De Lisboa aos EUA. Bolsonarismo gera nova vaga de exilados políticos no Brasil

Além do deputado Jean Wyllys, também escritores, ativistas e académicos são obrigados a morar no estrangeiro. "O país tornou-se um enorme laboratório da extrema-direita", diz a antropóloga Débora Diniz, a viver fora, após membros da extrema-direita ameaçarem massacrar a universidade onde trabalhava.

"Sinto saudades de ser professora, sinto saudades das minhas alunas", responde Débora Diniz, feminista, obrigada a abandonar o Brasil por razões de segurança desde o início da onda de extrema-direita e a consequente eleição de Jair Bolsonaro como presidente do país, quando questionada sobre o que sente mais falta.

Não foi só a antropóloga, de 48 anos, da Universidade de Brasília que sentiu necessidade de recorrer ao exílio forçado para se defender de ameaças - o deputado Jean Wyllys, do PSOL, partido de extrema-esquerda, abdicou do seu mandato no início do ano e está em Berlim; Márcia Tiburi, que concorreu ao governo do Rio de Janeiro pelo Partido dos Trabalhadores, mora na região de New England, nos Estados Unidos; e Anderson França, escritor que denuncia casos de abusos policiais e de racismo nas favelas do Rio de Janeiro, mudou-se para Portugal.

Ao DN, Débora Diniz revela que, por causa do seu trabalho de pesquisadora académica e ativista na luta pela descriminalização do aborto, sempre foi alvo de contestação. "Mas dentro das regras do debate democrático."

"No entanto, a dado momento do ano passado, o crescimento da extrema-direita, a disseminação do ódio, a perseguição aos valores da igualdade de mulheres, gays, negros e indígenas e a consequente ascensão ao poder do presidente Bolsonaro coincidiram no tempo com as discussões no Supremo Tribunal Federal sobre a descriminalização do aborto e o meu ativismo e as minhas pesquisas académicas em torno do tema."

"Por um período que se estendeu de abril de 2018 até às eleições de outubro e prosseguiu ainda em 2019, fui alvo do extremismo. Senti não tanto que era a hora de partir, mas mais que estava debaixo de um mandato de expulsão quando passei a precisar de ter escolta policial, a minha escola foi ameaçada de massacre e os meus colegas de departamento e alunos foram ameaçados."

Wyllys faz doutoramento em Berlim

Jean Wyllys, que já em 2015 dizia temer a escalada do conservadorismo religioso em entrevista ao DN, a propósito do poder adquirido pelo então presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, artífice do impeachment de Dilma, saiu do Brasil em janeiro. "Como é que vou viver durante quatro anos dentro de carros blindados sem conseguir frequentar os lugares que habitualmente frequento?", questionava-se, pouco depois de ter sido autorizado pela polícia a usar escolta após a eleição de Bolsonaro.

Wyllys, único homossexual assumido do Congresso Nacional na legislatura anterior, havia mantido confrontos com o então seu colega deputado Bolsonaro, nomeadamente, na votação do impeachment. Chamado de gay em termos pejorativos quando declarava o seu voto, reagiu cuspindo no hoje presidente.

Além disso, era próximo da colega de partido Marielle Franco, vereadora executada em março do ano passado por membros da milícia (o nome das máfias cariocas) Escritório do Crime, segundo a polícia. Wyllys, que faz doutoramento em Berlim e passou por Portugal num périplo no início do ano para denunciar o seu caso, sublinhou na hora da saída que o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, empregou no seu gabinete familiares de Adriano da Nóbrega, o suposto líder do Escritório do Crime.

Escritora sob ameaça

Márcia Tiburi queixou-se de ter a vida virada de cabeça para baixo por ser obrigada a fazer-se acompanhar por seguranças a cada evento e por ter de contratar uma task force só para combater as notícias veiculadas a seu respeito nas redes sociais.

Filósofa, escritora e jornalista, aproveitou já se encontrar nos Estados Unidos, onde se deslocou sob o pretexto de estar numa residência literária a terminar o seu último livro, para passar a viver na região de New England. Está inscrita, segundo disse ao jornal Valor Económico, num programa chamado City of Asylum que oferece acolhimento e segurança a escritores ameaçados pelo mundo.

Nas últimas eleições, Tiburi foi a sétima candidata mais votada para o cargo de governadora do Rio de Janeiro, com perto de 6% dos votos, muito atrás do vencedor Wilson Witzel, do PSC, que passou de apoiante de Bolsonaro a seu inimigo, hoje, por causa de revelações no caso Marielle.

Do Rio para Portugal

Anderson França, que depois de anos a denunciar abusos policiais e racismo nas comunidades crentes do Rio mora hoje em Portugal, queixa-se de ter sido obrigado a escapar por ser vítima de ameaças de morte de membros do autoproclamado maior fórum brasileiro de extrema-direita.

Segundo reportagem de julho do jornal The Guardian, os membros anónimos desse site a operar hoje apenas na chamada dark web, e cujo nome a polícia prefere não divulgar, discutem pedofilia, violação corretiva de lésbicas, planos de massacre a escolas e ataque a marxistas.

Para Débora Diniz, o Brasil está, por isso, aterrorizante. "Assusta-me profundamente, porque o país tornou-se um laboratório da extrema-direita e um laboratório com dimensões continentais e importantíssimo na geopolítica da região - os acontecimentos na Bolívia e no Chile são satélites disso mesmo."

"Além disso, tem tradição de corrupção, muito além do anterior governo, de fragilidade democrática e de uma ditadura militar há não muito tempo, logo, a narrativa que volta ao poder como composição da ultradireita global, com origem nos Estados Unidos, aterroriza."

Durante a ditadura militar, políticos como Leonel Brizolla ou Fernando Henrique Cardoso e artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil ou Oscar Niemeyer optaram, a dada altura, pelo exílio.

Débora Diniz, que está nos Estados Unidos, Jean Wyllys (Berlim), Márcia Tiburi (também Estados Unidos) e Anderson França (Portugal) não são os únicos exilados desta nova vaga - mas são a face mais visível. E não serão os últimos, de acordo com relatos de outros académicos, pesquisadores, ativistas e políticos.

Os exilados não devem ficar por aqui

David Miranda, o deputado que substituiu Wyllys, é um dos alvos. "Comecei a receber ameaças assim que fui chamado para o cargo. Mas na semana passada as ameaças intensificaram-se, com e-mails muito difíceis de digerir, falando sobre a minha família, mencionando os meus cachorros, o meu marido, a Marielle", afirmou à edição brasileira do El País, em junho.

Junho foi o mês em que o site The Intercept, fundado por Glenn Greenwald, marido de Miranda, começou a publicar reportagens conhecidas como "Vaza Jato", em que foram denunciadas práticas irregulares de procuradores da Operação Lava-Jato e do juiz do caso, hoje ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro.

O deputado Marcelo Freixo, também do PSOL e tido como mentor de Marielle Franco, tem um histórico de ameaças por ter conduzido uma comissão parlamentar de inquérito no Rio contra as milícias.

Fernanda Chaves, a assessora de Marielle que, ao contrário da vereadora e do motorista Anderson Gomes, sobreviveu ao atentado, saiu do Brasil e só voltou ao país meses depois. Por segurança, não revela a cidade onde mora.

Bolsonaro e o bolsonarismo são parte de um fenómeno que leva aos exílios, sublinha Débora Diniz: "Há um processo de intensificação da intolerância da ultradireita às conquistas recentes de igualdade da sociedade brasileira, como a ascensão de uma classe trabalhadora ao universo do consumo. E ao facto de as populações de mulheres, negros, indígenas e gays passarem a dizer 'eu existo', 'eu reclamo direitos', ou seja, tudo o que toca os valores do patriarcado, religioso, militar, dos quais Bolsonaro é ícone, logo Bolsonaro é parte desse fenómeno que levou ao meu mandato de expulsão."

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