Crime, dizem eles

Num espetáculo (Oh My God) gravado em Abril de 2013, Louis CK imagina um mundo em que o assassínio deixa de ser um crime: "A lei que pune o assassínio é a principal coisa a prevenir assassínios... Se o assassínio não fosse ilegal, ia haver tanto assassínio! As pessoas normais iam cometer bastantes assassínios. Os assassinos iam cometer ainda mais assassínios. E as pessoas muito queridas e simpáticas iam cometer alguns assassínios. Mas ninguém iria cometer zero assassínios." Tanto enquanto base narrativa como nos pressupostos a partir dos quais é explorada, é essa a premissa de The Purge, uma sequência de quatro filmes escritos por James DeMonaco, o primeiro dos quais estreado em 2013 (alguns meses depois do especial de Louis CK ter sido comercializado) e que podem ser vistos - e revistos - regularmente no canal SyFy.

A acção é situada num "futuro próximo" (2022). Uma facção política chamada Os Novos Pais Fundadores chegou ao poder nos EUA e criou um feriado nacional em que todas as leis são suspensas: não há polícia, não há bombeiros, não há hospitais, e durante 12 horas toda a gente pode cometer os crimes que quiser. O filme original mantém a ideia numa escala minimalista e limita-se a encenar uma invasão de propriedade privada, mas cada sequela vai ampliando os cenários e as respectivas implicações. O feriado torna-se uma experiência religiosa, com cerimónias ad hoc, embrulhando ritual patriótico, fetiches paramilitares e retórica de redenção. Acima de tudo, o universo interno da série aceita-o implicitamente como eficaz: tanto o desemprego (1%!) como a taxa de crime no resto do ano baixam para níveis históricos. Há uma minoria anti-Purga, relegada para as margens paranóicas da paisagem mediática, mas a experiência social é sustentada por um consenso complacente, pelo menos até alguém começar a levar tiros nas trombas.

Nada aqui é original - nem precisava de ser. Como outros entretenimentos populares (mais e menos bem-sucedidos, mais e menos eficazes), The Purge é uma salada de predecessores e "influências": os vários remakes deliberados e acidentais do filme de 1932 The Most Dangerous Game (desde A Décima Vítima aos recentes The Hunt e Bacurau), em que elites "caçam" não elites num cenário controlado; e as várias narrativas tributárias do conto "The Lottery", de Shirley Jackson, sobre sociedades em que rituais de sacrifício humano foram institucionalizados (a fórmula pode ser usada para produzir espectáculos distópicos futuristas, como em Rollerball, Running Man ou The Hunger Games, ou terror arcaico e folclórico, como em The Wicker Man).

O que é interessante nos vários The Purge - e grande parte do "interesse" reside na bagagem e boa vontade que o espectador tem de transportar consigo, caso não queira aborrecer-se - é a discrepância entre as aparentes intenções dos autores e a qualidade dos recursos à sua disposição. Uma crítica comum é a falta de "subtileza" da sua "mensagem política" - uma mensagem política quase comicamente amplificada de filme para filme: a "purga" é na verdade um pretexto para sustentar desigualdades sistémicas. Qualquer resquício de subtexto existente no primeiro é desenterrado à bruta a partir daí. Uma alegoria diz-nos algo que já sabemos, escondendo aquilo de que nos quer persuadir; uma sátira costuma reduzir algo que intuímos ao absurdo para o tornar mais evidente; o que The Purge faz é pegar em vários megafones e dizer-nos o que julga saber, muito alto, e várias vezes. No primeiro filme, há alguma fidelidade à ideia de comentário social - sobre classe, sobre raça - através de códigos (em frases como "estas coisas não costumam acontecer neste bairro"); no segundo, uma personagem já pode gritar a frase "preparem-se para sangrar, suas putas ricas!"; quando chegamos ao quarto, há camiões cheios de pessoas com uniformes do Ku Klux Klan a percorrer as ruas, e um batalhão de polícias brancos a espancar uma vítima negra num campo de basebol.

A qualidade geral dos quatro filmes é medíocre (embora o segundo e o quarto sejam "melhores" do que o primeiro e o terceiro, o que quer que "melhores" signifique neste contexto), mas a falta de subtileza não é o defeito operativo - nem a explicação mais plausível para o abismo entre a relativa popularidade da franchise (quando medida em receitas de bilheteira) e a baixa estima entre uma crítica que costuma premiar generosamente ensaios de série B com instintos progressistas. Os géneros extracanónicos têm histórias longas e complicadas, para o melhor e para o pior. Podem servir para recuperar energias imaginativas e culturais ocultas ou reprimidas; e as suas convenções permitem ocasionalmente que autores façam alusões ou associações que não tinham qualquer intenção consciente de fazer. They Live, de John Carpenter, não tem uma mensagem "melhor", nem mais sofisticada, nem a martela com maior subtileza; se é um filme muitíssimo melhor do que qualquer The Purge, é-o não apenas por uma superior qualidade de execução, mas porque a falta de subtileza não absorveu essas qualidades, nem preencheu todos os espaços em branco. É possível escrever em quantidade sobre objectos pouco subtis (observem, por exemplo, o tamanho desta página), mas as possibilidades são necessariamente afuniladas quando o objecto gasta quase toda a sua energia a fazer esse trabalho prévio.

The Purge não é limitado por um conjunto de convenções genéricas, mas pelas limitações intrínsecas do talento em evidência. Há uma falta gritante de imaginação visual; um repertório reduzido de soluções narrativas (a cena em que uma pessoa má está prestes a matar uma pessoa boa - a arma apontada, a faca junto à garganta - mas a intervenção in extremis de outra pessoa boa salva a situação é repetida pelo menos nove vezes); e uma quase admirável dureza de ouvido (os diálogos são consistentemente péssimos).

Uma cena no terceiro filme mostra o presidente fictício dos novos EUA a usar a retórica dos "direitos individuais" para defender a Purga; mais tarde no mesmo filme, uma rapariga em idade escolar tenta destruir uma loja de conveniência e assassinar o proprietário para se vingar de ter sido apanhada a roubar um chupa-chupa - e usa a mesma retórica, e a mesma frase: "Tenho o direito a fazer isto." A justaposição parece deliberada, mas a falta de talento no resto da série não nos dá confiança suficiente para concluir que não foi acidental. Ainda assim, quão apelativo é, enquanto pretexto para comentário cultural, dar o benefício da dúvida e presumir uma reflexão "interessante" sobre a forma como a retórica dos direitos e liberdades individuais pode ser facilmente instrumentalizada para compensar a redução de autonomia real: distribuída em sinédoques cada vez mais pequenas, até se transformar no mero direito a roubar chupa-chupas, mesmo que isso implique o risco de levar um tiro.

Este estilo de exercício crítico é aplicável com muito mais confiança ao shlock do que ao kitsch, e The Purge parece ser feito por alguém com intenções de fazer shlock, mas sensibilidade e instintos irredutivelmente kitsch. A diferença é crucial: o shlock (o bom filme mau) pode abrir espaço à interpretação; o kitsch (o mau filme "bom") costuma quase sempre fechá-lo. The Purge é um puré de clichés, mas muitas das coisas boas que tentou imitar também o eram. O problema com os clichés que emprega não é tanto serem apropriações dos clássicos de série B, mas sim dos clichés interpretativos sobre esses clássicos: um crime menor com consequências bem piores - mesmo que a punição seja inexistente.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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