"Esta pandemia é como os desportos radicais, não podemos baixar a guarda"

A clareza tranquila do olhar e do sorriso é a mesma das palavras com que explica o vírus que veio virar o mundo do avesso. Quem é Pedro Simas, o cientista que desde miúdo desafia o medo em desportos radicais, a quem os amigos chamavam "falta de ar", tal era a sua ânsia de viver, mas aos 50 ganhou serenidade, e que de médico veterinário se fez virologista?

Sempre quis viver nos Açores, terra paterna, mas o desejo não se concretizou ainda. Talvez seja bom, diz ele, viver sempre com um desejo por concretizar.

Pedro Simas, 54 anos, virologista que nos tem informado com rigor e sem alarmismos sobre o novo coronavírus que está na origem da pandemia que parou o mundo, é um apaixonado por desportos radicais, adora cozinhar (até já teve uma geladaria onde ele próprio fazia os gelados) e é um pai orgulhoso de dois filhos já crescidos, a quem sempre deu muitos beijinhos, o Rodrigo e o Vicente.

Depois de anos no Instituto de Medicina Molecular de Lisboa, vai iniciar uma nova etapa na sua carreira - a direção do novo Centro de Investigação Biomédica da Universidade Católica.

Em fundo, música clássica, chá frio e pedaços de chocolate negro a acompanhar a conversa.

Nos últimos meses, tornou-se um rosto muito conhecido dos portugueses, por explicar de forma clara o novo coronavírus. Num contexto de pandemia, em que as posições estão tão extremadas, como é que se desdramatiza sem desvalorizar a doença? Como se encontra esse equilíbrio?
Não é fácil, mas eu só conheço uma forma, que é ser transparente. Usar linguagem simples, mas mantendo o rigor científico sem adotar uma atitude defensiva. É uma coisa que me tem surpreendido muito nesta pandemia - a ciência não estar a conseguir esse equilíbrio na transmissão do conhecimento. Há um livro do Tom Nichols, The Death of Expertise, que fala disto, de como a linguagem técnica e defensiva do cientista cria incerteza no público. Quando comunicamos ciência para o público temos de dar algum conforto, explicar as coisas cientificamente corretas, mas aceitar o risco inerente de aplicar o conhecimento que existe a algo novo.

É isso que está a contribuir para o extremar de posições: de um lado, o pânico e a exigência de medidas autoritárias, do outro, o negacionismo? Será assim tão difícil o meio termo, que permite viver com a doença, prevenindo a sua propagação, mas sem estar aprisionado por ela?
O medo é importante na evolução das espécies, mas não pode ser prolongado no tempo, tem de ser uma reação de emergência, depois vem o conhecimento, que dissipa e resolve o medo. A reação inicial foi de medo e isso teve um efeito global de dominó, no mundo inteiro. É normal que existam posições extremas, que são reativas, mas o importante é que no meio esteja a maioria da população.

"Aplicar corretamente estas medidas - o uso da máscara, a higiene das mãos e a adoção da regra dos três cês (evitar contactos próximos, evitar espaços com muita gente e evitar espaços fechados) é tão eficaz como o confinamento."

Mas parece que ainda não estamos nesse patamar. Parece que avançamos e recuamos. Como cientista e virologista, o que vê quando olha para a evolução da pandemia no mundo e em Portugal?
Com alguma preocupação, porque com o regresso à vida normal o aumento do número de casos era inevitável, mas temos as ferramentas para controlar a disseminação do vírus em desconfinamento - e não sou só eu que acho isso, é um facto, o próprio CDC fez vários estudos em que compara o uso da máscara, a higiene das mãos e a adoção da regra dos três cês (cuidado evitar contactos próximos, cuidado evitar espaços com muita gente e cuidado evitar espaços fechados) ao confinamento. Aplicar corretamente estas medidas é tão eficaz como o confinamento, que a própria Organização Mundial da Saúde já desaconselhou, pelos danos colaterais imensos que implica. Portanto, está nas nossas mãos, no comportamento individual e coletivo, a evolução da pandemia. É isso que vai determinar uma segunda vaga e se o número de infeções vai ser mais descontrolado ou não. A grande preocupação é que as infeções não ocorram nos grupos de risco.

E que medidas podem ser tomadas para proteger os grupos de risco?
Está a trabalhar-se, e falo com conhecimento de causa, na proteção dos grupos de risco nos lares, mas cá fora, na comunidade, está a maioria dos que pertencem a grupos de risco. O grande receio é que os números da infeção na população sejam tão elevados que não se consiga proteger essas pessoas. É preciso que estejamos muito atentos e não baixemos a guarda. Tivemos um período de grande controlo nos quatro meses depois do confinamento e ficou a sensação de que o problema estava resolvido, relaxou-se um bocadinho e ele voltou. É o que está a acontecer em Portugal e na Europa toda.

A evolução dos números justifica as últimas medidas do governo: proibição da circulação entre concelhos de 30 de outubro a 3 de novembro e uma espécie de confinamento local em Felgueiras, Paços de Ferreira e Lousada? Já há quem tema pelo Natal.
Do ponto de vista da virologia, faz todo o sentido, nesta fase, em que há um crescimento exponencial do número de casos, que se limite uma grande movimentação de pessoas, que aumentaria a disseminação do vírus pelo país. Quanto aos confinamentos locais, defendo desde início que esta pandemia é um problema global que pode ter soluções locais. A nova estratégia de semáforo para distinguir as regiões de maior e menor risco e adaptar as medidas é correta. Com a adesão ao uso de máscara, à regra dos três cês e à higiene das mãos conseguiremos estabilizar as infeções. Espero que se chegue ao Natal sem sinais vermelhos.

Se estivéssemos a monitorizar diariamente a evolução - novos casos e número de mortos - de outras doenças como monitorizamos esta, o que verificaríamos?
Não é uma doença, mas se monitorizássemos as mortes por acidentes de viação, neste momento, morreram mais de um milhão de pessoas em 2020. Mortes causadas por álcool foram mais de dois milhões, por tabaco, quase quatro milhões, por cancro, seis milhões, por VIH, quase 1,3 milhões de pessoas só este ano e há 42 de milhões infetados, por malária já quase 800 mil e a maioria são crianças. Doenças de comunicação obrigatória, incluindo as infecciosas, já provocaram quase dez milhões de mortos. As mortes por influenza [gripe] baixaram um pouco este ano, muito devido ao uso de máscara, mas já vão em quase 400 mil pessoas até agora. É tudo muito relativo e por isso é que é preciso ter muito cuidado quando se tomam decisões.

"É inevitável que aconteçam mortes [por covid-19]. Mas por enquanto estão numa proporção menor relativamente às infeções, há maior eficiência na proteção do que houve na primeira vaga."

Como a de confinar ou não confinar?
Sim, a questão do confinamento foi muitas vezes posta em termos de economia vs. vidas humanas, mas eu não vejo assim, vejo como vidas humanas vs. vidas humanas. Com os confinamentos vêm os milhares de cancros por diagnosticar, as consultas que ficaram por fazer, as cirurgias que ficaram por realizar, os empregos que se perderam... Como disse há pouco, neste momento, tudo depende do comportamento de cada um, que se traduz num comportamento coletivo. As instituições e o país têm feito o que podem e têm aprendido a lidar com a pandemia, cabe-nos agora a nós a responsabilidade individual e coletiva de cumprir as regras. Basta olhar para a evolução da covid-19 na Europa para perceber que, sempre que há um relaxamento das regras, os casos voltam. E agora, mesmo aplicando as regras, os casos vão continuar a subir porque há muito mais movimentação de pessoas e essa é mais uma razão para o cumprimento rigoroso das regras: usar sempre a máscara, a regra dos três cês e a higiene das mãos.

As mortes estão a subir um pouco.
Sim, isso é normal, infelizmente é inevitável que aconteçam mortes. Mas por enquanto estão numa proporção menor relativamente às infeções, há maior eficiência na proteção do que houve na primeira vaga. É importante dizer que a nossa primeira vaga foi muito pequena, tivemos muito poucas infeções e pouca letalidade. Agora temos mais infeções, mas proporcionalmente temos menos letalidade. Isto é uma demonstração de que nos preparámos, conseguimos preservar os grupos de risco. Até agora, não tivemos em Portugal infeções ao ponto de sobrecarregar o Serviço Nacional de Saúde. Temos de tentar evitar que isso aconteça.

"A pandemia acaba quando se atingir o equilíbrio da imunidade populacional. Pensa-se que é quando 60% a 70% da população já tenha sido exposta ao vírus e tenha memória imunológica"

Como é que se explica que, em alguns países, com medidas sanitárias semelhantes, as infeções e as mortes pareçam ser muito mais descontroladas do que noutros. O vírus é mais agressivo nuns países do que noutros?
Já sequenciaram mais de 90 mil vírus no mundo inteiro e é geneticamente estável, apresenta mutações, mas não apareceu ainda nenhuma que cause maior virulência e maior letalidade. Terá que ver com a proteção dos grupos de risco. Estes estão muito bem definidos, nada mudou até agora e ainda bem que é assim, é um vírus muito previsível. O vírus é que precisa de nós para se disseminar e não é uma força sobrenatural que não conseguimos controlar, nós sabemos como controlar.

Quando é que uma pandemia acaba?
Quando se atingir o equilíbrio da imunidade populacional. Para responder muito diretamente à sua pergunta, pensa-se que é quando 60% a 70% da população já tenha sido exposta ao vírus e tenha memória imunológica. Isto consegue-se através da vacina ou deixando o vírus seguir o seu curso natural. Em Manaus, no Brasil, não conseguiram, infelizmente, controlar a disseminação do vírus e já atingiram esse valor e quando o atingiram as infeções e o número de mortos diminuíram drasticamente.

Há uma enorme confusão e polémica em torno do conceito de imunidade populacional, que se associa à ausência de medidas de combate à doença e ao descontrolo das infeções.
A imunidade populacional é a percentagem de pessoas que está imune, ou seja, resistente à infeção e à doença. A imunidade populacional não se consegue apenas deixando o vírus seguir o seu curso natural, sem qualquer tipo de mitigação à disseminação do vírus ou proteção dos grupos de risco, ao contrário do que os media e alguns cientistas fizeram crer. A imunidade populacional constrói-se de duas formas - naturalmente ou artificialmente, através da vacina. De facto, a pandemia só acaba quando existir imunidade populacional. Isto não tem discussão. O que pode discutir-se é como atingi-la.

"A pandemia é um problema global, mas a solução não tem de ser igual para todos. Cada país tem culturas diferentes que se traduzem em comportamentos diferentes. Até em Portugal, se calhar, as medidas no Alentejo podem ser diferentes das que se aplicam em Lisboa e Vale do Tejo."

A estratégia sueca, de Anders Tegnell, que tanta polémica tem causado (com altos e baixos, conforme os números), é agora defendida por três importantes epidemiologistas e infeciologistas que lançaram uma carta aberta - The Great Barrington Declaration - aconselhando medidas de mitigação básicas e proteção dos grupos de risco. A OMS manifestou-se contra.
Quando se diz que não podemos ficar em casa à espera da vacina, porque isso mata a sociedade e tem consequências devastadoras, eu concordo. Temos de desconfinar, com regras baseadas no conhecimento que temos sobre como controlar a disseminação do vírus e protegendo os grupos de risco. O problema é que se associa isso a um completo descontrolo da infeção. Ou a imunidade populacional demora muito tempo, enquanto não há vacina, para proteger vidas, ou demora pouco tempo, mas não se protegem as vidas. Ninguém advoga a perda de vidas. O que tem de existir é rigor na ciência e esta tem de ser transmitida com rigor e isso não tem acontecido com o conceito de imunidade populacional.

Os epidemiologistas, virologistas, médicos, cientistas, passaram a ser quase pop stars. Como lida com a exposição?
Não me apercebo muito do mediatismo, mas a exposição não é fácil para mim... comparo um pouco com a caça submarina, que é um dos desportos que faço. Quando mergulho, penso sempre que quero regressar e que há o perigo de não regressar porque é um desporto perigoso. Eu até dizia aos meus filhos, quando fazíamos caça submarina nos Açores: "Não entrem em competição um com o outro para ver quem apanha o peixe maior porque não vale a pena morrer por causa de um peixe." Quando uma pessoa vai a uma televisão em direto, há sempre aquele medo de as coisas correrem mal e eu concentro-me ao máximo para regressar à superfície. De todas as vezes, é como se fosse um novo mergulho e tento estar o mais bem preparado possível, ser transparente, dizer o que penso, sem reservas, e não entrar em áreas nas quais não tenho competência.

"Sempre fui apaixonado pela adrenalina e pelos desportos radicais. É um vício. Chego à praia do Guincho e estão ondas muito grandes e aquilo mete medo e olho para os meus amigos e nós até hiperventilamos, mas eu sou sempre dos primeiros a entrar."

É otimista. Como é que um otimista comunica sobre uma pandemia em relação à qual estão todos pessimistas?
Sim, sou otimista. Sempre me responsabilizei por tudo o que me acontece. Não tenho a tendência de, quando alguma coisa me acontece de mal, responsabilizar terceiros. Tento sempre olhar para os factos e ver o copo meio cheio. É como no desporto, uma pessoa tem de ser otimista. Um dos desportos que faço é o downhill, que é uma bicicleta de montanha que só se desce, por cima de rochas, troncos, tudo o mais. Quando fazemos esse tipo de desporto, temos de olhar para as dificuldades - e elas são muitas vezes muito inesperadas - com a perspetiva de as resolver e ultrapassar para sobreviver.

É um praticante entusiasta de desportos radicais. É uma forma de desafiar o medo?
É, claramente. Sempre fui apaixonado pela adrenalina e pelos desportos radicais. É um vício. Vou dar-lhe um exemplo, eu chego à praia do Guincho e estão ondas muito grandes e aquilo mete medo e olho para os meus amigos e nós até hiperventilamos, mas eu sou sempre dos primeiros a entrar. Tenho uma atração...

... pelo abismo?
Exato. Começo a olhar, a ver como posso fazer e vou. Tenho tido imensa sorte na vida, já me vi em situações muito delicadas, de vida e de morte, e tenho aprendido muito com isso, mas sim, tenho uma atração muito grande pela dificuldade, pelo desafio, posso não ser, e não sou, o surfista mais habilidoso, mas sou o que gosta de entrar em mar grande. Felizmente não fui da geração que descobriu a onda da Nazaré.

Se fosse, não falhava.
Não. Agora, já não consigo, claro, mas tenho esse fenótipo, esse tipo de comportamento, sempre tive, no surf, na bicicleta de montanha, no downhill, no esqui, no montanhismo, na caça submarina, com uma exceção, o parapente. Fi-lo porque já tinha tido a experiência do mar, da montanha e faltava-me uma coisa, de que tinha imenso medo, a altitude, o ar, e então fiz durante dois ou três anos. Estive em situações lindíssimas, no sul da Turquia, a mais de três mil metros de altitude, a ver o Mediterrâneo lá em baixo, as lagoas, mas senti que ali não podia falhar, havia muito pouca margem para erro e eu também gosto de poder errar e aprender com isso e achei que era melhor não arriscar porque tenho sempre esta tendência de ir mais longe.

Em que situações limite já se viu?
A primeira de que me lembro era miúdo.

Os seus pais deviam morrer de preocupação?
Quando eu desaparecia, eles preocupavam-se, depois começaram a habituar-se. A primeira foi em África, onde vivi entre 1969 e 1973, porque o meu pai era engenheiro e foi lá fazer uma comissão para construir a barragem de Cahora Bassa. Aquilo era só natureza e havia um monte muito grande nas traseiras de nossa casa e eu tinha a mania de ir explorar e entrar nos buracos. Uma vez entrei numa gruta e depois não conseguia sair. Estava sozinho e lembro-me do pânico. Depois de muito tempo, lá consegui passar a cabeça e os ombros e sair, mas foi um susto. Já passei por muitas. A última foi a fazer downhill, fiquei muito abalado.

Então?
Um mortal para a frente que correu mal. Felizmente tinha o capacete integral e o colar cervical, mas durante três ou quatro meses fiquei com parestesias e pensei: se calhar já não tenho idade para fazer isto. É o excesso de confiança, é sempre assim, quando temos excesso de confiança e relaxamos, as coisas acontecem. É como esta pandemia, se relaxarmos nos cuidados, o vírus volta. Nos desportos radicais é a mesma coisa, se baixamos a guarda, lá vem o homem da marreta e lembra-nos que a natureza é mais forte que nós, temos de a respeitar.

"Preferia morrer a fazer um desporto radical do que de uma doença terminal, mas por outro lado, é por correr esse risco que tenho tanto cuidado. Já tive alguns acidentes e fiquei com mazelas, mas tenho sempre esta preocupação de que tenho de regressar, porque há muita coisa boa na vida a que regressar."

Como é que se conjuga o medo de morrer com esse vício da adrenalina?
Sempre tive um lema na vida, que em inglês é: work hard, play hard [trabalha muito, diverte-te muito]. E uma vez ouvi uma canção do Neil Young em que a certa altura ele dizia "it's better to burn out than to fade away" ["é melhor arder do que desaparecer"]. Preferia morrer a fazer um desporto radical do que de uma doença terminal, mas por outro lado, é por correr esse risco que tenho tanto cuidado. Já tive alguns acidentes e fiquei com mazelas, mas tenho sempre esta preocupação de que tenho de regressar, porque há muita coisa boa na vida a que regressar.

O medo da morte está sempre presente?
Está presente, quase instintivamente, e nós vamos desafiando, mas com cautela, mas não tenho propriamente medo da morte. Já vivi tanto, já fiz tanta coisa, claro que não quero morrer, mas já não tenho aquela coisa de querer fazer tudo já porque a vida é curta. Sempre tive essa ansiedade de fazer mais e mais. Os meus amigos até me chamavam "falta de ar", porque não parava, estava sempre a fazer coisas. Era um estado permanente de ansiedade de querer aproveitar a vida ao máximo. Hoje já não.

E isso dá-lhe tranquilidade?
Sim. Tenho sido um privilegiado, passei por períodos da vida difíceis, como toda a gente, durante muitos anos fui muito protegido, tudo me correu bem, no fim dos 40 tive um grande desgosto, mas isso foi das melhores coisas que me aconteceram porque tornou-me mais maduro, mais humano, mais completo. É muito importante as pessoas não terem só sensações boas. A aprendizagem não se faz só com recompensas positivas, os estímulos negativos também são importantes. Como dizia Nietzsche, é preciso caos dentro de nós para gerar uma estrela dançante. Tem de haver caos, coisas difíceis, para crescermos e termos empatia em relação ao sofrimento e dificuldades dos outros.

"Nunca quis ser o melhor em nada. Quis estar sempre ao lado dos melhores, mas nunca quis ser o melhor. Paga-se um preço muito alto por ser o melhor, não se tem tempo para mais nada."

E como é que se concilia tudo: o trabalho de cientista, os desportos radicais, os filhos?
Para mim, foi muito fácil porque eu nunca quis ser o melhor em nada. Quis estar sempre ao lado dos melhores, mas nunca quis ser o melhor. Paga-se um preço muito alto por ser o melhor, não se tem tempo para mais nada. Mas foi um equilíbrio difícil por causa da imagem que passava para os outros. Desde pequeno que faço desporto e durante muitos anos isso dava de mim uma imagem pouco séria.

O desporto não era visto da mesma maneira que é hoje.
Sim, lembro-me que estava em Cambridge e quando perguntavam onde é que está o Pedro Simas, as pessoas respondiam: "let me look at the window. It"s windy, it"s good for windsurf" ["deixa-me olhar pela janela, está vento, está bom para o windsurf"] [ri]. Aqui em Lisboa, onde é que o Pedro Simas está? "Deve estar na crista da onda" [ri outra vez]. Lembro-me perfeitamente de um exame oral em Medicina Veterinária em que o professor me baixou a nota por causa do meu bronze (tinha tido uma nota excelente no exame teórico e quando cheguei à oral o professor disse que achava que eu tinha copiado porque estava muito bronzeado e baixou-me imenso a nota apesar de eu ter respondido às perguntas todas). Isto foi uma constante da minha vida, mas aceitei tranquilamente e mantive-me fiel ao meu estilo de vida e é isso que eu transmito aos meus filhos: a importância de manter o equilíbrio entre trabalho e diversão.

E com os seus filhos, como foi? Que tipo de pai é?
Sempre fui um pai muito carinhoso, dava-lhes muitos beijinhos e muitas festinhas e muito amor. Ainda hoje, que eles já são crescidos, lhes dou beijinhos. Sempre falei com eles com a maior transparência e como se fossem adultos, explicava-lhes as coisas e nunca lhes facilitei a vida. Sempre lhes atribuí imensa responsabilidade. Havia uma regra em casa e essa era universal, ninguém podia bater em ninguém. Eles nunca andaram à bulha e essa é uma coisa de que me orgulho imenso. Eu com o meu irmão mais velho andava quase todos os dias à pancada e não queria que isso acontecesse com eles. Temos uma relação muito próxima. São dois e muito diferentes um do outro e o maior desafio é respeitarmos a individualidade deles, deixá-los fazer o seu caminho.

"Uma coisa importantíssima que os meus pais me transmitiram: a verdade e a liberdade. É fulcral para mim: dizer a verdade e ser livre. Nascemos para ser livres de pensamento e de ação."

Os seus pais deixaram-no fazer o seu caminho?
Os meus pais foram uns pais maravilhosos. Nós somos sete, os meus pais são muito católicos, havia uma grande competição entre nós, era tipo seleção natural, mas foram uns pais fantásticos e eu aprendi muito com eles e é isso que eu digo aos meus filhos: os pais têm coisas boas, outras de que não gostamos tanto, mas é importante que as crianças cresçam a olhar para os pais e a construir-se a partir daí, do que gostam mais e do que gostam menos. Uma coisa importantíssima que os meus pais me transmitiram: a verdade e a liberdade. É fulcral para mim: dizer a verdade e ser livre. Nascemos para ser livres de pensamento e de ação. O meu pai dizia sempre: "Não vos quero deixar bens materiais, quero deixar-vos princípios de vida" e isso foi extraordinário e é isso que vejo nos meus filhos hoje porque consegui passar-lhe isso também.

É católico, como os seus pais?
Sou católico, mas tenho uma relação com a fé que é muito própria e gosto de a manter em privado. Todos temos qualquer coisa cá dentro. O ser humano é uma espécie que chegou à posição que ocupa hoje - com oito mil milhões de indivíduos e o domínio do planeta Terra - não devido às suas características físicas, mas à capacidade cognitiva associada a uma moral ou ética ou cultura que fez que a humanidade funcionasse como um coletivo. Acredito que há sempre um deus dentro de nós.

A paixão pela matemática fê-lo escolher engenharia, mas acabou em medicina veterinária? Porquê?
Estive um ano em engenharia mecânica no Técnico e tive a minha primeira crise existencial. Percebi que não queria ser engenheiro como o meu pai, nem trabalhar na EDP numa central termoelétrica, até porque trabalhei lá três verões para ganhar dinheiro para comprar pranchas de windsurf. Fez-me tão bem, percebi como a vida era difícil para algumas pessoas.

Trabalhava em quê?
Primeiro foi na limpeza de máquinas. No primeiro dia fui de calças de ganga Levi"s e de T-shirt branca, impecável, e saí de lá cheio de manchas de enxofre. Fiquei desolado. Foram seis semanas de trabalho duro, mas fez-me muito bem. Noutro verão, estive a ajudar os instrumentistas, mas aí foi chato porque não me davam nada para fazer, e por último meteram-me num gabinete a organizar ficheiros, que concluí que eram para ir para o lixo. Depois, percebi que a melhor forma de ganhar dinheiro era ir à pesca ou fazer vindimas e tinha a vantagem de ser ao ar livre. Ia à pesca da lula numas traineiras e fazia três ou quatro contos por noite, era uma fortuna, tinha dinheiro para o ano todo. As vindimas eram mais duras, ao sol, e não aguentei. Mas deu-me um respeito muito grande por quem trabalha na terra e no mar. Quando recebi a notícia de que tinha entrado para o Técnico estava em Azeitão a vindimar e vieram dizer-me: "João Pedro, João Pedro, entraste para o Técnico para Engenharia Mecânica."

E depois veio a crise existencial e a medicina veterinária.
Ah, pois, nesse ano fui passar férias aos Açores e os meus tios criavam animais e achei que veterinária era o ideal para mim e mudei. Arrependi-me tanto. Gosto de ser o que sou e ensinou-me muita coisa, mas gosto muito de matemática. O meu pai sempre nos deu muita liberdade para tudo, nunca interferiu, mas não aguentou e teve que dizer: "Então, tu estavas a estudar cálculo e funções matemáticas e agora estás aí com esqueletos de animais" [eu tinha um crânio de um cão no quarto].

"Queria fazer animais transgénicos, mas toda a gente disse que era arriscado para doutoramento, podia não dar em nada, e então acabei na virologia, em Cambridge e foi assim até regressar a Portugal."

Acabou por ir para Newcastle fazer o mestrado em Biotecnologia e depois para Cambridge fazer o doutoramento em Virologia.
Sim, no ano em que me licenciei em Medicina Veterinária, mestrei-me em Biotecnologia e gostei tanto de estar lá, era uma cultura nova, aprendi uma língua nova, comecei a sequenciar e a clonar genes e aquilo para mim foi fantástico e decidi que queria fazer o doutoramento. Peguei em mim e fui de autocarro de Newcastle para Londres, não havia internet nem e-mail, não havia nada, íamos à aventura. Queria fazer animais transgénicos, mas toda a gente disse que era arriscado para doutoramento, podia não dar em nada, e então acabei na virologia, em Cambridge, e foi assim até regressar a Portugal.</p>

E como foi esse regresso?
Foi ótimo. As oportunidades estão sempre à nossa espera e quando regressei a Portugal houve um período em que estive no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, depois fui para o Instituto Gulbenkian de Ciência. Ainda houve um período em que estava em Lisboa e ia dar aulas ao Porto, até que o professor João Lobo Antunes, por quem todos temos uma enorme estima, me chamou e disse: "Pedrinho, nós vamos fazer o IMM, que é um novo projeto, quer vir para cá?" Eu respondi: "Sim, Prof., mas" e ele nem me deixou acabar, levantou a mão e não me deu hipótese, ou queria ou não queria. E eu disse que sim. Era uma pessoa muito especial o professor João Lobo Antunes, tanto que o IMM tem hoje o nome dele.

"Tive a honra de ser convidado para ser diretor do Centro de Investigação Biomédica da Universidade Católica, o que me dá uma grande alegria. Olho para isso quase como um desporto radical."

Agora vai deixar o IMM para ir dirigir o novo centro de investigação da Faculdade de Medicina da Universidade Católica.
Há aqui uma fase de transição que é normal em todo o mundo, em que como tenho projetos a decorrer e responsabilidades no IMM, estou nos dois lados, mas a boa notícia de que o curso de Medicina da Católica foi aprovado veio trazer ainda mais ânimo e empenho. A ideia é ter a Faculdade de Medicina associada a um hospital que passa a ser universitário, que é o Hospital da Luz, que será o primeiro hospital universitário privado em Portugal, e a um instituto de investigação. Eu tive a honra de ser convidado para ser diretor desse centro de investigação biomédica na Católica, o que me dá uma grande alegria. Olho para isso quase como um desporto radical.

Que trabalho espera desenvolver nesse novo centro de investigação?
Ainda não está aprovado, mas gostava muito que a temática do instituto fosse a inteligência, combinando inteligência artificial e inteligência humana. Penso que a Universidade Católica pode ter um papel muito importante neste grande desafio que é a inteligência artificial para a humanidade.

Muitos veem a inteligência artificial como uma ameaça.
Eu sou otimista e vejo a inteligência artificial como uma inevitabilidade da evolução do ser humano. Acho que o homem não vai extinguir-se. Estou a ler um livro do Toby Ord, The Precipice: Existential Risk and the Future of Humanity, em que ele identifica três ameaças à espécie humana: uma guerra nuclear, as alterações climáticas e a inteligência artificial. Vou dar-lhe um exemplo que tem que ver com a pandemia, da forma como vejo isto, que espero que não seja mal interpretado pelos leitores. Imagine que tínhamos um algoritmo e éramos dominados pela inteligência artificial. Esta olhava para o que se passa no mundo, identificava a ameaça, um novo coronavírus, sabia mais ou menos como se comporta, é um vírus respiratório, a maioria dos seus portadores é assintomática, o problema são os grupos de risco - pessoas que têm doenças debilitantes e têm geralmente mais de 80 anos. O algoritmo, que não tem valores morais e está programado para otimizar soluções, o que faria? Deixaria o vírus seguir o seu curso naturalmente para criar imunidade populacional, porque isso seria o melhor para a sobrevivência da espécie, para a qual as pessoas mais velhas não fazem falta. Obviamente que isto não é aceitável.

"A minha esperança é que nunca se chegue à perfeição, que nunca se chegue à teoria de tudo, que explique tudo, ainda bem que a ciência gera mais perguntas do que respostas, porque se tivéssemos resposta para tudo, a vida deixaria de fazer sentido."

Está a dar razão aos que temem a inteligência artificial.
Não, a inteligência artificial tem imensas virtualidades e pode ser uma aliada em variadíssimas áreas, como a medicina, a ciência, o direito, etc., mas estou ciente dos riscos que representa e daí a importância de um Centro de Investigação dedicado à inteligência humana e artificial. A humanidade já identificou os problemas relacionados com a inteligência artificial a curto e a longo prazos e o simples facto de estarmos a falar neles significa que quando chegarmos lá estaremos preparados para eles.

Um dos riscos é o de tirar trabalho aos humanos.
Temos de criar outro tipo de trabalho. A minha esperança é que nunca se chegue à perfeição, que nunca se chegue à teoria de tudo, que explique tudo, ainda bem que a ciência gera mais perguntas do que respostas, porque se tivéssemos resposta para tudo, a vida deixaria de fazer sentido. O maior segredo da vida é nunca sabermos quando é que vamos morrer, o que de certo modo faz de nós imortais. Vivemos como se fôssemos imortais, não sabemos o que vai acontecer no futuro e é isso que torna a vida interessante, essa incerteza e a coragem de arriscar. Tentamos prever, mas ainda bem que não conseguimos prever tudo. Na pandemia, é preciso prever comportamentos, cenários, evoluções, mas há sempre um risco e é esse risco que, no que me cabe a mim como cientista, temos de aceitar. A imortalidade vem da consciência de que vamos morrer e isso é a coisa mais fascinante que a vida tem.

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