jovens não querem registo de nome nem foto. Há quem concorde com algumas medidas para combater a pandemia, a maioria defende que "não é tão grave como dizem". Protestam por as bombas de gasolina só poderem vender combustível. "Trabalho à noite, quis comprar tabaco e não consegui", lamenta um rapaz. Os outros concordam.

A PSP faz vigilância na zona, ainda na terça-feira tiveram de intervir para dispersar um grupo nas Galinheiras. Patrulhamento idêntico a outras freguesias, sublinha o comissário Artur Serafim, do Comando Metropolitano de Lisboa. "Temos vindo a realizar várias ações policiais em diversos locais da freguesia onde habitualmente existem ajuntamentos, mas não se tem verificado incumprimento das normas em vigor."

Catarina Rodrigues acha que os grupos são um problema, mas não é o único. "Os ajuntamentos - sim, os portugueses gostam de se juntar, conviver -, mas os transportes são os principais responsáveis pela transmissão do vírus. E, depois, há o problema das casas onde vivem muitas pessoas e sem condições para cumprirem o isolamento se ficarem doentes." Ressalva que os motoristas dos transportes públicos obrigam as pessoas a usar máscara, só que há menos autocarros e estes vão muito cheios.

Mónica Graça fala da sua experiência, trabalhou até há bem pouco tempo numa central de táxis, saía de casa por volta das 05.40. "Apanhava o 736 e o 735, iam sempre cheios a essa hora, de manhã é muito complicado."

António Costa anunciou na quinta-feira investimento para o reforço dos transportes.

A ARS informa que foi criada uma equipa multiprofissional e multi-institucional em estreita ligação com a comunidade, "no sentido de apoiar os agregados familiares em todos os aspetos para poder ser garantido o isolamento", que inclui elementos das forças de segurança. A junta afixou mais cartazes nos espaços públicos. Os residentes gostariam de ver medidas práticas na rua.

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