Extramuralhas: Leiria vestida a rigor para o maior festival gótico da Europa

Termina hoje o festival que pela primeira vez deixa as muralhas do castelo e desce à cidade.

Durante três dias não há que enganar: Leiria é a capital do gótico, vestida de preto e a rigor. Desfilam os modelos mais excêntricos pelas ruas da cidade, encontram-se por ali os amantes de um certo estilo musical, pois que sabem ser o único festival em Portugal onde é possível ver e ouvir "aquela" música, feita por bandas que chegam da Rússia, Noruega, Suécia, Alemanha, Inglaterra, Holanda, França ou Dinamarca. Também se canta em português, sim, através dos Bizarra Locomotiva. E, pela primeira vez, o festival sai das muralhas do castelo e desce à cidade, com concertos gratuitos, na sua maioria.

No princípio, era o verbo: ouvir. Carlos Matos é "um rapaz à beira dos 50" - como gosta de dizer -, figura conhecida de Leiria, que há mais de 20 anos dava música através da Alquimia, uma loja de discos na cidade. Depois veio a fase dos concertos, e a criação da Fade In (Associação de Ação Cultural), porto de abrigo para um grupo de amantes da música "alternativa", aquela que migrara do punk rock, e que acabaria por degenerar no estilo gótico. Foi assim, afinal, que nasceu o festival Entremuralhas, em 2010, quando a associação e a Câmara de Leiria, em conjunto, decidiram "resgatar o castelo de uma penumbra onde estava já há muitos anos", conta Carlos Matos ao DN, no dia em que a organização faz o seu primeiro teste fora das muralhas, onde o público - gótico, na sua maioria - estava "mais protegido". Mas o castelo entrou em obras, era certo que não estaria pronto neste (ou mesmo no outro) ano, e por isso a Fade In arrisca tudo e ousa levar boa parte dos concertos para o Jardim Luís de Camões, no centro da cidade. Outros reserva-os para o Museu de Leiria, para o Teatro José Lúcio da Silva e para o recente Stereogun, o bar-discoteca roqueiro que o próprio Carlos Matos abriu, há uns meses. E esses, sim, são de acesso pago. A maioria está esgotada desde que os bilhetes foram postos à venda, pois que há bandas que são estreia absoluta em Portugal.

É assim desde que a Fade In nasceu, em 2000. E durante quase uma década organizou concertos que ficaram na memória do público, e que atraía "pessoas que se vestiam de preto, porque há uma determinada estética musical em que as pessoas se identificam com o negro", lembra Carlos Matos. "No meu tempo não havia góticos. Havia os chamados vanguardas, alternativos, que era um pessoal que ouvia os Bauhaus e Joy Division, o chamado som da frente. Só que depois, com o evoluir das ramificações musicais, houve necessidade também de uma espécie de desdobramento e etiquetagem de géneros de música, estéticos também. E o gótico foi uma espécie de braço desses vanguardas que existiam nos anos 80, e que aliavam um certo conceito de nostalgia, tristeza até." De resto, o diretor do festival até costuma brincar com este fado: "Eu acho que os portugueses são góticos por natureza... e nem sei porque é que o termo gótico às vezes tem uma conotação depreciativa." Na verdade, música e estética casam num registo "muito trabalhado e rebuscado", tal como a própria arquitetura. De modo que o castelo era o enquadramento perfeito para três dias de negro e de música, para um público que começou a ir a Leiria antes mesmo dos concertos se organizarem em festival, com outra escala. "Mais do que estratégia, foi paixão", sublinha Carlos. "Já que não podíamos ir ao estrangeiro ver os artistas de que mais gostávamos, trazíamo-los cá." E assim se escreveu aquela história do primeiro concerto de uma banda alemã, em Leiria, a custar 20 euros, que causou estranheza na cidade: "Muita gente não percebia como é que um concerto fora de Lisboa ou do Porto custava aquele preço." Acontece que esgotou, com três semanas de antecedência, com a presença de 35 espanhóis que vieram de propósito. Hoje é impossível contabilizar quantos no público são nuestros hermanos. Assim como os que vêm de França, Itália, Bélgica, Inglaterra ou Alemanha. Mas sabe-se que pela primeira vez há mexicanos no festival de Leiria.

Do castelo ao jardim, sem Misericórdia

O castelo de Leiria integra uma arquitetura gótica/medieval. Só por si isso já era um privilégio fazer ali uma programação musical adequada, como reconhece Carlos Matos, mesmo salvaguardando que vão sempre "outros artistas que não são góticos". Quando se anunciaram as obras, a organização do festival só tinha duas hipóteses: ou o evento hibernava, ou saía das muralhas. Ganhou a segunda hipótese, a importância de marcar território. "O grande desafio era este, de trazer as pessoas para outros espaços. O castelo era aquilo que atraía as pessoas da Holanda, da Bélgica, etc. E se tivéssemos um festival substância, as pessoas não vinham." A Fade In aposta então na programação e joga mais alto: levar os espetáculos das (melhores) bandeiras europeias a diversos espaços, incluindo ao jardim da cidade. "Um grande esforço financeiro que vamos fazer", revela Carlos Matos, embora se escuse a desvendar números, ficando-se apenas pela indicação de "um orçamento bastante elevado", com o apoio municipal. A meio, um contratempo: havia concertos pensados especificamente para a antiga Igreja da Misericórdia, mas uma súbita indignação de alguns setores da sociedade - a propósito de um recente espetáculo de dança considerada erótica - fez a câmara recuar na cedência do espaço. Carlos Matos fala de "forças ocultas e muito poderosas" que se movimentam em Leiria, tornando-a (outra vez) uma cidade provinciana. Ora, acontece que é a mesma cidade que está a candidatar-se a Capital Europeia da Cultura, e que se habituou a ver as esplanadas da Praça Rodrigues Lobo vestidas de negro, em cada Entremuralhas, a conviver com a diferença. "Obviamente que não foi o estilo de música que foi censurado. Foi o tipo de público...", acredita Carlos Matos, sublinhando que "as tais forças ocultas continuam a olhar para nós como se fôssemos uns diabinhos, o que é absolutamente inaceitável. Porque estamos a falar de público que vem de muitos sítios da Europa, que trazem filhos, que são advogados, médicos, engenheiros, operários, não interessa. Que são católicos, na sua maioria".

Fado gótico

Não muito longe da rua maldita onde fica a antiga igreja (agora denominada Centro de Diálogo Intercultural), encontramos um grupo que veio de Lisboa, como sempre, desde o primeiro festival. Bruno Cordeiro é técnico superior de controlo de qualidade das águas e programa sempre as férias para esta altura. "Reservamos estada com antecedência e durante três dias é aqui nos encontramos. Já vinha cá antes mesmo de haver o festival, quando havia concertos", diz ao DN. Tal como ele. Também Paulo Vicente, distribuidor de pizas que migrou do metal para o gótico. O grupo vem pela música, mas também pelo ambiente. O mesmo acontece com Ana Silvano, 23 anos, de Condeixa. Desde adolescente que se veste assim, de preto integral. Aos poucos a esplanada do Praça Café começa a encher-se de góticos, mesmo que, por regra, "nenhum gótico admita que o é", sublinha Bruno, 44 anos, enquanto cofia a longa barba grisalha.

O centro nevrálgico do Extramuralhas será o Jardim Luís de Camões, com restauração, comércio alternativo e toda uma série de atividades - exposições, performance e teatro. A organização estima que por estes dias estão envolvidos na logística cerca de 30 voluntários da Fade In, mais outros que se juntam, sem contar com os técnicos. Não se fala num número de participantes esperados, mas serão seguramente aos milhares. A cidade está habituada a vê-los há nove anos, no último fim de semana de agosto, mas nunca tão perto. "Acredito que os habitantes de Leiria e os visitantes vão ficar surpreendidos com a música, e comprovar que afinal não é nem inacessível nem extraordinariamente agressiva, como se faz crer. O fado, por exemplo, é a coisa mais gótica que existe. Sobre a nostalgia, a saudade, o sentimento, a perda", conclui Carlos Matos.

Hoje - ou melhor, quando for madrugada de domingo, já pela 01.30 - o festival encerra em português no palco do Streogun, com os Bizarra Locomotiva, que neste ano celebram 25 anos de carreira. O concerto está esgotado há vários dias.

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