Além do chavão

Penso que a palavra mais adequada para definir a sessão legislativa que findou é "reinvenção". Não uma reinvenção programada, na esteira de uma reflexão e discussão prolongadas. Essa, por isso mesmo, tem a possibilidade de ser gradual na sua execução. Esta reinvenção, ao invés, teve a decisão e a ação urgentes para salvaguardar vidas, sempre no respeito pelos pressupostos democráticos. Apesar da sua urgência, não deixou, lá por isso, de ser uma reinvenção constitucionalmente preparada e debatida. A expressão "ninguém fica para trás" conseguiu ser mais do que um slogan, inclusivamente na congregação dos esforços das esferas executiva, parlamentar e civil. Todos os esforços contaram e contam. Ao chavão "a crise é uma oportunidade de mudança" opusemos a reinvenção da ação pela solidariedade concertada e efetiva.

Será prematuro pensar que esta reinvenção é já plena? É, pelo menos, uma mudança que vem na esteira de um processo de adaptação que teve início em 2015. Não é a primeira crise que superamos. Portugal, no melhor dos sentidos, não é o que era. O facto de termos um SNS mais preparado e de dispormos de ferramentas e recursos orçamentais que não tínhamos permitiu-nos (e assim vai continuar) alcançar estratégias de resposta à crise sanitária e às suas terríveis consequências sociais.

Será imperdoável se alienarmos a capacidade de união em torno de um objetivo comum que demonstrámos perante a Europa. A (re)credibilização da nossa imagem externa permitiu-nos ter posição negocial na discussão recente do acordo sobre o fundo de recuperação e o orçamento plurianual da União Europeia. O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, afirmou nesta semana que este acordo permite aos europeus "renovar por 30 anos os votos de casamento". Compreende-se o que ele quer dizer e há que agradecer-lhe o hino a esta fidelidade conjugal, mesmo que venha, ironicamente, sob o formato de uma bazuca... Mas temos de ir além da promessa do compromisso.

O acordo europeu é sobretudo um momento de refundação da União Europeia nos valores humanistas. É o reconhecimento da solidariedade como valor-matriz do seu projeto. É também o reconhecimento da necessidade de dar liberdade a cada membro para uma reconfiguração económica, harmonizando o projeto comum e a sua identidade. Temos no horizonte a possibilidade de preparar essa reconfiguração de forma harmoniosa. Para tal, é preciso um diálogo além do escrutínio voyeurista e do bluff estéril das pop stars da cena política. O euroceticismo como propaganda é tão útil como o comentador político sem atitude didática que, não sabendo nunca como se faz, sabe sempre dizer o que está bem feito ou não. O melhor é ser parte do resultado e da solução. Não do chavão.

Deputada do PS

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