Desde que a epidemia se intensificou que os utentes deixaram de acorrer à urgência de Santa Maria em

coronavírus

Urgências caem mais de 50% e centros de saúde dão vacinas e pílulas do dia seguinte

Numa semana tudo mudou. Há hospitais que passaram de 700 urgências por dia para apenas 200. Nos centros de saúde a afluência baixou 90%, quase tudo é feito por telefone, mas observa-se situações graves, dá-se vacinas e pílulas do dia seguinte. A pandemia poderá mudar os hábitos dos portugueses?

De repente, as salas de espera das urgências gerais esvaziaram-se, as das pediátricas também e as das ginecológicas obstétricas igualmente. Os hospitais assistem ao que antes nunca viram. Os serviços de urgência a serem usados de forma racional e a exercerem as funções para os quais estão de porta aberta - a darem resposta a casos urgentes e com os tempos de espera reduzidos ao mínimo. Nas enfermarias, os internamentos também são menos e não há camas a mais nem macas nos corredores.

Por medo da epidemia ou por uma questão de consciência, cumprindo as orientações das autoridades de saúde no sentido de deixarem estes serviços só para situações graves de forma a não esgotar a capacidade do Serviço Nacional Saúde (SNS) na resposta ao tratamento dos doentes infetados com covid-19, os portugueses estão a provar que, afinal, o número oficial apresentado sobre falsas urgências, cerca de 40%, corresponde à realidade.

De acordo com o último relatório sobre o Retrato da Saúde em Portugal 2018, os hospitais receberam mais de seis milhões de urgências (precisamente 6 318 359), destes "40% dos atendimentos respeitam a atendimentos menos prioritários, pulseiras verde, azul e branca", lê-se no documento. O mesmo refere ainda que 6 023 845 utentes observados nas urgências tinham isenção de taxa moderadora.

Poderá esta pandemia mudar os hábitos dos portugueses? Poderá agilizar formas de funcionamento e outros mecanismos de comunicação nunca antes testados por não ter havido necessidade? O diretor clínico do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN) e o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar esperam que sim.

Para Luís Pinheiro, do CHULN, neste momento a avaliação que se pode fazer ainda "é meramente empírica, ainda sem qualquer estudo científico, mas o que se está a passar talvez possa criar um novo paradigma do que deveria ser a nossa cultura de utilização da urgência hospitalar e dos recursos de saúde". E sublinha: "Penso que poderá ser um princípio do futuro. Espero mesmo que esta situação leve a que se mudem alguns hábitos dos utentes, nomeadamente a procurarem soluções alternativas à urgência hospitalar, como o seu médico de família e a linha SNS 24, porque podem encontrar nestas a resposta às suas necessidades."

Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), diz ter "essa esperança. Estamos a usar mecanismos que não usávamos até aqui, como o telemóvel, o WhatsApp e até videochamadas em casos em que é necessário observar uma situação inesperada, mas também o fazemos porque conhecemos bem os nossos doentes, a nossa medicina é muito de proximidade. Talvez se possa continuar a usá-los para algumas situações e até para agilizar o funcionamento, mas não os podemos generalizar. Mas tenho esperança de que alguma coisa mude com esta pandemia".

Urgência geral passa de 510 episódios para 220 e pediátrica de 150 para 50 por dia

O DN sabe que nos dois maiores centros hospitalares de Lisboa a queda nos atendimentos urgentes é idêntica. A média diária de 700 episódios por dia, juntando atendimento geral de adultos, pediatria e ginecologia obstetrícia, passou para 200. O diretor clínico do Centro Lisboa Norte, que integra os hospitais de Santa Maria, o maior do país, e o Pulido Valente, explica ao DN que desde há uma semana - "a partir do momento em que a epidemia se instalou com mais intensidade e que o nosso hospital foi chamado a integrar diretamente o atendimento e o cuidado aos doentes com covid-19 - que a queda registada corresponde a cerca de 50% da afluência habitual".

"Para nós, a urgência mais indicativa é a geral de adultos que, até há uma semana, recebia diariamente uma média de 500 a 510 episódios e agora está a receber à volta de 220, a pediátrica recebia uma média de 150 e agora está com menos de 50 por dia, o que representa uma queda de dois terços. Ou seja, esta média de cerca de 700 urgências registou uma queda de mais 50%. Este é o nosso valor médio real, que está muito próximo também do que deve estar a acontecer com o Hospital de São João, no Porto, e também o de São José, que pode ter menos urgências diárias de adultos, mas depois tem as pediátricas na Estefânia que são o dobro das nossas."

O DN sabe que no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central (CHULC) os números são idênticos aos de Santa Maria. De uma média total de 700 urgências por dia, caíram para cerca de 200. A afluência está a um terço do habitual, explicaram-nos. No Hospital de São João, no Porto, foi-nos dada também a indicação de que a média de episódios era idêntica ao que se estava a passar em Lisboa, mas não conseguimos apurar números concretos.

Menos urgências, menos internamentos nas enfermarias e menos tempo de espera.

O que se sabe também é que menos urgências resultam em menos internamentos e em menos tempo de espera para se ser atendido. Aliás, neste momento, "quem espera mais no nosso hospital são os doentes que chegam com sintomas de covid-19, pois têm de aguardar os resultados dos testes. Mas uma larga maioria está a preferir aguardar no seu domicílio o resultado, alguns estão a ser tratados e acompanhados também no domicílio, mas há também uma larga maioria cujo resultado tem dado negativo", explicou Luís Pinheiro.

No entanto, e apesar da redução no número de idas à urgência, não houve "paradoxalmente uma redução dos casos menos prioritários, de pulseiras verdes e azuis, como à partida poderíamos esperar. Houve uma redução transversal em todas as cores, mas com um viés em relação às pulseiras verdes e azuis. Deixámos de ter casos de queixas mais genéricas e de dores de desconforto, para termos um aumento de casos com queixas respiratórias minor, que no fundo são os sinais de alerta para a infeção de covid-19 e estão a trazer as pessoas à urgência para ser feito o despiste".

Se não fosse o aumento em relação a estes casos de pulseiras verdes e azuis, o diretor clínico de Santa Maria diz mesmo que "teríamos uma redução na afluência às urgências de cerca de 70%", reconhecendo que muitos destes casos relacionados com o covid-19 "estão a ser encaminhados pela linha SNS 24, que está a fazer uma boa filtragem, mas muitos vêm diretamente, pelo seu pé".

Na vida hospitalar o que aumentou até agora foi "o volume de doentes em ambulatório. Neste momento é muito maior do que aquilo que era antes, pois são doentes que não requerem internamento, mas que precisam de cuidados quase diariamente".

Em relação aos internamentos, houve também uma redução elevada em todas as áreas médicas, mantêm-se os mais graves, "mas diria que a ocupação nas nossas enfermarias de medicina interna, que são um bom indicador da pressão de internamento, é dos 60% e sem doentes em camas supranumerárias ou em macas".

Uma ida à urgência continua a ser tão perigosa como antes, mas o medo da epidemia e a consciência cívica podem ser as razões que afastaram os utentes.

Questionado sobre se poderá estar a haver pessoas que pelo medo não estejam a ir às urgências em situações que até se justifiquem. Luís Pinheiro diz esperar que não, mas concorda que esta redução na afluência pode ter por base duas razões: o medo e a consciência cívica. "Nesta fase é precoce estar a fazer-se uma avaliação, mas, empiricamente, diria que estaremos no meio de duas razões: por uma questão de consciência, dadas as orientações da DGS, de não virem se não for um caso urgente, e também por algum receio de aqui serem infetados, embora o hospital não seja agora mais perigoso do que era antes. Temos dois circuitos diferentes, um para as urgências gerais, outro para os doentes suspeitos com covid-19."

Segundo explicou,"o doente com a mínima suspeita de covid-19 tem um circuito independente para ser abordado, quer em termos de diagnóstico quer em termos de tratamento. Não se mistura com os outros doentes, na urgência ou nos internamentos. Estes doentes estão em áreas próprias que lhes estão dedicadas".

Ainda é cedo para uma avaliação mais sistemática sobre a realidade que agora está a marcar os hospitais, mas este diretor clínico defende que "a posteriori, teremos de fazer uma análise mais rigorosa sobre a situação". Até para "se utilizar o que se aprendeu com esta pandemia".

Uma das coisas em que poderá contribuir, segundo Luís Pinheiro, "é no reforço da articulação que tem vindo a ser desenvolvida com os cuidados primários. A reorganização e maior abertura na relação entre as várias unidades poderá ser algo de positivo, uma espécie de herança, deixada por este momento que estamos a viver".

Nos centros de saúde a afluência baixou cerca de 90%, mas os médicos continuam a trabalhar

Nos centros de saúde o cenário é idêntico ao dos hospitais. Menos doentes nas salas de espera, o telefone não toca tanto, aliás, são os médicos que ligam aos doentes, e menos confusão com os tempos de espera ou com a consulta que querem para o dia e que já não há.

Há uma semana as consultas de rotina presenciais estão a ser canceladas e adiadas para outras datas. Rui Nogueira, presidente da ​​​​​​APMGF, conta como tem sido na Unidade de Saúde Familiar Norton de Matos, em Coimbra, onde trabalha. "Só estamos a mandar vir à unidade os doentes sobre os quais temos dúvidas e cujo problema não conseguimos resolver por telefone. Por exemplo, já tivemos de encaminhar uma senhora para o hospital que acabou por ficar internada, e não era nenhuma situação relacionada com o covid-19. Para as outras situações estamos a usar o telefone, a falar com doentes por WhatsApp, que nos enviam fotos de uma mancha que lhes apareceu e que os preocupa, e até estamos a fazer videochamadas."

O médico diz que está a ser assim na sua unidade, mas o feedback que tem tido dos colegas um pouco por todo o país é o de que estão a fazer o mesmo, e até está a correr bem, mas, salvaguarda, que "estes mecanismos para observação e de comunicação não podem ser utilizados com todos. Não podemos generalizar, fazemos com os doentes que já conhecemos muito bem. Com os outros, se não for uma situação urgente em que tenham de se deslocar à unidade, adiamos a consulta".

Desmarcação de consultas presenciais teve por base impedir que utentes saíssem de casa e corressem riscos.

Rui Nogueira reforça: "Quando se tomou a decisão de se adiar as consultas presenciais teve muito peso o facto de se tentar que a maioria dos utentes, sobretudo idosos, não saíssem de casa e não corressem riscos. No caso dos centros de saúde, não foi tanto aliviar as urgências, porque não funcionamos como uma urgência hospitalar."

Mas os centros de saúde continuam a funcionar e há atos que continuam a ter realizados, como vacinas, pensos, dar a pílula do dia seguinte e até encaminhamentos de interrupção voluntária de gravidez.

Como médico, com muita experiência, Rui Nogueira assume que todos o seus doentes têm o seu telemóvel, que os mecanismos que hoje estão a ser usados poderão ajudar no futuro a agilizar o funcionamento das organizações, mas, percebe que para muitos tudo o que é novidade seja muito complicado e aceite com muitas reticências, mas espera que esta situação possa levar a algumas mudanças.

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