Congresso do CDS. Chicão ganhou, o portismo acabou

Rui Rio varreu o passismo do PSD e agora foi a vez de Francisco Rodrigues varrer o portismo do CDS-PP. Dos generais do ex-líder no partido não sobra nenhum.

Foi pelo círculo de Aveiro que Paulo Portas foi pela primeira vez eleito deputado, em outubro de 1995. E foi em Aveiro, agora, quase 25 anos passados, que os militantes do CDS - partido a que Portas acrescentou o PP de Partido Popular - removeram a sua herança no partido.

O portismo começou, na prática, em 1998, quando Portas foi pela primeira vez eleito líder - durando portanto 22 anos. Depois do que se passou neste fim de semana no 28.º congresso do partido, no Parque das Exposições de Aveiro, não sobra ninguém nos órgãos de direção do CDS-PP que se possa reclamar dessa "escola".

Francisco Rodrigues dos Santos, 31 anos, líder da Juventude Popular (vai cessar agora funções), conhecido por Chicão, é o novo presidente do partido - e quando o portismo apareceu tinha menos de 10 anos. Mas, mais do que isso, será pela sua mão que regressará ao CDS, depois de quase vinte anos de ausência, o líder do CDS que Paulo Portas ajudou a construir e depois ajudou a destruir: Manuel Monteiro.

Parlamento. Cristas renuncia

O novo presidente tem também do seu lado o único dirigente que interrompeu o consulado de vinte anos de Portas na liderança do CDS-PP, José Ribeiro e Castro.

Foi a derrota, neste fim de semana, de João Almeida, derrotado por Francisco Rodrigues dos Santos, que tirou aos portistas todas as principais plataformas de direção no partido. Almeida representa no entanto cerca de 46% do partido - e prometeu que será a voz desse grupo "contra o unanimismo" dentro do partido.

A limpeza começou por Assunção Cristas, a jurista que Portas levou para o CDS em 2006 e que depois fez ministra da Agricultura no governo da troika (2011-2015). Devastada pela derrota esmagadora do CDS-PP nas últimas legislativas, Cristas demitiu-se da liderança. Hoje deverá renunciar ao mandato de deputada, sobrando-lhe como única atividade política um mandato de vereadora sem pelouro em Lisboa. Foi a Aveiro, discursou logo a abrir o congresso e já não voltou. Ontem o único ex-líder presente na sessão de encerramento do conclave foi José Ribeiro e Castro.

Completamente de fora da política ficam também os outros dois ministros do CDS nesse governo, António Pires de Lima e Luís Pedro Mota Soares. O primeiro fez um discurso no congresso deste fim de semana brutalmente crítico para Chicão - recebido com uma mistura de apupos e aplausos pela plateia - e despediu-se dos congressistas com um enigmático "adeus, até sempre" - sinal óbvio de que pouco ou nada se revê no atual CDS.

O discurso de Pires de Lima permitiu a Francisco Rodrigues dos Santos potenciar efeitos de vitimização e - como fez durante todo o congresso - atirar as bases do partido "que não pedem nada em troca" contra uma cúpula dirigente que do país só conhece "o eixo Caldas-São Bento".

Já Mota Soares está também completamente de fora. Falhou a eleição como eurodeputado (era o número dois de Nuno Melo) e não constou nas listas de candidatos a deputados em outubro - e agora a sua vida é só ser advogado, sem funções no CDS.

Voluntariamente ou por imposição estão também de fora das estruturas do partido antigos dirigentes durante o consulado portista no CDS, como João Rebelo ou o ex-líder parlamentar, Nuno Magalhães, e ainda Vânia Dias da Silva, que durante todo o consulado da troika foi subsecretária de Estado adjunta de Portas no governo. Nuno Melo, esse, continua eurodeputado - mas recusou integrar os órgãos do partido.

Cecília Meireles de saída?

Assim, os herdeiros do portismo estão agora acantonados no grupo parlamentar. Cristas vai sair e o seu lugar será ocupado por João Gonçalves Pereira, chefe da distrital de Lisboa do partido - e que ninguém vê como portista.

Restam a líder parlamentar, Cecília Meireles, Ana Rita Bessa (segunda na lista de Lisboa), João Almeida (cabeça-de-lista em Aveiro) e Telmo Correia - tudo dirigentes que de uma forma ou de outra integraram as equipas de Portas no partido ou no governo.

De todos, Cecília Meireles e Ana Rita Bessa são que as aparentam estar mais inconformadas com a vitória de Francisco Rodrigues dos Santos e com aquilo que ela significa de um certo regresso a um CDS "Deus, Pátria, Família", assim como a possibilidade de começarem a receber da direção do partido encomendas legislativas com as quais discordem.

As opções estão portanto em aberto - mas Cecília Meireles, apesar de ter ouvido o novo presidente reiterar-lhe a confiança, sabe perfeitamente que para Francisco Rodrigues dos Santos se tornar deputado é preciso que ela renuncie (o novo chefe do partido foi número dois do CDS, atrás de Cecília, pelo círculo do Porto, nas legislativas de 6 de outubro passado).

Para todos já se iniciou ou vai iniciar-se um período de travessia do deserto. Paulo Portas, pelo seu lado, mantém-se em rigoroso silêncio. Não foi ao congresso, não disse nada. A vida é outra, não quer saber - e nem o regresso de Monteiro ao partido lhe parece suscitar a mais pequena vontade de voltar à política.

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