Madonna's Fall

Madonna parece finalmente ter encontrado o seu "Fall" ou, como nós, portugueses, costumamos dizer, o "outono da sua vida". A material girl está finalmente a envelhecer e tem cancelado concertos devido a dor crónica. Isto não teria importância nenhuma (nem terá) se não se desse o facto de ela ser um dos maiores ícones do espetáculo, da música e da cultura pop e de massas. "I made it through the wilderness, somehow I made it through", verso inicial de um dos seus primeiros êxitos, ainda ecoa som dentro da nossa cabeça e é ainda (re)conhecido. Não deixa de ser também digno de atenção que a cantora tenha escolhido (facto que muito nos prestigia) Lisboa, cidade antiga, para viver esta fase da sua vida. Na sua relação com Lisboa, assenta que nem uma luva outro verso seu, o "didn't know how lost I was, until I found you"...

O envelhecimento continua a ter algo de tabu na nossa sociedade. Seja pela indústria associada à cosmética e à estética ou por um padrão de comportamento herdado, a verdade é que tendencialmente escondemos os efeitos que o passar do tempo tem em nós. Tendemos a desconsiderar o facto de que o envelhecimento, enquanto processo gradual e contínuo de alterações naturais, é bem mais do que apenas a imagem. Para além disso, damos primazia, enquanto foco de atenção, ao declínio das funções corporais em detrimento de toda a parte psicológica, mental e até espiritual. Nesta semana foi apresentado em Coimbra o MIA - Multidisciplinary Institute for Ageing. A sua mais-valia será a busca do aumento da esperança média de vida saudável e a aproximação dos valores da mesma entre os Estados membros europeus. Mas não só. Cada vez mais, nas questões ligadas às políticas públicas, reconhece-se a necessidade de validar a multidisciplinaridade como estratégia no que toca aos fenómenos socialmente transversais, como é o caso do envelhecimento. Só por uma lógica integrada se consegue entender o envelhecimento como algo natural. Por uma lógica que contemple a relação entre nutrição, estilos de vida, fármacos e vivência social e que potencie o velho conceito do "mente sã em corpo são".

Os avanços na medicina e a evolução tecnológica trouxeram novas questões. Como responder a estados terminais de sofrimento e de incapacidade? Como abordar a questão da "hipertensão cultural" num país como Portugal, que continua com taxas de mortalidade por acidente vascular cerebral (AVC) superiores às de todos os países da Europa Ocidental? Como conseguir mais igualdade de direitos no processo de envelhecimento? São perguntas que não podem ser de retórica. Madonna será sempre gira e "shiny and new". A nós, os outros, cabe garantir que a velhice seja, mais do que glamorosa, sobretudo feliz.

Deputada do PS

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