Sonho americano

Hesitei em escrever sobre Colin Powell, o grande general americano que morreu nesta semana, porque toda a gente iria destacar os seus argumentos (errados) a favor da invasão do Iraque em 2003, era então secretário de Estado do presidente George W. Bush, quando aquilo que eu preferia lembrar era o homem que personificou o sonho americano.

Mas um artigo no The Wall Street Journal, intitulado "Colin Powell's Great American Journey", fez-me avançar. Sim, foi uma grande viagem americana a vida deste militar feito político. E li-a contada pelo próprio Powell pela primeira vez nos anos 1990 na autobiografia My American Journey, a história de um filho de imigrantes jamaicanos, nascido no Harlem e criado no Bronx, que estudou sempre em escolas públicas, licenciou-se na City College of New York, fez-se militar, foi ao Vietname, e chegou ao comando máximo das forças armadas dos Estados Unidos, lugar que ocupava quando em 1991, com Bush pai na Casa Branca, a América com aval da ONU expulsou os iraquianos do Koweit.

O meu interesse por Powell nasceu das sondagens que o davam, a um ano das eleições de 1996, como um potencial presidente, se aproveitasse a popularidade pela lição que deu a Saddam Hussein e fosse candidato republicano contra Bill Clinton. Acabou por ser tema de uma tese de mestrado em estudos americanos que defendi em 2000, comparando-o com Louis Farrakhan, líder de um movimento islâmico que há décadas denuncia o racismo nos Estados Unidos. Em 1995, Farrakhan conseguiu até juntar um milhão de homens negros numa marcha em Washington, batendo por larga margem os números de Martin Luther King em 1963.

"Powell versus Farrakhan, dois modelos antagónicos para os afro-americanos" foi o título da tal tese, curiosamente defendida uma semana depois de regressar de uma reportagem sobre as presidenciais de 2000, em que estive no Texas, no Arkansas e no Tennessee, todos antigos estados esclavagistas e ainda muito marcados pelas tensões raciais.

Quando publicou a autobiografia, Powell conhecia já muito bem o que tinha sido a experiência dos negros trazidos como escravos para os Estados Unidos e seus descendentes - casou-se com Alma, nascida no Alabama, e sul mais profundo não há. Mas aquilo que sempre transpareceu no percurso de Powell, na tal viagem americana, foi a forma como ter crescido num bairro multiétnico de Nova Iorque (com negros, mas também porto-riquenhos, judeus vindos da Europa de Leste, gregos e muitos outros) fez que nunca se visse como parte de uma minoria. No Bronx da sua meninice todos eram uma minoria, afinal. Os primeiros wasps, os brancos anglo-saxónicos protestantes, só os conheceu nos quartéis, escreveu nas memórias.

O pai e a mãe de Powell descendiam certamente de escravos trazidos para a Jamaica pelos britânicos. Com alguma miscigenação já na ilha. Mas foi como imigrantes que chegaram aos Estados Unidos e se dedicaram a trabalhar duro na indústria têxtil para que Powell, nascido em 1937, e a irmã pudessem estudar. Na sala tinham uma fotografia de Franklin Roosevelt, o presidente que acabou com a Grande Recessão e também ajudou a derrotar Hitler. A família acreditava no sonho americano ainda antes de Powell o encarnar.

Apesar de a família adorar um presidente democrata, Powell acabou por se tornar republicano. Trabalhou com George Bush e depois com Bush filho, em nome de quem justificou o golpe final em Saddam alegando ter este armas de destruição maciça (nunca encontradas). Em 2008, apoiou Barack Obama, não porque não simpatizasse com John McCain, herói do Vietname, mas por reação à atitude preconceituosa de alguns líderes republicanos contra o democrata filho de um queniano e de uma branca do Kansas. Também declarou considerar Obama uma figura inspiradora e de facto voltou a apoiá-lo em 2012. Quase que se pode dizer que Powell previu a extremização do Partido Republicano, o partido de Abraham Lincoln, que atingiu o apogeu com a eleição presidencial de Donald Trump em 2016. Que Trump tenha atacado Powell dias depois da morte diz muito do espírito vingativo do magnata que se tornou político (o general apoiou Joe Biden em 2020)..

Powell poderia ter sido o primeiro presidente negro da América. Mas Alma, muito marcada pelo peso do passado dos afro-americanos, teve medo da exposição pública e pediu ao marido para não concorrer. Ficou, apesar do episódio das armas de Saddam, o exemplo de vida para todos os americanos, negros ou não. Há uma frase do general, em 1995, que pode servir de inspiração para quem luta contra as injustiças e acredita que estas podem ser derrotadas: "Não vou deixar que o preconceito faça de mim uma vítima em vez de ser um ser humano completo."

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