A mão esquerda de Wim Mertens fez com que a sua vida mudasse

Enquanto tocava no salão do hotel, antes de se apresentar na Casa da Música e no CCB, confirmou-se que parte importante da sonoridade de Wim Mertens deve-se à teimosia da sua mão esquerda em ditar a melodia. Bastou observá-lo...

A primeira vez que Wim Mertens veio a Portugal foi no ano de 1975: "Meti-me num 2 CV e vim até cá com um amigo." Foi a vez inicial antes de encontrar nos palcos portugueses um entusiasmo pela sua música por parte do público que não existia na Bélgica. E vai agradecer esta receção com décadas nos dois concertos que dará na Casa da Música e no Centro Cultural de Belém, com uma primeira interpretação mundial de alguns temas da caixa com quatro CD que justificam a sua mais recente digressão.

A caixa tem por título Inescapable e contém 61 temas a solo, em dueto, trio, com o ensemble ou orquestra sinfónica, e revisita uma grande parte de uma carreira: 1980 a 2020. Garante que uma compilação com 40 anos não nasce de uma decisão fácil: "Olhar para trás é muito difícil para mim, mas o meu pai sempre me disse que, mesmo fazendo coisas boas, depois de prontas eu perderia o interesse nelas. Ele também era músico e achava que o que se ia fazer em seguida era sempre mais entusiasmante, tanto que após cada gravação a vontade era seguir em frente."

Não no sentido de fazer melhor mas de continuar, explica ao dizer que sempre quis mostrar vários aspetos da sua música e que esta caixa é a forma certa: "O próprio título expressa isso. Quando estou a trabalhar numa música, é ela mesma que me mostra o caminho de composição, da produção ou como trabalhar com os músicos. Portanto, não tenho opção, é inescapável para mim e sou a vítima de toda essa atividade."



O que Wim Mertens quer com esta caixa de CD e a nova digressão é apresentar-se como compositor e músico que se encontra no centro dos tempos e não no passado: "Desejo mostrar o que está a acontecer na sociedade. Esse olhar foi algo que se perdeu nos anos 1960, quando os compositores não eram músicos. Eu sou o contrário e quero recombinar esses vários lados com a minha voz ao piano. Nesses anos, os compositores antecipavam o que pensavam no processo de escrita das suas peças e queriam que isso fosse interpretado por outros. Eu também fazia anotações, mas de uma forma menos autoritária, por isso é que a minha parte cantada nunca é igual, até porque acho que a voz não pode ser restringida. Essa é uma doença do Ocidente e quando se olha para a música em Bruxelas, talvez menos em Portugal e na Itália, confrontamo-nos com uma obsessão por um determinismo da escrita em vez de ser a peça o objetivo final."

Questiona-se o porquê da sua diferença se também é um ocidental: "É verdade, por isso mesmo é que a minha música teve uma aceitação difícil nos primeiros nove anos. Tive mais sucesso em Itália, na Sicília, em Espanha e em Portugal do que na Bélgica, onde me criticavam por usar a voz e não ser um pianista virtuoso. Acho que não me entendiam, só após dois grandes concertos em Bruxelas em 1999 é que comecei a ser mais aceite."

Mertens não lamenta essa resistência dos primeiros anos: "Ela começava no meu próprio país e se não tivesse ido para países como o vosso não teria tido a agradável experiência de encontrar espectadores e de maximizar a audiência. Somos seres humanos e precisamos de estímulo e de aceitação." Não é por acaso que usa a expressão "maximizar a audiência", até deu esse título a um disco seu, de 1985. Porquê? A resposta é: "Tenho uma opinião diferente sobre a audiência do que se pensava na altura em que comecei, quando existia uma dissociação entre o compositor, os intérpretes e a audiência. Quem estava no palco não se importava com a audiência e isso frustrava-me. A explicação é simples: não era o pagamento dos bilhetes que os financiava, pois havia muitos subsídios por parte do Estado e isso libertava-os. Como eu nunca fui financiado por entidades oficiais e dependia dos espectadores e ouvintes, via as coisas de outra forma."



É também o caso de ser diferente da maioria dos pianistas ao dar à mão esquerda o protagonismo de mandar na melodia. Confirmou-se essa forma de tocar enquanto posava para as fotografias no salão do hotel onde deu a entrevista e, quando questionado, respondeu: "Sim, é verdade. Posso estar errado e sei que normalmente não se associa a mão esquerda à melodia, que é por norma na mão direita, mas comigo não é assim. Faço deste modo porque a minha mão esquerda é muito rítmica e isso deve-se a ter sido guitarrista em jovem e ser essa memória que organiza o meu modo de tocar piano."

O pianista não nega que tenha mudado o seu registo várias vezes ao longo da carreira: "Não é difícil porque os dias são sempre diferentes. Se eu não quiser entregar-me ao ato da decisão conceptual e deixar o material mandar em mim, nesse sentido a minha música mantém-se igual nessa grande linha e ao mesmo tempo também sempre diferente - o que é suficiente para mim."

O que significa apreender 40 anos numa caixa de CD. Será que o homem que compôs estes temas mudou tanto como o mundo em que viveu? Wim Mertens considera que "não mudou no sentido de ficar completamente esquizofrénico". Acrescenta: "Diria que tenho mais elementos constantes e que estão sempre comigo. Sei que os últimos 20 anos foram de mudanças na sociedade nunca vistas e que explicaria de uma forma muito breve: os jovens e a minha geração não aceitam mais a autoridade gratuita nas relações com os professores, na escola ou com os pais." Essa atitude transfere-se para o seu papel enquanto músico: "Não se aceita mais que haja um compositor específico para escrever composições porque todos somos compositores e educadores. Em teoria, esse fenómeno de não aceitarmos mais a autoridade só porque ela existe é muito importante, mesmo que nem todos estejam preparados para tal. Quanto à minha música, passados estes anos o que me preocupa é que mantenha a energia e o desafio. Não quero ficar dependente de uma única sonoridade, de um único ensemble ou de certos instrumentos, quero a música apresentada diversas vezes e em várias situações."

Estas apresentações em Portugal vão, no entanto, confirmar o aquilo a que tem vindo a assistir: "Quando dou concertos nas mesmas cidades, sei que estão na plateia os filhos e até os netos de quem me viu há anos. E dizem-me "eu viu-o naquele concerto em Portugal em 1991" e sabem exatamente onde e quando foi. Portanto, a música tem esta qualidade extraordinária de ser uma escapadela e uma surpresa que muitas vezes provoca uma experiência profunda. Perdemos um consenso no estilo que existia em tempos no minimalismo ou na música clássica, mas recuso focar-me num único interesse. Para mim, a música é uma única coisa e evito dividi-la."

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