Os quatro grandes desafios da nação

Dificilmente encontraremos na história uma oportunidade tão boa para olharmos para o passado, para o presente, mas, sobretudo, para o futuro. Foi uma pandemia, podia ter sido outra coisa qualquer, mas se há, no momento que vivemos, alguma lição cósmica é a de que não podemos continuar a ser o que somos. E, para isso, precisamos de vencer, pelo menos, cinco grandes desafios.

Pandemia. Será, provavelmente o mais consensual dos temas. Para podermos continuar com as nossas vidas, precisamos de vencer este vírus que nos virou do avesso, encontrar uma vacina e proteger o mais importante, que são as vidas humanas. Mas, se for apenas este o nosso objetivo, não aprendemos nada com o que nos aconteceu.

O orgulho dos que gritam que o Serviço Nacional de Saúde soube responder à pandemia da covid-19 é fraco consolo para quem espreita por detrás do cortinado e vê as condições em que se trabalha nos hospitais portugueses. Das instalações terceiro-mundistas incapazes de oferecer o mínimo de conforto a pacientes e profissionais de saúde. Ou dos ordenados miseráveis e da falta de perspetivas de carreira que se oferecem a quem nos salva a vida. Nada nos devia deixar mais envergonhados. O Serviço Nacional de Saúde respondeu bem à pandemia apesar do Estado. Porque, felizmente, temos excelentes profissionais de saúde, comprometidos com o que os fez escolher este caminho de vida. E porque este é um dos países do mundo que melhor respondem em caso de emergência. Porque somos assim, porque sim.

Crise social. O mais provável é que não seja possível evitá-la, ainda que essa deva ser a fasquia de quem foi eleito. Naturalmente que nenhum governo tem culpa da covid-19 e nenhum governante tem, nos seus poderes, a capacidade para impedir que esta pandemia se propague, mate e atire tanta gente para o desemprego e para a miséria. Mas há, como já aqui escrevi, uma lição fundamental a retirar dos dias que correm: os vírus atacam com mais eficácia os mais frágeis e os mais desprotegidos. Gente que foi abandonada pelo Estado e deixada à sua própria sorte. Gente que, antes de ouvir sequer falar no novo coronavírus, já vivia uma pandemia de abandono.

Uma economia real. Se a crise de 2008 e a pandemia de 2020 não conseguirem abrir os olhos aos que governam o mundo, estamos perdidos. Uma economia assente em dívida que um dia alguém pagará, que não produz riqueza nem tem qualquer visão estratégica, pode - como já se demonstrou à evidência - condenar à mediocridade várias gerações. Que se aposte na digitalização, nas energias limpas e se faça de uma vez por todas uma aposta na economia do mar. Faz todo o sentido. Mas é preciso tirar essas ideias do papel e colocá-las no terreno, de forma estruturada e transversal, e deixarmo-nos de conversa fiada, na qual já ninguém acredita.

Que se construa uma economia real, que produza riqueza e nos retire desta miséria de ordenados. Capaz de dar sustentabilidade a um Estado que maltrata os que descontaram uma vida inteira. É pedir muito?

Democracia. Do sucesso ou insucesso dos desafios anteriores dependerá este último. Chamem-me velho do Restelo, chamem-me o que quiserem, mas é a sobrevivência das democracias que está em jogo. As "tainhas" da política já cá andavam antes da pandemia, mas nunca como agora - e daqui para a frente - tiveram tanto "alimento". Se a nossa única preocupação for matar de vez este vírus e regressar ao velho normal, estamos perdidos. A estabilidade política não é um fim em si mesmo. Se ela não resultar em mudanças concretas e certeiras, teremos apenas um regime democrático de pés de barro, que acabará diluído pelos oportunistas disfarçados de populistas.

Jornalista

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