Quarteto dos 3 Políticos Marcelo e Costa

Se formassem uma banda, desafiariam até os ouvidos menos sensíveis, mas só ouvia quem queria. Mas como são quatro dos mais relevantes protagonistas políticos do país, o caso é mais sério. Nas últimas duas semanas, António Costa, Rui Rio, Marcelo Rebelo de Sousa e Mário Centeno montaram um verdadeiro festival de jogadas políticas. Lembra-se do Quarteto dos 3 Irmãos Pedro e Paulo? No palco principal, hoje temos o Quarteto dos 3 Políticos Marcelo e Costa.

Primeiro a subir ao palco: Mário Centeno, o ministro que pagou porque tinha de pagar, não avisou porque não tinha de avisar e que ameaçou sair, antes de tempo, de um lugar em que já não quer estar há algum tempo. O CR7 das finanças, que, para alguns, passou de bestial a besta - e, para outros, de besta a bestial - em pouco menos de um fósforo parece estar destinado ao Banco de Portugal, e quem sempre o viu como um académico, que não percebia nada de política, talvez tenha agora de pensar duas vezes: de uma assentada, Mário Centeno ficou com o primeiro-ministro e com o Presidente da República nas mãos, reféns do efeito que a sua queda podia produzir politicamente.

Já a seguir, não percam Rui Rio no palco principal. O líder da oposição que tem um estilo diferente de fazer política e recusa andar a pedir a demissão de ministros a cada passo, mas, mal viu uma janela de oportunidade, não hesitou e veio pedir a cabeça de Mário Centeno numa bandeja. Sim, o mesmo Mário Centeno que, há mais de um ano e meio, Rio dizia que podia muito bem ser o seu ministro das Finanças. O político que não gosta de uma certa comunicação social que tem por hábito fazer julgamentos de tabacaria, mas acaba a fazer política na "tabacaria". O homem que foge da espuma dos dias, mas não resiste ao veneno de um bom tweet.

Não percam, já a seguir, Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente que há dois meses pedia a Mário Centeno para ficar nas Finanças e que, agora, decidiu atirá-lo para o meio da estrada. Irritado que estava pela rasteira que António Costa lhe passou na Autoeuropa e pela desfaçatez do ministro que o culpou pela minicrise política, Marcelo jogou como só ele sabe jogar: os elogios a Costa são facadas a Centeno e os elogios ao ministro são despedidas antecipadas.

E agora, senhoras e senhores, António Costa, o primeiro-ministro que se viu envolvido numa embrulhada - ainda por explicar - e que decidiu criar uma manobra de diversão (relativamente bem-sucedida, é preciso que se diga). Lançar o tema das presidenciais cumpriu vários objetivos: fugiu ao tema Novo Banco, obrigou os críticos internos a saltar da toca e teve ainda o mérito de conseguir dividir ainda mais o centro-direita. Já que PSD e CDS continuam cheios de dúvidas existenciais sobre o atual Presidente, Costa jogou na antecipação, começando a capitalizar para si uma eventual vitória de Marcelo nas presidenciais de 2021.

O "espetáculo" a que o país assistiu nas últimas semanas foi gratuito e era desnecessário. É certo que não define os protagonistas, mas, verdadeiramente, ninguém esteve bem. O tema do Novo Banco é mais sério do que se pensa e merecia outras explicações. A substituição de um ministro das Finanças e de um governador do Banco de Portugal é assunto demasiadamente sério para ser tratado com tamanha leviandade.

E, sobretudo, no momento em que enfrentamos uma pandemia e arriscamos uma crise económica e social gigantesca, cada minuto gasto com números políticos é tempo a mais que desperdiçamos. Os desempregados vão-se acumulando nos centros de emprego, há milhares de trabalhadores com cortes nos rendimentos e outras tantas empresas a definhar, desesperadas, à espera de uma resposta política que vai tardando em chegar. Podemos voltar a focar no essencial?

Jornalista

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