A guerra está longe de ser vencida

O confinamento deixa marcas, nos corpos e nas mentes. Por isso é tão importante manter a cabeça lúcida e a narrativa coerente. Não uma coerência com os preconceitos e os dogmas do umbigo. Precisamos, sim, de uma coerência com o mundo exterior, com os factos e os acontecimentos, que nos permita agir e sobreviver, como indivíduos e sociedade. Quero falar do que correu bem até aqui. E depois do que está a começar a correr mal e deve ser contrariado.
O que correu bem está à vista de todos e tem merecido nota positiva também por observadores internacionais. Na altura em que escrevo, usando um indicador amplo (o número de mortos por milhão de habitantes), nos principais países afetados por covid-19, só a Alemanha está ligeiramente melhor do que nós (61 contra 75). A Suécia já vai em 175, Reino Unido (255), Holanda (229), Bélgica (540), França (319), Itália (408), Espanha (464) e EUA (137).

O motivo para esse sucesso, além da valia humana e da competência técnica dos profissionais de saúde, chama-se lucidez política e decisão atempada. O nosso Serviço Nacional de Saúde não está mais bem equipado, antes pelo contrário, do que os serviços equivalentes dos países acima referidos (com exceção dos EUA, que estão a revelar-se um Estado falhado, sem biopolítica sanitária para os mais pobres). Também não é verdade que o sucesso português, até aqui, resida num conhecimento superior. A prova disso é que os 20 membros do Conselho Nacional de Saúde Pública - entre eles algumas das nossas maiores sumidades na matéria - aconselharam o Governo a não fechar as escolas a 11 de março! O atual sucesso sanitário nacional deve-se ao reconhecimento, por parte dos decisores políticos, da nossa profunda ignorância perante esta nova pandemia. Foi isso que conduziu à rapidez de manobra na declaração do estado de emergência. Portugal não pode esquecer a coragem do Presidente da República ao decidir dar esse passo, mas também deve dar crédito à flexibilidade do primeiro-ministro quando aceitou uma decisão que, em anterior entrevista à SIC, tinha descartado.

A cansativa polémica em torno da comemoração na Assembleia da República do 25 de Abril resume o que está a correr mal. Apesar das entrevistas para minimizar danos, a atitude do presidente da AR surpreende por teimosia, escassa empatia e profundo défice de imaginação, crispando com petições cruzadas uma data que tudo tinha para ser de reforço da coesão nacional. Como um mal nunca vem só, a CGTP e o PCP querem sair mais cedo do estado de emergência para comemorar na rua o 1.º de Maio, desprezando o aumento do risco de expansão viral. Ao contrário destes sinais de irresponsabilidade e de facilitismo, o país deveria estar a mobilizar-se e a capacitar-se para manter uma disciplina ainda mais férrea, agora que, depois do estado de emergência, estaremos como soldados na "terra de ninguém", debaixo de fogo. Só evitaremos um destruidor regresso à quarentena, em final de maio ou em junho, se antes soubermos derrotar aquela falta de humildade, arrogante e atrevida, alojada no pior da condição humana.

Professor universitário

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