O primeiro astronauta a rezar virado para Meca

"Um muçulmano no espaço tem de se adaptar. Onde a sua mente sentir que é Meca é nessa direção que deve rezar", explica o sheik David Munir. "É uma dádiva divina."

Sultan bin Salman bin Abdulaziz al Saud tornou-se em 1985 o primeiro muçulmano a ir ao espaço. O seu nome, apesar do tamanho, é certamente menos conhecido do que o de Yuri Gagarine, o soviético que foi o pioneiro em 1961, ou do que o de Valentina Tereshkova, a primeira mulher astronauta (ou cosmonauta, como os russos dizem), ou ainda do que o de Neil Armstrong, o americano que pisou a Lua em 1969. Mas para os mais de mil milhões de muçulmanos no mundo a façanha do saudita teve um grande simbolismo, redobrado para o mundo árabe.

"A missão da NASA do príncipe Sultan tem sido uma inspiração para nós todos sauditas, assim como para a nação árabe. Um marco histórico motivador para a indústria aeroespacial árabe e funcionando como agente de transformação nos campos científico, técnico e económico. Quando aconteceu eu não era sequer ainda nascida! Mas tem sido uma história de glória herdada pelas gerações de sauditas, que a ouvem ser contada. Vi há meses uma entrevista na televisão com o príncipe Sultan, um homem inspirador, contando a história dos seus sete dias no espaço, realizando experiências como parte de uma tripulação internacional e monitorizando a colocação em órbita do ARABSAT-1B. Revivemos a história do que aconteceu a milhões de quilómetros ouvindo-o", diz Bayan Barry, informática da Cisco Systems e uma jovem saudita cuja experiência profissional a ligou a Portugal.

Nascido em Riade em 1956, membro da família real saudita, o príncipe Sultan como costuma ser referido, somava trunfos importantes na hora de ser designado um astronauta para instalar o satélite árabe: era piloto da força aérea com milhares de horas de voo, era fluente em inglês pois estudara comunicação numa universidade americana e, claro, contava com o apoio de um país que era grande financiador do projeto e ainda por cima aliado de primeira linha dos Estados Unidos.

Ainda nesses tempos de Guerra Fria, a União Soviética decidiu também levar ao espaço cidadãos de países muçulmanos amigos, e por isso um sírio e um afegão contam-se entre os 11 crentes no islão que foram astronautas desde 1985, em que se destacam três cazaques (Baikonur continua a ser um cosmódromo essencial) e uma iraniana naturalizada americana (a única muçulmana até ao momento).

O príncipe Sultan, filho do atual rei Salman e irmão mais velho do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, tinha 28 anos quando o vaivém Discovery descolou para a sua quinta missão, a 18.ª do programa dos space shuttles. Esteve sete dias, uma hora e 38 minutos no espaço, tempo durante o qual fez 118 órbitas à Terra. O vaivém aterrou na Base Edwards, na Califórnia, a 24 de junho. Tinha partido do Kennedy Center, na Florida, no dia 17.

"A história da astronomia na comunidade árabe e muçulmana remonta ao século VIII, à era dourada do islão. O astrolábio foi criado por Muhammad Al-Fazari para ajudar os muçulmanos a identificar a qibla, a direção de Meca. Outros cientistas muçulmanos, como no século IX Al-Khawarizmi, escreveram livros com tabelas astronómicas. O feito do príncipe Sultan teve um efeito notável no país e inspirou outros na região a apostar no setor espacial, caso dos Emirados Árabes Unidos. E em Riade há a Praça Raed al Fadaa, ou Praça do Astronauta, que celebra a sua viagem através de esculturas aerospaciais", sublinha Bayan Barry que acrescenta ainda que hoje o príncipe continua a ser uma figura inspiradora como presidente da Associação para as Crianças Deficientes, uma ONG.

"O Alcorão fala do espaço. Assim, um muçulmano conseguir ir ao espaço é uma dádiva divina para a comunidade", sublinha o sheik Munir.

"Um muçulmano no espaço tem de se adaptar. Onde a sua mente sentir que é Meca é nessa direção que deve rezar", explica o sheik David Munir. Para o imã da Mesquita Central de Lisboa, esta aventura espacial do príncipe saudita é prestigiante para a umma, a comunidade muçulmana espalhada pelo mundo. "O Alcorão fala do espaço. Assim, um muçulmano conseguir ir ao espaço é uma dádiva divina para a comunidade", sublinha o sheik Munir.

Mal comparando, ainda segundo o imã, "num avião de uma companhia aérea de um país não islâmico também se pode rezar deixando que seja a nossa mente a levar-nos na direção de Meca. Até podemos estar a voar em sentido contrário. O islão sempre soube adaptar-se à evolução dos tempos. E rezar orientado para Meca, mesmo com todo o caráter sagrado da cidade, vale sobretudo pelo que vai na mente e no coração".

No ano passado, a propósito dos 50 anos da chegada do homem à Lua, o jornal Arab News falou com o príncipe astronauta sobre a sua motivação para entrar num vaivém. E o fator decisivo, contou, foi a memória do feito de Armstrong, que a então criança saudita ouviu na rádio, na escola, e depois correu para o palácio em Riade para ver na televisão, ainda na era do preto e branco.

Depois da aventura espacial, o saudita continuou a sua carreira de piloto militar, só se retirando em 1996. Acumulou mais uns milhares de horas de voo e entre as muitas condecorações está uma do Koweit em agradecimento à ajuda na libertação do país em 1991, depois da invasão pelo Iraque de Saddam Hussein.

Autor de um livro intitulado Sete Dias no Espaço, o antigo astronauta é diretor desde 2018 do programa espacial saudita, com estatuto igual a ministro

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