365 dias, a versão rasca de '50 Sombras de Grey'

365 Dias é o filme soft-porno de que todos estão a falar nas redes sociais e que já tem sequela garantida. A Netflix foi à Polónia garantir a sua cópia rasca de As 50 Sombras de Grey. Está em primeiro lugar no top em Portugal.

Homens ricos tarados sexuais são o atual filão para o cinema erótico de pacotilha. O fenómeno da Netflix 365 Dias, nestes dias em primeiro lugar no top de vários países da Netflix (incluindo Portugal), pega numa suposta fantasia feminina e transforma-o num soft-core do mais pindérico que se pode imaginar. Um "europudding" com dinheiro europeu e falado em italiano, inglês e polaco. Se o sotaque é duvidoso, o bom gosto é garantidamente nulo.

Misturando elementos de 50 Sombras de Grey e de A Bela e o Monstro, 365 Dni (título original) é daqueles fenómenos difíceis de explicar. Não tem estrelas conhecidas, o romance de Blanka Lipinska no qual o argumento se baseia não é famoso, toda a imprensa o destrói, e sua estrutura de linha de história é de um academismo nauseabundo. Contudo... tem sexo. Sexo ainda mais explícito do que os filmes da trilogia As 50 Sombras de Grey juntos, mesmo quando faz trinta por uma linha para nunca mostrar um centímetro da genitália do casal.

A histeria em relação a este objeto erótico explica-se também por haver uma falta de oferta de cinema deste género. A isso junta-se o efeito do passa-a-palavra do "escândalo" na Netflix - não subestimar o efeito que o número 1 do top provoca no assinante na altura de escolher, mesmo quando no IMDB tenha uma miserável classificação de 3.5 pelos usuários, números da "família" de Cats (2019) ou Catwoman (2004).

A história de um mafioso siciliano bem-parecido e o seu romance com uma polaca que sequestra. O mafioso dá-lhe 365 dias para se apaixonar por ele. Em menos de nada, já está a dizer encantada à amiga que ele é um alfa-macho com um pénis esculpido pelo diabo. No começo, diz que não e não, mas depois, num abrir e fechar de olhos, por entre cenas com música hard-rock de cortar os pulsos, já lhe está a fazer sexo oral num iate de luxo.

Tal como em Grey, tudo aqui passa-se em cenários de cinco estrelas: hotéis, resorts, iates e clubes noturnos. O sexo é filmado em modo de teledisco "chunga" e com uma subtileza de um burgesso com tendências de bondage. O ponto de vista supostamente é para nos fazer refletir sobre a fina linha entre sexo puro & duro e o romance, mas o que fica escancarado é um elogio às coreografias vindas do porno em que o prazer da mulher é fantasia sedentária masculina, apenas isso.

Tomasz Mandez e Barbara Bialowas enchem o filme com maratonas de sexo fajuto com cruzamento de uma historieta de gangsters sicilianos onde o ciúme, a ganância e o constante e tóxico "bully" masculino decoram a coisa. O casal do provocador e da submissa gaba-se de fazer amor num barco durante 24 horas e gaba-se também de gastar milhares de euros numa ida às compras onde o homem serve para dar o cartão de crédito e censurar os vestidos mais curtos. Por sua vez, o casal realizador gaba-se de um grotesco onde se celebra o corpo feminino para a luxúria macho sem nunca conseguir criar enlevo sensual. Em suma, um filme feio sobre gente que não sorri, capaz de tratar as mulheres como objetos e que tem ainda todos os tiques daquele novo-riquismo que faz mal aos olhos.

Não há muito a enganar: é bem capaz de ser bom portador da fama que está a ganhar nas redes sociais, fama de "pior filme de sempre". Tão mau tão mau que nunca chega a ser bom e até pode criar o equívoco que não condena o abuso sexual dos homens.

Consta que a sequela já está na forja. Apostamos que vai haver reviravoltas e que os mafiosos da Sicília vão ripostar com mais gel no cabelo e armas mais barulhentas... E o facto de em Portugal estar nos primeiros lugares, com muitos dias em primeiro, explica porque o filme de Spike Lee, Da 5 Bloods - Irmãos de Sangue, já nem figurar no top 10 e que é a base dos assinantes nacionais...

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