Que Giro que está a ser ó Almeidas

O pantera das Caldas (João Almeida) e o cowboy de Pegões Velhos (Rúben Almeida Guerreiro) estão a dar que falar na Volta a Itália. Ambos começaram no futebol, ambos entraram no ciclismo pelo BTT e ambos estão a fazer história. João vestiu a rosa por 15 dias e Rúben ganhou uma etapa e é dono da azul de rei da montanha.

No dia 5 de outubro, Amaro Antunes (W52-FC Porto) chegou triunfante a Lisboa e festejou a vitória na Volta a Portugal. Um triunfo ofuscado de imediato pela maglia rosa de João Almeida. Foi a mais de 2500 quilómetros e com minutos de diferença que o ciclista de A-dos-Francos (Caldas da Rainha) festejou a sua implantação da República, igualando feitos dos nomes maiores do ciclismo português como Acácio da Silva e Joaquim Agostinho. Há 31 anos que Portugal não tinha um ciclista a liderar uma das três grandes voltas da Europa (Tour, Vuelta e Giro). Ele é apenas o segundo português a consegui-lo e aos 22 anos, depois de Acácio da Silva, que, além da rosa, ainda vestiu a amarela na Volta a França.

O português da equipa belga Deceuninck-Quick Step mostrou uma garra e uma fibra competitivas só ao alcance dos melhores. Para surpresa de alguns e dele próprio em alguns momentos vestiu a camisola rosa da terceira à 18.ª etapa. No dia em que perdeu a cor da liderança e caiu para quinto lugar da geral deu mérito aos adversários e ganhou ainda mais o respeito do pelotão. "Sem palavras" para agradecer o apoio prometeu chegar a Milão (domingo) na melhor posição possível. Ele quer o pódio. O que a acontecer será histórico. Só Joaquim Agostinho conseguiu algo assim ao ser terceiro no Tour (1978 e 1979).

A pantera (cor-de-rosa) das Caldas começou no futebol e na natação "por diversão", até descobrir o ciclismo. Só começou a pedalar a sério aos 14 anos, na Ecosprint-BTT das Caldas da Rainha. As paredes do quarto dividiam-se com posters de Cristiano Ronaldo e Rui Costa (ciclista), os dois ídolos do corredor.

Gostava de manobras radicais. Queria fazer downhill, mas com a idade dele não podia e, contrariado, lá foi experimentar o ciclismo de estrada. Mostrou logo uma capacidade invulgar para ler a corrida e atacar no momento certo. O talento cresceu aliado às cicatrizes das quedas. Levantou-se sempre. Passou pelo Cartaxo, Bombarralense e Bairrada até que um dia recebeu o convite da equipa italiana, a Unieuro Trevigiani-Hemus. Tinha 18 anos e o ciclismo passou a ser a prioridade.

Cobiçado pelas melhores equipas, escolheu a líder do ranking mundial, a Deceuninck-Quick Step. Tinha vencido o Giro Sub-23, sido campeão nacional de contrarrelógio e de fundo sub-23 em 2019, vencido o Liège-Bastogne-Liège sub-23, em 2018, e ficado em sétimo na Volta a França do Futuro (2018). Foi segunda escolha da equipa para o Giro, mas acabou a fazer história em ano de estreia no World Tour, com 15 dias de liderança. João Almeida pode não ganhar o Giro, mas já conquistou o reconhecimento de um país onde o ciclismo é cada vez mais internacional.

João Almeida viu ainda Rúben (que também é Almeida) Guerreiro vencer uma etapa. Natural de Pegões Velhos (Montijo), o português da Education First também começou a jogar futebol até uma paixão maior tomar conta da sua vida. Rúben ficava colado à televisão a ver o Tour, sonhando um dia fazer parte daquele mundo. Tal como João Almeida faz parte da geração que entrou no ciclismo através do BTT. Tinha 7 anos quando começou a competir no BTT Canha, mas só aos 17, quando recebeu uma bicicleta de estrada, integrou a equipa do Matos Cheirinhos.

Fã de Lance Armstrong e Alberto Contador, o ciclista do Montijo, de 26 anos de idade, tem um campeonato nacional de estrada em 2017, título que também conquistou na categoria de sub-23 e em júnior. Ainda em sub-23, venceu o GP Palio del Recioto, em Itália. Conseguiu um sexto lugar numa prova do World Tour, a Bretagne Classic e foi 9.º na geral na Volta à Bélgica. Em 2019 estreou-se em grandes voltas e conseguiu um 17.º lugar na Vuelta (Espanha).

Neste ano venceu a nona etapa da prova italiana e entrou para o restrito grupo de sete portugueses que venceram uma etapa de uma das três grandes voltas (João Rebelo, Joaquim Agostinho, Acácio da Silva, Paulo Ferreira, Rui Costa, Nélson Oliveira e Sérgio Paulino). Ao cortar a meta em primeiro lugar, o cowboy de Pegões igualou o feito de Acácio da Silva em 1989 e festejou com um grito à Ronaldo e um abraço a João Almeida: "Quando percebeu que eu tinha vencido a etapa, festejámos como dois miúdos na escola."

O ciclista do Montijo é o rei da montanha e virtual vencedor da camisola azul na Volta a Itália. Algo inédito no ciclismo nacional. É a primeira vez que um português vence uma classificação de uma grande volta. E nunca um português esteve tão perto de vencer uma das principais provas do ciclismo mundial como João Almeida. Um cenário que nem os mais confiantes se atreveriam a desenhar quando a 103.ª edição do Giro começou no dia 2 de outubro. Só por duas vezes na história do ciclismo nacional alguém brilhou mais do que a pantera das Caldas e o cowboy de Pegões Velhos: Rui Costa (campeão mundial em 2013) e Sérgio Paulino (medalha de prata nos Jogos Olímpicos 2004).

Mais Notícias