No supermercado, com Marcelo Rebelo de Sousa

De máscara, respeitando o distanciamento social, o Presidente da República foi às compras. Dito de outro modo: a sua imagem num supermercado dá origem a um peculiar, e muito interessante, evento mediático.

No nosso mundo saturado de imagens, vive-se todos os dias uma guerra (cultural, por excelência) visando a maior ou a menor visibilidade de cada imagem. Não é um conflito clássico, um exército de um lado, outro do outro. Na sua complexidade e aceleração, nem sequer é possível detetar centros dominantes de poder. Alheando-se das noções clássicas de responsabilização, as novas tecnologias dispensaram todos de se sentirem assombrados por algum tipo de responsabilidade pelas imagens cuja circulação promovem, administram ou reforçam. Basta que a circulação prossiga. Os corações coloridos e os polegares ao alto farão o resto.

Com o seu admirável ceticismo poético, Jean-Luc Godard uma vez comentou este estado de coisas a propósito das "diferenças" entre mostrar um filme numa sala escura ou num ecrã de televisão. Lembrava ele que, de uma maneira ou de outra, as pessoas que apareciam para ver o filme na sala tinham tomado alguma decisão - são seres humanos concretos num lugar concreto. Nos televisores, que acontece ao filme? "Não sei para onde vai", diz ele.

Vem isto a propósito de uma curiosa imagem recente de Marcelo Rebelo Sousa, dizem as notícias que "socialmente" muito difundida. Em tempos de covid-19, vemo-lo num supermercado, às compras, usando máscara protetora, respeitando as distâncias impostas pela pandemia. Sabemos que a imagem tem tido especial impacto no estrangeiro (em Espanha, por exemplo, o El País dedicou-lhe um artigo), até porque, deduz-se, fora dos limites figurativos do quotidiano português, o seu efeito de surpresa será maior.

Importa contornar o cinismo "social" que este tipo de eventos quase sempre suscita, começando por sublinhar o valor pedagógico da imagem - eis um cidadão numa tarefa de rotina, com a sua máscara protetora, respeitando as distâncias impostas pela pandemia. E tanto mais quanto importa também não esquecer que o Presidente da República está longe de ser personagem isolada neste tipo de exposição pública: as mais diversas personalidades da cena política, de todos os quadrantes, têm tido idêntico cuidado prático e simbólico.

Ao mesmo tempo, seria demasiado ingénuo escamotear o valor "promocional" da própria imagem. Entenda-se: não necessariamente porque isso resulte da ação direta e unívoca, porventura perversa, do próprio protagonista (ou da máquina de propaganda que alguns dirão que existe, precisamente, para este tipo de performances públicas). Sejamos realistas: Marcelo Rebelo de Sousa encarna a regra, não a exceção - atualmente, para o melhor e para o pior, todos os políticos sabem que os modelos de tal exposição pública desempenham um papel fundamental na gestão dos seus discursos e, nessa medida, na maior ou menor eficácia da sua relação com os cidadãos/eleitores.

Deparamos, assim, com uma dúvida paradoxal. A sua formulação conduz-nos ao cerne de um impensado (político & mediático) que afeta todos os parâmetros da nossa vida coletiva. A saber: são os políticos que, com maior ou menor talento, vão fazendo a gestão das suas imagens, ou é o próprio sistema mediático (e imagético) que provoca, incute e induz a "obrigação" de fazer política através dos seus dispositivos de amostragem e difusão?

Há outra maneira, por certo menos teórica e mais angustiante, de formular tal paradoxo: quase todos os gestos políticos passaram a existir através da sua apresentação mediática, quer dizer, das imagens que podem gerar. Tornou-se quase impossível fazer política sem passar pelas regras mais ou menos compulsivas de tal universo de comunicação.

Podemos admitir que tal estado de coisas nos envolve numa cumplicidade sem mácula com Marcelo Rebelo de Sousa. Talvez, porque não? Aliás, o próprio sistema mediático consagrou tal cumplicidade através de uma fórmula sugestiva, mas de esquemática banalidade: "Presidente dos afetos." A afetividade passou a ser mediaticamente concebida como o "contrário" das ideias: há mesmo quem pense que a nossa relação com as ideias é alheia a formas muito particulares de afetividade. Resta saber se este modelo de cumplicidade nos permite pensar - e pensar politicamente - para lá das fronteiras afetivas de um corredor de supermercado.

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