Capítulo 3: Como uma crise a 6500km desaguou no meio do Tejo

Do petroleiro Rio Arauca, arrestado há um ano e quatro meses no Tejo com 16 homens lá dentro, pode contar-se a história de um dos maiores colapsos sociais e económicos do nosso tempo. Terceiro e último capítulo da reportagem sobre o navio venezuelano preso no mar da Palha.

No mesmo dia em que o petroleiro Rio Arauca entrou na barra do Tejo, um homem tornava-se famoso em Caracas. Era um violinista chamado Wuilly Arteaga, que depois de tocar o hino nacional diante de um cordão policial acabaria detido pelas autoridades. Aconteceu a 24 de julho de 2017.

O presidente Nicolás Maduro ouviu nesse dia o hino do seu país, sim, mas não o que Arteaga tocou no centro dos protestos na capital venezuelana. Antes estava no Panteão Nacional, onde o governo celebrava o dia do 234.º aniversário do herói nacional e fundador da pátria, Simón Bolívar. Era feriado em todo o país.

O violinista diria mais tarde que fora torturado no curso dos 19 dias em que esteve preso. E que Bolívar ficaria envergonhado com a crise que viera sem convite à sua festa de aniversário. Em Caracas os protestos seguiram até às eleições, no fim desse mês. Houve mortos e feridos, milhares de detidos.

Ao sair da prisão, o músico tornado símbolo dos protestos fez um anúncio: manter-se-ia firme e lutaria o tempo que fosse preciso até a normalidade ser reposta. No final de julho, com a opinião pública mundial focada nos sangrentos confrontos que tomavam conta do país, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) anunciava uma verdadeira hecatombe na produção de petróleo no país: muito por culpa das greves, a queda era superior a 20% em relação ao mês anterior. E as reservas disponíveis eram então as mais baixas em três décadas.

Em maio deste ano, Arteaga não aguentou mais e fugiu para Nova Iorque, hoje toca o seu violino nas estações de metro de Manhattan. A crise do petróleo no seu país tinha trazido um drama maior do que a falta de liberdade contra a qual protestou. Trouxe fome, falta de medicamentos, crime e desespero.

A 6500 quilómetros de Caracas, o navio que entrou na barra do Tejo no mesmo dia em que ele se tornou num famoso violinista continua à espera de que a crise se resolva do outro lado do Atlântico. Mesmo diante de Lisboa, está um dos grandes problemas do mundo.

Passageiros frequentes

Até 2013, a PDVSA, petrolífera estatal venezuelana, dispunha de 31 petroleiros, que estavam longe de chegar para as encomendas. Até essa altura, o país produzia perto de três milhões de barris de crude por dia, o que obrigou a empresa a alugar mais duas dezenas de navios em regime de leasing. O Rio Arauca, estacionado no Tejo, chegou à Venezuela nesse ano e nessa condição. O proprietário é a delegação cipriota de uma empresa alemã da marinha mercante.

Ainda que a embarcação cumprisse habitualmente a rota nascente, descarregando petróleo no Médio Oriente, Índia, China e Japão, estava longe de ser um desconhecido em águas portuguesas. Sines é paragem frequente para os petroleiros da PDVSA e os estaleiros de Setúbal são lugar habitual para as reparações da frota. Era aliás essa a procedência do Rio Arauca quando entrou em Lisboa e foi detido.

Em 2014, depois da expulsão de Caracas de três diplomatas norte-americanos, Washington impôs uma série de sanções à Venezuela. Apesar de não incluírem os produtos petrolíferos, foram anúncio de uma crise económica sem precedentes. A inflação começou a disparar e os salários não conseguiam acompanhar a subida dos preços dos produtos básicos. O país mergulhou numa série de greves e protestos, que se foram intensificando nos meses seguintes e tiveram um impacto tremendo na PDVSA.

A Venezuela tem a maior reserva de crude do planeta, mas também tem um problema de falta de diversidade económica: mais de 95 por cento das exportações do país estão centradas neste setor. Quando se tenta perceber a vaga de imigração portuguesa para aquele país nos anos 1960 e 1970, a explicação é só uma: foram os anos do boom petrolífero, a república era o novo eldorado sul-americano.

Em 2017, com o preço do barril de petróleo a atingir mínimos históricos, a Venezuela implodiu. As ruas encheram-se de protestos, a criminalidade e a fome dispararam, as eleições do final de julho ficaram marcadas por sangue e desespero. Segundo a ONG suíça Codevida, nos dois últimos anos dois milhões de pessoas fugiram do país e cada venezuelano perdeu em média 11 quilos. Na origem de toda essa crise estava o ouro negro.

O fim da linha

O site de investigação jornalística venezuelano La Patilla diz que 52% dos funcionários da PVDSA abandonaram os seus empregos. Ou seja, desde meados de 2017 não há homens para retirar o crude do mar das Caraíbas, para carregá-los nos portos ou para compor as tripulações dos navios. Caracas está hoje a produzir 1,678 milhões de barris de petróleo, quase metade do que há cinco anos.

Os acordos de abastecimento que o país tinha firmado com uma série de nações ruíram, a PDVSA pura e simplesmente não consegue entregar os barris de petróleo que prometeu. Então, em portos de todo o mundo, há hoje uma dezena de petroleiros venezuelanos arrestados por dívidas. A diferença do Rio Arauca é a legislação portuguesa: o navio tem de ser ancorado ao largo, no mar da Palha. E tem de ter uma tripulação mínima de segurança, que não pode vir a terra.

Para todos os efeitos, as dívidas do petroleiro que está há um ano e quatro meses no meio do Tejo são de responsabilidade venezuelana. Mas, como o armador é cipriota, a tripulação tem recebido os seus salários. E a rendição dos oficiais tem ocorrido sem problemas de maior. O grande problema é a tripulação, os marinheiros rasos.

Os que chegaram a Lisboa em julho eram essencialmente venezuelanos, mas saíram em outubro. A partir daí os cargos a bordo têm sido ocupados por cidadãos da Birmânia, hoje Myanmar. Apesar de ter um dono cipriota, exploração venezuelana e estar em águas portuguesas, o navio tem bandeira das ilhas Marshall. Dentro do Rio Arauca, vigora a lei de um pequeno país do Pacífico Central.

Só isso explica que haja homens há mais de um ano no meio do Tejo sem poderem sair. Na sexta-feira desembarcaram quatro, que tinham assinado um contrato de nove meses e afinal passaram 11 meses e dez dias. Disseram que havia outros que ali permaneciam há muito mais tempo.

Para um dos que saíram, um rapaz de 24 anos chamado Aung, foi a primeira comissão de sempre. Desembarcou de olhos vazios e quis falar do desespero dos seus dias. Segundo a Seafarers Right International, uma espécie de sindicato mundial que defende os direitos dos trabalhadores da marinha mercante, o suicídio a bordo é a causa de 15% das mortes na classe profissional.

Há um ano e quatro meses que há um petroleiro no Tejo onde ninguém entra. Os que saem falam da agonia, mas quem está na margem de Lisboa esquece-se de que ele sequer existe. Ali, no navio invisível à vista de toda a gente, pode bem caber a história de toda a desumanidade que há no mundo.

Leia aqui o primeiro capítulo desta reportagem - O que faz um petroleiro parado há mais de um ano no meio do Tejo?

Leia aqui o segundo capítulo desta reportagem - Um ano parados no meio do Tejo: "É como estarmos numa prisão, já ninguém aguenta mais"

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