"O star system brasileiro, por mais dinheiro que se ganhe, não compensa"

Há 46 anos recebeu palmas na festa da escola, tinha então 6. As palmas e o riso tornaram-se viciantes para Joaquim Monchique, mesmo que as primeiras fossem gravadas da televisão para as ouvir no fim do espetáculo, pois atuava para um público imaginário. Adora viajar de avião, tanto que gostaria de dar o nome a um, com a frase: "Fiz o que quis". A liberdade é o seu maior valor.

Começou a carreira no Teatro Aberto, ignorando a inscrição na universidade para estudar Direito. Poderia ter sido advogado, uma profissão que considerava ter algo de teatral. Poderia ter sido arquiteto, mas aqui a culpa é da matemática. Faz as suas "arquiteturas" em casas de conhecidos e nas peças que encena. É a sua principal ferramenta, também no mundo do espetáculo, onde já fez tudo, até circo. Se morresse hoje "tinha o cartão todo preenchido". E com a certeza de ter preservado a liberdade, o seu maior valor desde pequeno, razão pela qual não assina contratos. Faz o que gosta. A pandemia obrigou-o a parar pela primeira vez nos 30 anos de careira. Voltou com a comédia Mais Respeito Que Sou Tua Mãe, vai repor Lar Doce Lar e está a encenar a peça Perfeitos Desconhecidos. Mantém os "bonecos" na televisão, o último o do fadista Ricardo Ribeiro. Responde quase sempre às perguntas com diálogos. Ou não fosse ele um ator.

Ouviu as primeiras palmas aos 6 anos quando recitou um poema na escola. Foram os aplausos que o motivaram a representar?
Temos pouca memória dessas idades, há uma ou outra coisa. Tenho a memória do primeiro dia de aulas, chorei que me desunhei. Sou filho único, era muito apaparicado e, de repente, deixaram-me. A minha mãe foi a última a sair da sala do colégio. E tenho a memória das palmas, desse palcozinho, onde ouvi pela primeira vez as palmas, foi o princípio de tudo. Tinha um tio que adorava, o meu tio Manuel, por isso é que me chamo Joaquim Manuel, era o meu padrinho, que tinha uma paixão por carros, aviões, oferecia-me pistas e essas coisas todas. De repente, aos 6 anos, começo a fazer teatros.

Brincava muito sozinho?
Completamente.

Fazia teatro para quem, para a família?
Não fazia para ninguém, era um público imaginário, mas fui fazendo upgrades. Obrigo a minha mãe a pôr uns cortinados que abrissem sozinhos, como nos teatros, a pôr projetores, rudimentares, tive a sorte de ser filho único e darem-me tudo o que queria. Tive umas aparelhagens e uns gravadores, gravava as palmas da televisão e punha as palmas quando representava.

Que tipo de coisas fazia?
Tudo o que via na televisão, só havia um canal e tinha noites de teatro, vários programas, e eu imitava. Depois, obrigava os miúdos da rua a irem ver-me, às vezes duas sessões no mesmo dia. A nossa casa de férias, no Algarve, tinha uma nora que foi desativado e havia a casa da nora. O meu avô herdou essa casa e eu fiz aí o meu primeiro teatro.

Pagavam bilhete?
Pagavam, com pedrinhas. Foram sempre as minhas brincadeiras, sempre tive noção da minha vocação e disse aos meus professores: "Vou ser um ator muito famoso."

Reconheciam-lhe esse talento?
Alguns sim, outros não. Os que não reconheciam, mais tarde, ficaram à minha espera depois dos espetáculos para pedirem um autógrafo, tirarem fotografias. Disse-lhes: "Não vai tirar fotografias nenhumas, quando disse que ia ser ator não acreditou, fez uma coisa que não se deve fazer aos miúdos, não se destrói o sonho das crianças." O que vale é que desde pequeno sempre tive uma personalidade muito forte e sempre soube o que quis. Se fosse um miúdo influenciável, tinha sido influenciado por umas professoras que me tinham destruído o sonho.

Mesmo que seja uma fantasia?
Todos nós vivemos uma fantasia, não se deve destruir o sonho dos miúdos. Como diz o Saint-Exupéry: "Somos da infância como somos de um país." Se tivermos uma infância estragada, somos uns adultos estragados, infelizes. Digo aos meus amigos que têm crianças: "Deixem-nas brincar, ser curiosas." Eu tenho esta vocação de fazer rir os outros e de os fazer felizes, que é o que me dizem: "Obrigado pelas duas horas em que me faz feliz."

No entanto, esteve para seguir uma vida completamente diferente.
Inscrevi-me em Direito na Universidade Católica, achava que era teatral, via os advogados nos filmes americanos. E também porque a minha família queria ter um neto com um Dr. antes do nome. Nessa altura, fiz um teste para o Teatro Aberto e fiquei.

Quatro anos como ator residente, começou no teatro dito sério.
Teatro sério, teatro de repertório, fiz tudo, fiz Shakespeare, Odon Von Horvath, Tchaikovsky, Tennessee Williams. Estreei-me com Romeu e Julieta, quando dizem "este teatro é mais comercial". Por amor de Deus, já fiz tudo, o difícil é chegar às pessoas.

Sabe sempre do que as pessoas vão gostar?
Sei o que as pessoas querem, há colegas que fazem as coisas para eles. E sou eclético, acho que deve haver de tudo. Em Portugal, a cultura devia ser mais apoiada, sobretudo agora com a pandemia. Na Alemanha, os primeiros a serem ajudados foi a cultura. Com estas restrições, não há bilhetes que paguem um espetáculo. E a cultura é o que faz a identidade de um país.

A situação está pior no nosso país?
Não está pior. Conheço o mundo, tenho muitos colegas no estrangeiro e que referem os mesmos problemas. A dimensão é que é diferente, somos mais pequenos.

Quando fez a primeira comédia, sentiu que era por aí que queria ir?
Sim, acho muito triste alguém sair de casa e meter-se num teatro para chorar.

Se for uma boa peça, boa representação ...
Se for uma boa peça, é verdade, mas como já fiz, não me bate. O som do riso é viciante e os meus colegas dizem que tenho uns times de comédia únicos. O time de comédia é como ter olhos azuis, não se aprende. Dei aulas e no primeiro dia dizia sempre: "Não vou ensinar absolutamente nada, porque isto não se ensina, nasce-se ou não para representar."

Está a querer dizer que não faz sentido existirem escolas de teatro?
Não. Faz muito sentido. As pessoas estão cada vez estão menos preparadas, quanto mais tecnologia menos preparadas estão. Os cursos de teatro ensinam a colocar a voz, ensinam a história do teatro - que é a história da humanidade, o teatro sempre foi o espelho da sociedade -, mas não te ensina a representar. É como tocar piano, todos podem aprender a tocar, mas tocar verdadeiramente só quem nasce para pianista.

É extenso o rol de peças, espetáculos, televisão, o que lhe falta fazer?
Nada. Costumo dizer: "Se morrer amanhã, levo o cartão todo preenchido." Levo os bravos, as palmas, os prémios, tenho estas salas esgotadas há anos. Esta peça [Mais Respeito Que Sou Tua Mãe] já teve 150 mil espectadores, tive tudo o que um ator pode ter. A única coisa que me fascina é, quando aparece uma peça, dizer: "Que giro, gostava de fazer." E quando deixo de fazer as minhas peças, as salas continuam cheias.

Aconteceu com a que fez anteriormente, Lar Doce Lar.
E que vou voltar a fazer. Eu e a Maria Rueff estreámos a peça há nove anos, acabámos porque não aguentávamos, era muito cansativa, e estávamos a fazer televisão. Acabámos a peça com a premissa de a voltar a fazer. Passaram oito anos e há uma geração que não viu, o público renova-se. Vamos voltar a fazer porque é uma peça com muito êxito, voltará no teatro com o nome de uma das minhas atrizes favoritas, a Maria Matos.

A peça Mais Respeito Que Sou Tua Mãe estará no Teatro Villaret até setembro, vão voltar a andar pelo país?
Ainda vai ao Porto e a outras salas. Depois, vou encenar uma peça, mundialmente famosa, vem no Guinness como a peça de teatro que teve mais versões em cinema: Perfeitos Desconhecidos.

É uma vantagem escolher as peças e fazer a própria encenação?
É uma grande vantagem. A história mais extraordinária foi a compra desta peça [Mais Respeito...]. Estava na Globo a fazer uma novela, vivi ano e meio no Rio de Janeiro, e sempre que podia ia a Buenos Aires, é uma cidade que adoro, já fui lá 14 vezes, as pessoas gostam muito de teatro. Vi uma fila gigantesca, fui-me aproximando e vejo um cartaz: Más Respeto Que Soy Tu Madre!, e disse: "Quero fazer isto." Sem ver a peça, só pelo cartaz e pelo ator, que é uma das maiores estrelas da Argentina. Os teatros são como os restaurantes, se um restaurante está cheio é porque é bom, com os teatros é exatamente a mesma coisa. Fui ver a peça e adorei, à noite vi outra vez e já estava a fazer a minha versão, a pô-la na Baixa da Banheira, os nomes, a ver como lhe ia dar a volta.

Falou no Brasil, porque é que não quis voltar a trabalhar lá, em telenovelas?
Não conseguia aguentar o star system brasileiro. E estive um ano e meio fora de Portugal, estava desejando vir embora. Tenho lá muitos amigos, vou lá todos os anos, mas não fui feito para aquele star system. Ser famoso no Brasil é demais, não aguentava. Em Portugal, ainda andamos bem na rua, claro que se formos ao Porto já sei que vêm agarrar-me e beijar-me. Mas no Brasil é demais, vou todos anos para a casa do Miguel Falabella, a quem chamo de irmão, passar pelo menos um mês, e ele programa as saídas à rua, é arrastado pelas pessoas, isso nunca me seduziu. A minha novela [Negócio da China, há 11 anos] estreou-se a uma quarta-feira, na terça ainda fui à praia, na quinta, já não consegui. Por mais dinheiro que se ganhe, não compensa, pelo menos para mim.

Menos assédio aos artistas será a boa parte de viver em Portugal, mas também já disse que, por vezes, apetece-lhe desistir de tudo.
O que ainda não me fez desistir foi o meu público. E houve quem ficasse revoltado por dizer isso, mas quando digo da minha área, digo da sua, digo de qualquer outra. Há muitos entraves para tudo, estamos constantemente a fazer que as coisas resultem. Com a pandemia, tenho uma sala com 50% de lugares e não há apoios. A única coisa que tenho é o público que paga para me ver, ainda não desisti por causa deles. Não me posso queixar, tenho dois milhões de espectadores no teatro nos últimos dez anos. Esta peça tem mais espectadores do que qualquer filme português, que custa sete vezes mais. Antes de fechar por causa da pandemia tinha o mês de março quase todo esgotado.

Voltaram em força na reabertura?
As pessoas continuam a vir e há muita gente em que se nota que vem com uma grande vontade de rir, foram uns meses muito duros, querem qualquer coisa que as faça não pensar na doença. Uma senhora ao almoço, que deve ter uns 80 anos, disse-me: "Tenho de o ir ver ao teatro, estou farta de ver aquele boneco dos picos, o vírus."

É uma nova versão adaptada à pandemia?
Não. No primeiro dia fiz uma nova versão, tudo o que eram cenas de hospital pus máscara. Um dia estava nos bastidores e pensei. As pessoas quando saem de casa querem ver Disney, querem ver sonho, se os atores usarem máscara, vão lembrar que a tem, começam a mexer naquilo e vão para a pandemia. Assim, nestas duas horas, esquecem, quando vemos um filme ou uma série não nos lembramos da pandemia.

Contracenam da mesma forma que antes?
Sim, fizemos todos o teste e a proximidade é dos atores. Não vamos mudar as coisas.

Como é que passou os últimos meses?
Estou há cinco meses sem fazer nada e sem faturar, por isso é que digo, há lay-off e outras coisas para as outras profissões e nós não temos absolutamente nada. Fui o primeiro a abrir porque temos de trabalhar, tenho aqui 14 pessoas que vão atrás da minha locomotiva, 14 diretamente, e ainda há a produção, a promoção, essas coisa todas, é uma máquina grande. Vamos ter de viver com isto, trabalhar, dois ou três anos, até haver uma vacina. O mundo não pode voltar a parar, vamos estar neste tira-põe máscara, que eu detesto, mas tem de ser. Encurtei até o espetáculo por causa do uso da máscara, quando as pessoas riem muito, oxigenam mais.

Foi a primeira vez que parou totalmente?
Nunca tinha estado parado em 30 anos de carreira, tive essa sorte. Primeiro, porque escolho o que quero fazer, faço só o que gosto. Nunca tive um contrato com uma televisão, eu é que tenho de dizer se quero fazer isto ou aquilo. Nesta profissão, não pode acontecer alguém dizer que vai apresentar a feira do queijo ou da batata. A pessoa tem de ter gosto no que está a fazer, isso influencia o trabalho. A única pessoa com quem tive um contrato foi com o Herman, durante 15 anos, no Herman SIC. E era só para aquele dia, nos outros podia fazer o que me apetecesse.

Qual foi o boneco que mais gostou de fazer em televisão?
Há vários bonecos que caminham sozinhos, nem preciso de ler o texto, chego e já digo com a intenção deles. Fiz há pouco um de que gostei muito, nunca tinha feito, o Ricardo Ribeiro, o fadista, e acho que me saiu bem.

Numa imitação do programa da RTP Em Casa d'Amália?
Nós fizemos A Casa d'Alfredo no programa do Herman [ por Casa], está a Carminho, o Ricardo Ribeiro, a Mariza, muito engraçado. Há muitos de que gostei, há 20 anos que faço a Amália, mas não tenho um boneco preferido. Há uns que saem facilmente e outros que não, tantas vezes que o Herman diz "faz este" e eu digo "é capaz de não me sair bem". Há outros que peço para fazer.

Por onde começa, um traço, uma frase?
Não sei explicar, não consigo perceber o processo.

Ajuda ter uma boa memória fotográfica?
Desde pequenino. Ainda ontem um colega me disse: "Estás a ver absolutamente tudo, pareces uma parabólica da NASA." Quando você sair daqui, sei exatamente o que tinha vestido. Há pouco tempo, a minha mãe deu-me os meus testes psicotécnicos e está lá "memória fotográfica excelente". Tenho memória fotográfica e espacial. Entro num teatro e sei quantos metros quadrados tem, quantas cadeiras, etc.

Essa é outra faceta, a de arquiteto.
A primeira casa que fiz tinha 12 anos, uma casa de férias. Comecei a mandar na obra, puto, e o mestre de obras comentou com a minha avó. E ela disse uma coisa extraordinária: "Faça o que ele disser." A casa está lá. Mas não sou o único, por exemplo, um que trabalhou muito nesta casa [Teatro Villaret], o Armando Cortez, tinha a mania das arquiteturas. O Nico, que era meu vizinho, tinha a mania das arquiteturas. Não sei se é brincar às casinhas, no fundo, o que faço no teatro é arquitetura, eu e o Rui [Filipe Lopes], que é o coautor do cenário, fizemos quase todos os cenários da peça, é também arquitetura.

Fez rádio.
Já fiz as coisas todas.

Também fez circo?
Então não fiz? No Natal, no Herman Circo Especial SIC, não há nada que não tenha feito. Tudo o que os meus colegas dizem "gostava de fazer", já fiz: musicais, dramas, revista, alta comédia, teatro sério, de reportório, encenação..

Quando morrer, o que é que gostava que dissessem de si?
Gostava de ter um avião com o meu nome, era a única coisa. Não quero ruas, nada. Não há ninguém que seja mais feliz do que eu ao sentar-me num avião e pôr o cinto de segurança. Não há nada de que mais goste na vida do que andar de avião, o avião é o ir, a descoberta, a curiosidade. Talvez o talento maior que tenho é ser curioso, até à última casa. A curiosidade é o que faz mover tudo.

Teria uma frase?
"Fiz o que quis". Poderia ser o nome da minha biografia, que não vou fazer, mas desde pequeno que faço o que quero.

Viaja acompanhado ou sozinho?
Às vezes viajo sozinho, sou filho único, acompanho-me a mim próprio. Adoro ir sozinho para qualquer lado, tenho os meus timings. Não se esqueça de que em Portugal tenho sempre pessoas a falar comigo, de manhã à noite, às vezes, gosto de ser eu o voyeur, não ser o visado. Chego a Paris, a Londres, a Nova Iorque, das primeiras coisas que faço é estar sentado numa esplanada a ver o mundo passar, aqui não posso. Posso, mas estou sempre a ser observado, tenho um big brother desde que nasci.

Há quem lhe diga coisas desagradáveis?
Nunca, é uma das coisas de que me orgulho. Claro que há pessoas que não gostam de mim e se não gostam também não o vão dizer. Embora na internet se diga tudo, mas são pessoas mal resolvidas. Recebo sempre um carinho avassalador das pessoas na rua.

Alguma aproximação o sensibilizou mais?
Muitas. No Porto, adoro o meu público do Porto, no Teatro Sá da Bandeira, quando saio há sempre 30/40 pessoas para tirar fotografias. Um dia, ao fundo da fila, estava uma carrinha transformada, abria-se a porta e descia um elevador com uma cadeira de rodas sofisticadíssima e uma senhora, tinha 90 anos, que me faz adeus e diz: "Já posso morrer porque já o vi. Gosto muito de si." Às vezes, quando vou a entrar em cena, farto, está o pano fechado e penso: "Aquela pessoa saiu de casa e pagou para me ver, vou ter de fazer isto bem." Lembro-me de outra senhora que fazia tratamentos oncológicos, morava em Santa Margarida, e quando estava mais infeliz, diziam-lhe: "Queres ir ver o Monchique?"E estava duas horas feliz. Pagaram para nos ver, os que estão na televisão, muitos não são atores, são artistas de televisão, não pagaram para os ver.

Não há nada no contacto com o público que o incomode?
As pessoas que falam de nós, ao nosso lado, como se não estivéssemos lá. Às vezes ainda digo: "Não estou a ouvir, pois não?" Normalmente, quando me estão a ver na televisão, não respondo, deve ser essa a lógica.

Há tantos anos que entra na casa deles, provavelmente, é quase como família.
É um familiar mas que não ouve, isso é que me mata. Estão a falar de mim, comigo ao lado, comentam: "É mais alto, agora está mais gordo", como se estivessem sozinhos.

É o que o chateia na vida pública?
Ando nisto há mais de 30 anos, acha que me chateia alguma coisa? Passei por todos os estágios.

E os momentos piores?
A morte de familiares e tive de fazer espetáculo, hoje já não o fazia. A minha avó favorita, que é como se fosse minha mãe, morreu, soube cinco minutos antes de o espetáculo começar e tive de o fazer, as pessoas estavam sentadas à espera. Se tivesse sabido duas ou três horas antes, talvez tivesse cancelado. Não tive coragem de dizer : "Vão-se embora." Não sei como, mas fiz.

Começou com o João Lourenço, o Fernando Gomes ...
Foi com o Fernando Gomes que o La Féria me vai buscar.

Mais tarde o La Féria, o Herman , de que forma contribuíram para o rumo da sua carreira?
Há duas pessoas fundamentais: o Herman na televisão, se sei alguma coisa de televisão foi a ver o Herman; e o La Féria no teatro, são caminhos parecidos mas em registos diferentes. São as minhas principais referências, os meus mestres.

Há a fase La Féria e a fase Herman?
Não, porque continuo a trabalhar com os dois. Foi com o La Féria que fiquei conhecido, com a Grande Noite. Foi o meu lançamento e o do Baião, de um dia para o outro ficámos famosíssimos. Estreou uma quinta e no outro dia já falavam no nosso nome, o que é extraordinário. Fiz a Maldita Cocaína, tanta coisa, o Filipe é das pessoas mais cultas que conheci, sabe de teatro como ninguém. E tanto ele como o Herman rodeiam-se de pessoas que gostam de trabalhar e que lhes respondem aos estímulos, como eu.

Consegue eleger alguma peça que fez?
Não. Nos últimos 11 anos escolho as peças que quero fazer. Fiz o God, um deus que desceu à terra, há muito tempo que pensava em fazer, ainda por cima sou agnóstico. Foi a minha maior tournée, fiz 80 salas em Portugal, algumas até estreei, em terras que pensava: "Como é que tenho salas esgotadas e não vejo ninguém na rua?" Comprei-a em Nova Iorque. O Paranormal foi o êxito do meu amigo Falabella, a que vou fazer, Perfeitos Desconhecidos, comprei-a em Itália, vi-a em Madrid antes da pandemia.

Já tem alguma viagem de avião marcada?
Não, mas assim que isto aliviar mais, meto-me num avião.

Para onde?
Um sítio que tenha água, sou de água, já tomei banho em todos os mares do mundo menos na Antártida [ri], claro. Não conseguia viver numa cidade que não tivesse mar.

Viajar, o mar, o teatro, várias vezes diz a palavra "liberdade" para justificar essas preferências. É o seu maior valor?
É, ainda por cima vi os meus pais, principalmente o meu pai, a lutar pela liberdade. E os meus colegas contavam que trabalhavam três a quatro meses numa peça e, depois, sentava-se um merdas na plateia e dizia: "Isso não." Estragavam-se as coisas só porque estava maldisposto. Por isso é que a revista era tão importante, dava-lhes a volta - porque eles eram burros e não percebiam. Com a liberdade já se pode dizer tudo e é o fim do auge da revista. Iam ouvir nas entrelinhas o que não se podia dizer, o Villaret a cantar: "Oh meu rico Santo António", que era o António Salazar. E não havia televisão, as grandes vedetas estavam no teatro.

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