O que nos deixa Albert Uderzo, o pai de "Astérix"

O cartunista, cujo nome aparece nas centenas de milhões de livros das aventuras dos gauleses irredutíveis vendidos desde 1961, morreu esta terça-feira, aos 92 anos, de um ataque cardíaco.

"Um monumento", é assim que lhe chama o jornal francês Le Monde. "Um monstro sagrado dos desenhos animados." Ou "um gigante de talento monstruoso", diz Le Figaro. Albert Uderzo era, com René Goscinny, um dos criadores das famosas personagens Astérix e Obélix, os dois gauleses que viviam numa irredutível aldeia resistindo a todos os ataques das tropas do Império Romano. De 1959 a 1977, com Goscinny, Albert Uderzo criou vinte e quatro álbuns de Astérix, a história de Banda Desenhada mais traduzida do mundo. Após a morte de Goscinny, assumiu sozinho as aventuras do guerreiro gaulês.

A informação sobre a sua morte foi confirmada à Agência France Press por familiares. "Morreu enquanto dormia na sua casa em Neuilly, de ataque cardíaco não relacionado com o coronavírus", confirmou o genro, Bernard de Choisy, adiantando que Uderzo se sentia "cansado" há já algumas semanas. Tinha 92 anos.

Começou a desenhar aos 14 anos

Albert Uderzo nasceu a 25 de abril de 1927, em Fismes, França, uma pequena cidade na região de Marne, onde o seu pai, um carpinteiro de profissão, se estabeleceu após deixar a Itália. Era filho de imigrantes, tal como René Goscinny, nascido em 1926 em Paris, filho de pai polaco e mãe ucraniana. Segundo explica o Le Monde, Albert Uderzo deve o seu apelido a uma pequena cidade em Veneto, Oderzo.

Os seus pais moravam em La Spezia, Ligúria, mas o pai decidiu emigrar para a França em 1923. Mais tarde, Alberto retirará o "o" do seu primeiro nome, "para torná-lo mais francês", reconheceu, tendo "sofrido muito, durante a infância, com a má imagem que os italianos tinham na região". Cresceu em Clichy-sous-Bois, um subúrbio parisiense, onde os Uderzo finalmente se estabeleceram. Em 1934, os pais obtiveram nacionalidade francesa.

Na infância, Alberto sonhava ser mecânico de aviões e lia as histórias de Rato Mickey, de Walt Disney, publicadas no jornal Le Petit Parisien. Também descobriu Popeye, marinheiro musculado criado por EC Segar. Vendo que ele gosta de desenhar, o seu irmão mais velho, Bruno, decidiu levar o seu trabalho à editora dos irmãos Offenstadt. Não tinha ainda 14 anos quando, em 1940, foi contratado como aprendiz, responsável entre outras coisas pela edição de letras e fotos. Também começou a publicar algumas ilustrações - a primeira, nas páginas da revista Junior, era uma paródia da fábula O Corvo e a Raposa. Mas o seu sonho era fazer desenhos animados. Walt Disney era o seu ídolo e Branca de Neve e os Sete Anões (1937) a sua referência absoluta.

Em vez disso, dedicou-se à banda desenhada, que estava em grande expansão naqueles tempos em Paris. Trabalhou com algumas publicações e criou as suas primeiras personagens, como Clopinard, um velho rabugento do exército napoleónico que perdeu um olho e um pé durante uma batalha, e Arys Buck, um jovem gigante com força hercúlea acompanhado por um anão chamado Castagnasse, usando nariz grande, bigodes e capacete alado - foi aqui o início de Astérix e Obélix.

Após o serviço militar, retomou a sua carreira como artista, em 1950, nas páginas do France Dimanche, onde Albert Uderzo foi promovido ao papel de "repórter-desenhador", cuja função consistia em ultrapassar a impossibilidade de enviar um fotógrafo para um determinado local, desenhando.

Uderzo e Goscinny: juntos desde 1951

Uderzo conheceu René Goscinny em 1951 e logo se tornaram grandes amigos. Logo em 1952 decidiram trabalhar juntos na delegação de Paris da empresa belga World Press. Os seus primeiros trabalhos foram Oumpah-pah, Jehan Pistolet e Luc Junior. Em 1958, as aventuras de Oumpah-pah foram adaptadas e publicadas na revista Le Journal de Tintin, até 1962.

A 29 de outubro de 1959 foi criada a revista para crianças Pilote. Goscinny era editor e Uderzo diretor artístico. A primeira edição da revista mostrava pela primeira vez Tanguy e Laverdure, uma dupla de aviadores, e Astérix, um pequeno mas destemido guerreiro gaulês de bigode farfalhudo que tinha como grande (em todos os sentidos) amigo Obélix, personagem desajeitada e com uma força desmesurada, que carregava menires e adorava comer javalis, o tal que quando era pequeno caiu dentro do pote da poção mágica e por isso era o mais forte de todos os gauleses. Ambos eram habitantes de uma invencível aldeia que teimosamente resistia às investidas militares dos romanos por conta de uma famosa poção mágica inventada pelo druida Panoramix.

A série transformou-se num êxito de vendas, de tal forma que Uderzo teve de abandonar todas as outras séries para se dedicar apenas a estas personagens. O primeiro livro, Astérix, o gaulês, só saiu em 1961. A primeira edição saiu com 6 mil cópias. O segundo episódio, A Foice de Ouro (1962), teve uma impressão de 20 mil cópias, e o terceiro, Astérix e os Godos (1963), de 40 mil. Teve assim início a uma das mais bem sucedidas séries de banda desenhada, com mais de 350 milhões de livros vendidos em todo o mundo e traduzidos para mais de uma centena de idiomas, incluindo o português e o mirandês.

Após a morte de Goscinny, em 1977, Uderzo assumiu também a responsabilidade de escrever as histórias de Astérix e fundou a editora Albert-René, na qual publicou novas aventuras, embora não tão elogiadas quanto as anteriores. Mas o nome de ambos foi sempre mantido na assinatura das histórias. Albert Uderzo retirou-se da série em 2011 alegando cansaço.

Em 2013 foi publicado o primeiro livro de Astérix e Obélix sem a intervenção de nenhum dos seus autores originais. Intitulava-se Astérix entre os Pictos e era o 35º álbum da coleção.

Inicialmente, Uderzo afirmou que, à semelhança do que Hergé fez com Tintim, não iria permitir que mais ninguém desenhasse as suas personagens. Mas mudou de opinião. Em 2009 vendeu os direitos de Astérix à editora - cujo capital é detido na sua maioria (60%) pelo grupo editorial francês Hachette Livre - que, se quiser, pode continuar a publicar novas aventuras da popular série.

Astérix e Obélix: um sucesso "irredutível"

Albert Uderzo não escondia nada: preferia Obélix a Astérix. Primeiro, porque ele criou o entregador de menires, sem René Goscinny, ainda antes de Pilote, e, depois, porque se identificava de alguma forma com aquele gigante bondoso e desajeitado.

Já sobre a criação de Astérix, contou: "Os meus primeiros esboços revelam uma personagem alta o suficiente para se aproximar da imagem que temos dos gauleses. René então teve a ideia de ser uma personagem pequena, mais pequena do que as outras, e não necessariamente inteligente, não bonito, mas esperto". Não era como os outros heróis "bem feitos para que as crianças se identifiquem com eles" mas nem por isso deixou de ser um sucesso.

Entre as personagens que povoam o imaginário criado por Uderzo e Goscinny contam-se ainda o druida Panoramix, Abraracourcix, o chefe da aldeia, e o bardo Assurancetourix. E, claro, o cão Ideiafix.

A personagem ficou tão popular que o primeiro satélite francês, posto em órbita em 1965, se chamou Astérix-1. Uma das razões da popularidade prende-se com o humor que atravessa todas as histórias. Há sempre referências a factos reais (por exemplo, os ingleses guiam as suas carruagens no lado esquerdo da estrada) ou pessoas da atualidade (há caricaturas de Jacques Chirac, Arnold Schwarzenegger, dos Beatles, do Super-Homem ou de James Bond, entre tantas outras). Os autores recorrem também ao imaginário do cinema e da arte, com referências a obras e locais sobejamente conhecidos (como a Estátua da Liberdade). Isto além do uso bastante imaginativo das expressões latinas, com inúmeros trocadilhos. Os romanos, já se sabe, são ridicularizados em cada episódio.

Astérix saltou para o cinema logo em 1967 e desde então têm-se sucedido filmes, quer de animação quer com atores. O último álbum de Astérix e Obélix foi publicado em outubro do ano passado pelas edições Albert René com o título A Filha de Vercingétorix.

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