A Finlândia é um caso de sucesso na Europa no combate à segunda vaga

O país nórdico regista uma taxa de incidência cumulativa a 14 dias de 69,4 novos casos por cem mil habitantes, uma das mais baixas da Europa. Portugal tem uma incidência de 802,1, segundo os dados do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças.

A forma de estar dos finlandeses, em que o distanciamento já é algo inerente à sociedade, é vista como uma das razões por que o país nórdico é um dos melhores a lidar com a segunda vaga da pandemia. Mas não é a única razão. As taxas elevadas de digitalização nas empresas públicas e privadas, a dispersão da população e a forte adesão dos finlandeses às restrições decretadas pelo Governo contribuem para que o país se destaque pela positiva no combate à covid-19.

A Finlândia, um país com cerca de 5,5 milhões de habitantes, tem uma taxa de incidência cumulativa a 14 dias de 69,4 novos casos por cem mil habitantes, o que leva a diferenciar-se da maioria dos países europeus. Em Portugal, este mesmo indicador situa-se nos 802,1 novos casos por cem mil habitantes a 14 dias, segundo os dados do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças reportados a 22 de novembro (domingo).

Apesar dos números, as autoridades de saúde são cautelosas. O Instituto Nacional de Saúde da Finlândia alerta que há uma tendência de crescimento e que a situação "se pode deteriorar rapidamente", sobretudo na capital.

É em Helsínquia onde se concentra a maior parte da população e dos contágios. A incidência é de cerca de 113 casos novos por cem mil habitantes. No domingo, a Finlândia registava 21.116 casos de covid-19 e 375 mortes, desde o início da pandemia.

O comportamento dos finlandeses no dia-a-dia, não sendo tão expansivos nos afetos como outros povos, fez que não fosse difícil a adesão às medidas restritivas impostas pelo Governo.

O resultado de uma sondagem, citada pelo jornal La Vanguardia, mostra isso mesmo, que os finlandeses são os europeus que melhor se adaptaram às medidas decretadas para travar a propagação do novo coronavírus. Segundo o Eurobarómetro, 73% dos finlandeses que participaram no estudo afirmaram que as medidas de contenção impostas na primavera foram razoavelmente fáceis de acatar. Um quarto dos cidadãos da Finlândia considerou mesmo que representaram "uma melhoria" no seu dia-a-dia.

"Nem todos os finlandeses são introvertidos e antissociais, mas provavelmente temos menos personalidades extrovertidas do que muitos outros países."

Refira-se que, à semelhança de muitos outros países europeus, a Finlândia fechou fronteiras, escolas, espaços culturais e de lazer, como bares e restaurantes durante a primeira vaga de infeções. Na primavera, o país também impôs restrições de circulação na área metropolitana da capital, Helsínquia.

A forte adesão às restrições "pode ser explicada em parte pela personalidade dos finlandeses". "No geral, estamos muito felizes por estar em casa e não temos problemas em seguir as regras porque temos muita confiança nas nossas autoridades", explicou ao jornal SvD Marina Lindell, investigadora do Instituto de Pesquisa Social da Universidade Åbo Akademi , em Turku. "Nem todos os finlandeses são introvertidos e antissociais, mas provavelmente temos menos personalidades extrovertidas do que muitos outros países", acrescenta.

Um país que pelo terceiro ano consecutivo foi, em março deste ano, considerado o mais feliz do mundo.

"Gostamos de manter as pessoas a uma distância de um metro ou mais, senão começamos a sentirmo-nos desconfortáveis", disse o diretor do Instituto Finlandês de Saúde Pública, Mika Salminen, citado pela Reuters.

Mas não é só a forma de estar em sociedade que leva os finlandeses a lidar melhor com a segunda vaga de infeções pelo SARS-Cov-2.

Um dos países mais bem preparados para pandemia na primeira vaga

Já na primavera a Finlândia revelou estar mais bem preparada para enfrentar este desafio do que outros países europeus, embora não tenha sido dos primeiro a decretar medidas.

O país estava preparado para responder com reservas de material de proteção para os profissionais de saúde, tendo recorrido aos armazéns secretos para abastecer as unidades de saúde pela primeira vez desde que estabeleceu uma política de armazenamento de bens considerados essenciais, na sequência da Segunda Guerra Mundial. Uma medida considerada "histórica".

Elevada taxa de digitalização

A estes dois fatores junta-se a elevada taxa de digitalização que se verifica no país, o que facilita o teletrabalho - e que a população permaneça em casa.

"O nível de digitalização, tanto nas empresas privadas como nas públicas, é muito alto, o que facilitou muito a mudança para o teletrabalho." O testemunho dado ao La Vanguardia é de um jornalista espanhol, César Calvar, que vive na Finlândia.

"Uma família com cinco membros tem um computador para cada um, o que ajudou tanto no trabalho como na educação à distância quando as escolas fecharam", destaca.

A digitalização também se vê na facilidade de ultrapassar os processos burocráticos relativos a várias matérias, sendo uma ajuda no acesso mais rápido aos apoios financeiros dirigidos aos mais afetados pela pandemia.

O jornal espanhol escreve que as duras restrições de entrada no país e o sistema eficaz para rastrear as infeções contribuem para ser um dos melhores países no combate à segunda vaga.

A rastreabilidade eficaz deve-se a uma aplicação semelhante à StayAway Covid, uma ferramenta que o Governo português tem referido por diversas vezes, como sendo um importante instrumento no combate à covid-19, apelando à sua utilização.

Com uma população de cerca de 5,5 milhões de habitantes, a aplicação que o Governo finlandês usa foi descarregada 2,5 milhões de vezes.

"Além da menor propensão ao contacto físico, um fator muito importante é o facto de as pessoas serem muito mais disciplinadas no que diz respeito a seguir as recomendações", destacou o jornalista espanhol. A grande dispersão da população pelo território e o pouco turismo que se verifica no país são outros dos fatores apontados.

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