Almirante Vieira Matias

A criação da ONU, não obstante ter mantido um critério do Conselho de Segurança que aristocratizava os cinco detentores do direito de veto, mostrou que tinha nesse ponto inquietações com hierarquias militares, e respetivas capacidades, porque no que toca à Assembleia Geral a utopia de criar um novo mundo de igualdade das etnias, culturas, religiões, esperando que os princípios do "mundo único", isto é sem guerras, e "a terra casa comum dos homens", animariam a real cooperação global, porque nenhum Estado teria sequer o poder de enfrentar, isolado, nem a criação da nova estrutura internacional nem os prováveis desafios possíveis.

A Europa, que se considerou durante muito tempo "a luz do mundo", procurou preparar a União efetiva, muitas vezes proposta sem resultado, porque durante cinco séculos antes de Cristo teve referência a conclusão de Heródoto sobre a incerteza da origem do nome, vindo a ser divulgado, em 1873, o título da lição de Vital Blanche, na Universidade de Nancy, que foi "A península europeia, o oceano e o Mediterrâneo", como recordou François Lebrun.

O saber europeu conseguiu a unidade da União, sofrendo as históricas dificuldades, mas viu abalado o projeto com o Brexit, uma agressão ao projeto dos europeístas, que subitamente foi superado pelo surpreendente global ataque do covid-19, numa data deste século XXI em que se divulgava aceitar que estamos "num mundo sem bússola", com os mares atingidos por perigos de ambição política ou de criminalidade, com a América Latina em crise global, tudo enfrentado pelo repúdio do multicooperativismo na intervenção do líder dos EUA na Assembleia Geral da ONU. Subitamente, a crise rapidamente mundializada do coronavírus, talvez fazendo lembrar e avaliar a experiência nunca esquecida da peste negra, que em vez de suspender competições afastadas da utopia da ONU, em cada dia agrava a competição do princípio da America First, o projeto da China a caminho de ser uma das potências mundiais e, só de exemplo, quando na gravidade do coronavírus, a Coreia do Norte corta promessas recentes, e os jornais anunciam, além dos irresponsáveis populismos de Trump, que está em curso "a China contra a Índia: choque de titãs na fronteira dos Himalaias". Acontece que, entre os problemas anteriores à pandemia, as questões do mar afetam historicamente os interesses portugueses, certamente um domínio que os responsáveis não deixarão esquecer na situação atual que ameaça alterar a ordem internacional.

Tem um significado importante o facto de a Assembleia da República ter consagrado, por unanimidade, o nome do ilustríssimo almirante Nuno Gonçalo Vieira Matias, sempre fiel ao conceito nacional da Marinha, e por isso comandante e combatente com os fuzileiros, correndo as hierarquias até ao posto de Chefe do Estado-Maior, mas também académico respeitadíssimo da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia de Marinha, professor da Universidade Católica, com uma autoridade científica e pedagógica que enriqueceu as áreas de relações internacionais, estratégia, história de Portugal na ocidentalização do mundo, sempre devotado aos interesses portugueses, conhecedor profundo das divergências que, por exemplo, marcam as relações da Índia, do Japão, da Rússia, da Arábia Saudita, sob o exercício turbulento de Trump, e os profundos desafios económicos, de segurança, e integridade do projeto da União Europeia. Somos vários os seus amigos gratos, admiradores, e é nacionalmente importante o legado que deixou para a pátria que amou, e o globo que conheceu.

O civismo com que universidades, institutos de investigação, médicos, enfermeiros e serviços de segurança enfrentam a pandemia, sofrendo perdas de vidas, teve reflexo nas Forças Armadas, cujos esforços sem limites e, frequentemente, com carência de recursos têm hoje o final reconhecimento na categoria universitária de investigação e no ensino, que muito deve ao almirante. Entre outros, e várias publicações que abrangem as diferentes formações, Marinha, Exército, Força Aérea e ainda GNR que vai ter generais, e polícia, têm significado geral os Cadernos do Instituto Universitário Militar, cujo último número se consagra aos desafios estratégicos para Portugal no pós-covid-19.

A relação dos estudos sobre os factos que, como no passado, tratarão do novo futuro, quando findar a pandemia. O almirante Vieira Matias, consagrado por unanimidade da Assembleia da República, com referência, para sempre, de ter cumprido exemplarmente os seus deveres e ser "contemplado pela pátria". Na minha aldeia de Grijó, na hora da ceia, a minha avó, que nunca viu o mar, conduzia uma oração "pelos marinheiros que andam em perigo no mar". Na minha devoção pelo almirante, estando eu próprio impedido de o visitar, telefonava-lhe sempre que podia, e a minha família continuou a tradição da aldeia, com a devoção que ele sempre mereceu.

Mais Notícias