Autárquicas, CDS e o "erro" do Chega. A estratégia de Rio para derrubar o PS

O líder do PSD continua a apostar numa crise política no próximo ano. A crise gerada pela pandemia pode acelerar o desgaste do Governo, mas obriga também a medir os custos de eleger já potenciais parceiros como o Chega.

"Não me parece fácil que a legislatura vá até ao fim." A frase é de Rui Rio na sua mais recente entrevista à RTP, e com ela volta à ideia que saiu do congresso do PSD, no início do ano, de que haveria uma crise política na segunda metade de 2021. E numa altura em que ninguém sonhava com o peso de uma pandemia, que colocou e colocará o país em apertada crise económica e social. "A nossa estratégia não mudou muito, os acontecimentos é que aceleraram, já que ninguém podia prever uma pandemia, nem estávamos à espera de assumir o poder nos Açores", afirma ao DN um dirigente social-democrata.

A crise sanitária, sobretudo esta segunda vaga de covid-19, tem, na opinião da mesma fonte, "provocado um desgaste enorme ao Governo, que anda dividido internamente sobre as medidas de combate à pandemia". A que acresce o que o PSD já esperava dificuldade nas relações entre Governo e os antigos parceiros de geringonça para aprovar os Orçamentos do Estado, a começar já por este de 2021, e a agravar-se para o de 2022.

Não me parece fácil que a legislatura vá até ao fim.

Daí a expectativa de estar à espreita uma crise política, a que se junta outro condimento, o das presidenciais, em que uma parte do PS, com liberdade de voto, estará com Marcelo Rebelo de Sousa, incluindo António Costa, e outra com Ana Gomes. "É óbvio que a votação dividida nas presidenciais pode criar cisões à esquerda", frisa o mesmo dirigente social-democrata.

No desenho da estratégia social-democrata para derrubar o Governo socialista contava-se ainda com o desgaste que a presidência portuguesa da União Europeia, de janeiro a julho, irá gerar. Fatores a somar a fatores de dificuldade para o executivo socialista.

As eleições autárquicas de outubro do próximo ano são a peça política mais importante no próximo ano para imprimir uma dinâmica de vitória ao PSD, como admitiu o próprio líder do partido. As conversações com o CDS para a formação de coligações em vários municípios, incluindo Lisboa, estão em curso. "O CDS perdeu muitos votos, mas o seu eleitorado existe, e é esse que temos de cativar nestas eleições", afirma a mesma fonte.

No PSD há também a perceção de que a "atual liderança do CDS não está a conseguir colher os melhores resultados". Por isso, o PSD mantém toda a atenção às movimentações no partido de Francisco Rodrigues dos Santos, quando começa a correr nos bastidores a possibilidade de aparecer uma figura como Adolfo Mesquita Nunes, Nuno Melo ou até Manuel Monteiro a protagonizar uma alternativa à atual liderança centrista.

É impossível o PSD fazer um governo com a extrema-esquerda ou a extrema-direita. Dito de outra forma: num governo por si liderado "não entraria o BE, o PCP e o Chega"

As recentes eleições regionais dos Açores eram a primeira etapa para o PSD começar a tendência de crescimento eleitoral, "mas não existia a expectativa de atingir já o poder", diz a mesma fonte. Mas os votos dos açorianos ditaram uma maioria de direita e o PSD, liderado por José Manuel Bolieiro, conseguiu entender-se com o CDS e o PPM para formar governo e lançou a ponte ao Parlamento com o Iniciativa Liberal e o Chega.

O entendimento com o partido de André Ventura nos Açores tem valido ao PSD as mais fortes críticas e obrigou Rui Rio a explicar-se sem tirar completamente Ventura do jogo.

Numa situação futura, para eventuais negociações com o PSD de uma solução governativa, o presidente do partido admitiu negociações com o Chega, "se me pedirem para pôr pontos com os quais estou de acordo". Ou seja, aceitará conversas com o partido de Ventura se da parte deste existirem propostas "coerentes" com o programa do PSD, disse Rio em entrevista à RTP. Seja como for, acrescentou, uma coisa estará garantida: "É impossível o PSD fazer um Governo com a extrema-esquerda ou a extrema-direita." Dito de outra forma: num Governo por si liderado "não entraria o BE, o PCP e o Chega".

"Nunca na vida um Governo liderado por mim se colocará nas mãos do Chega, o Chega a exigir tudo o que quer e pode, como está a fazer o PCP ao PS", insistiu.

O "erro" do Chega e a "paz podre"

O comentador político Pedro Adão e Silva considera um "erro" ou mesmo uma "estupidez" quer a sinalização do Chega como potencial interlocutor do PSD quer a coligação nos Açores. "Se o Chega se moderar, como pede o líder do PSD, é um perfeito absurdo! Se isso acontecer deixa de existir porque é um partido extremista, radical e vive disso. O Chega não só não se vai moderar como a representação política daquele espaço está para ficar", frisa.

Mas vai mais longe: "O Dr. Rui Rio, que andou a dizer que queria recentrar o PSD, está a fazer a estupidez de tornar o Chega um interlocutor válido e dar legitimidade ao voto nesse partido antes de ter havido eleições e de até se puder chegar à conclusão de que o voto no PSD, no CDS, e na Iniciativa Liberal e até no PAN poderia chegar para atingir o poder."

Pedro Adão e Silva diz não entender a própria coligação com André Ventura nos Açores, quando se tal não tivesse acontecido os dois deputados regionais eleitos pelo partido provavelmente teriam descolado do Chega para apoiar o PSD. "O que fragilizaria André Ventura", sublinha o comentador político.

Se o Chega se moderar, como pede o líder do PSD, é um perfeito absurdo! Se isso acontecer, deixa de existir porque é um partido extremista, radical e vive disso. O Chega não só não se vai moderar como a representação política daquele espaço está para ficar.

Pedro Marques Lopes partilha da mesma opinião: que não existe qualquer vantagem, antes pelo contrário, de o PSD sinalizar o Chega como potencial interlocutor político nas futuras legislativas. "A perceção dessa pérfida aliança pelo eleitorado social-democrata vai fazer o PSD descer de votos", afirma o comentador político.

Pedro Marques Lopes adverte, aliás, que esta é uma crise real, mas sem fim à vista, e com um único beneficiário em caso de eleições antecipadas: precisamente o Chega. "Estão reunidos todos os ingredientes para uma crise política, aliás, ela já existe causada pelas crises de saúde pública, económica a social. Vai adensar-se conforme se adensarem os problemas sociais, mas daqui a um ano não vai gerar mais votos no PSD, só uma organização iria beneficiar de eleições antecipadas, que é o Chega", afirma.

Nas presidenciais, André Ventura vai disparar feio contra Marcelo. Como é que o PSD vai lidar com um líder que vai atingir a principal figura de centro-direita?

O comentador político admite que embora sem assumirem claramente, e apesar das vozes críticas dentro do partido, há muita gente no PSD que não se importará de "vender a alma ao diabo" - ao Chega - para chegar ao poder. Mas destapa uma previsível contradição. "Nas presidenciais, André Ventura vai disparar feio contra Marcelo. Como é que o PSD vai lidar com um líder que vai atingir a principal figura de centro-direita?"

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