Marcelo às compras. "Imagino o comentário de Cavaco Silva ao ver isto"

A fotografia do Presidente da República às compras correu mundo esta semana, com a informalidade de Marcelo a recolher rasgados elogios. Um fait divers ou algo politicamente mais relevante?

"O senhor de calções é o presidente de Portugal." Nos últimos dias esta frase repetiu-se vezes sem conta, em português, em espanhol, em francês, em inglês, em romeno. A fotografia de Marcelo em modo informal, de pullover e calções de banho, às compras num supermercado de Cascais, de máscara e guardando a devida distância social, fez sucesso nas redes sociais - começou no Instagram, saltou para o Twitter e daí para os media tradicionais.

"O presidente mais descontraído do mundo?", pergunta o britânico Daily Mail, num exemplo que "surpreende mais o resto do mundo que os portugueses", segundo o El País, que questiona se estaria o presidente português a comprar os iogurtes bifidus de que tanto gosta. A Globo sublinha que não é a primeira vez que isto acontece - "no fim de março, viralizou a imagem dele comprando pão - mas o look não era tão descontraído" e em França aponta-se um presidente que "é mais popular de dia para dia". No Chile, em versão radiofónica, explica-se a surpresa noutros países com o facto de habitualmente os governantes "viverem afastados dos cidadãos" e não aparecerem em lojas "em trajes de banho".

Mas, afinal, o que tem de especial a foto de Marcelo às compras para granjear esta popularidade? É um epifenómeno sem mais consequências? Ou será mais do que isso?

Para Vasco Marques, especialista em redes sociais, o elemento essencial desta imagem, que explicará pelo menos em parte o sucesso, é a "espontaneidade". "É isso que vende, seja uma marca, seja um político: a genuinidade", diz ao DN, lembrando que no caso do Presidente da República há outros exemplos de fotografias que foram largamente reproduzidas e a que se pode associar esta mesma característica. Exemplo claro disso são as fotos de Marcelo a consolar as pessoas na sequência dos incêndios de 2017.

Mas esta imagem do presidente no supermercado, de cesta pela mão, teve a novidade de passar fronteiras, despertando em particular a atenção dos espanhóis - e não só. "O impacto que a imagem teve lá fora tem muito a ver com a leitura que se tem do que é um chefe de Estado e da maior ou menor distância relativamente ao cidadão comum. Isto torna-se curioso noutros países porque se faz uma espécie de comparação entre a figura pública de um chefe de Estado de um país e os dos outros", sublinha o embaixador Francisco Seixas da Costa, defendendo que há aqui um "valor interessante para a imagem de Portugal".

"O que vende, seja uma marca, seja um político, é a genuinidade."

"A prova provada da importância desta imagem é o facto de os outros a considerarem excecional", prossegue Seixas da Costa -"É menos relevante se fez muito bem à imagem do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, a meu ver fez bem à imagem de Portugal no mundo".

Para o diplomata, com uma experiência de décadas nas relações internacionais, a imagem de um presidente descontraído que aguarda calmamente a sua vez na fila do supermercado ganha força por ir de encontro a uma certa imagem do país. Ou, pelo menos, a uma certa ideia que os próprios portugueses criaram da forma como o país é visto lá fora: "A fotografia funciona simpaticamente para aquilo que eu gosto de considerar que é a maneira como os estrangeiros nos olham. Para mim está de acordo com essa ideia." E que ideia é essa? A de um país simpático e acolhedor, pacífico e seguro, um país "normal" no mundo turbulento que temos hoje. Estamos no domínio do simbólico, mas que pode ter alguma tradução concreta: Seixas da Costa aponta o setor do turismo, onde a confiança é um elemento chave e este tipo de sinais pode ganhar alguma relevância. E fazer algum contraponto a tudo o resto que também faz a imagem de Portugal - um país pobre, economicamente frágil, que não prima pelo rigor, que soçobra a cada crise económica.

"Não é extraordinário. Ele é assim, sempre foi"

André Freire também atribui a popularidade desta imagem à estranheza de um responsável político se apresentar em público de forma tão informal. Mas é uma estranheza para os outros, sublinha o politólogo, não para os portugueses: "Não é extraordinário no historial de Marcelo Rebelo de Sousa. Ele é assim, sempre foi assim." O que noutra qualquer figura política levantaria imediatas suspeitas de encenação, no caso de Marcelo surge como uma imagem verosímil. "É congruente com o que é Marcelo, é usual nele. Mas ele não ignora esse efeito e tem isso em conta", sublinha André Freire, para quem a imagem tem "algum simbolismo", mas não mais do que isso: "Não acho que seja politicamente muito relevante, não é muito mais que um fait divers."

Para Seixas da Costa, o período insólito que vivemos também contribuiu para o sucesso de uma imagem destas: "Numa crise destas, em que toda a gente está macambúzia, ver o Presidente da República naquelas circunstâncias, cumprindo as regras, fazendo a sua vida tão normal quanto possível, a noção de que há um caminho para a normalidade, acho que fez muito bem a Portugal." Mesmo que a fotografia não diga tudo: "O Presidente não está sozinho, naturalmente que estão ali seguranças, não estão à vista, mas estão lá. O que ele não fez foi mandar alguém ao supermercado em seu nome, foi ele próprio." Uma imagem que é tradicionalmente associada aos países do norte da Europa. "Eu cheguei a ver o rei Olavo V da Noruega a guiar um carro com um segurança ao lado, no meio de Oslo. Lembro-me de ver fotografias dele a andar de elétrico. Como vi o primeiro-ministro norueguês de bicicleta - e esse não trazia mesmo segurança nenhuma", relembra o embaixador, sublinhando que "os países nórdicos têm, normalmente, esta dessacralização do poder" que Marcelo transformou na sua imagem de marca.

"Imagino o comentário de Cavaco ao ver isto"

Seixas da Costa defende que esta fotografia não seria possível com qualquer outro Presidente da República. Ela traduz um papel no quadro do exercício de poderes que o próprio Marcelo recriou, apresentando-se "como uma pessoa muito acessível à população, sem aquele resguardo formalista que é tradicional fazer parte da liturgia do exercício do poder".

Um contraste claríssimo com o seu antecessor, que o diplomata ilustra assim - "Eu imagino qual terá sido o comentário do casal Cavaco Silva ao ver isto."

"Vi algumas pessoas muito zangadas porque o Presidente da República não devia aparecer assim"

"Marcelo é, e foi sempre desde o primeiro momento, uma imagem de antítese relativamente ao modelo de presidência de Cavaco Silva", sublinha, considerando que esse contraste é, aliás, uma das razões do sucesso de Marcelo, que "apanhou o tempo certo para ser Presidente da Republica".

Mas se a proximidade dá popularidade a Marcelo, não significa que esteja isento de críticas, pelo contrário. "Vi algumas pessoas muito zangadas porque o Presidente da República não devia aparecer assim", diz André Freire, sublinhando que esta imagem representa uma "dessacralização do poder" que não agrada a toda a gente.

Seixas da Costa também identifica esta reação. "Percebo algum desconforto que algumas pessoas sentiram, em Portugal, com aquela fotografia. É um desconforto que tem que ver com o atipicismo da postura de Marcelo Rebelo de Sousa enquanto Presidente da República. É uma figura atípica no quadro do exercício de funções presidenciais. Nós não estávamos a ver Cavaco ali, nem sequer estávamos a ver Sampaio e muito menos Mário Soares. Isto não faz parte da liturgia normal dos chefes de Estado", sublinha o embaixador.

"Há quem não se sinta muito confortável com um presidente assim, que passa duas horas e meia a tirar selfies na Feira do Livro. Mas isto faz parte daquilo que Marcelo quer, é ele, isto vem em pacote. Também acho um bocadinho excessiva aquela coisa das selfies. Agora, felizmente, acabaram", remata Seixas da Costa.

Marcelo ou como ser "pensadamente genuíno"

Vasco Marques diz que, quando olhou para a fotografia de Marcelo no supermercado, a imagem não o impressionou particularmente. Até por contraste com outras, também com o Presidente da República como protagonista, que causaram bastante buzz - o abraço após o incêndio de Pedrógão, o vigoroso aperto de mão a Donald Trump (neste caso um vídeo) ou a conversa com o presidente norte-americano sobre a possibilidade de Cristiano Ronaldo chegar um dia a chefe de Estado (também um vídeo).

O consultor em marketing não tem dúvidas que Marcelo é a figura política portuguesa com mais eco no mundo virtual - o que não deixa de ser curioso, dado que o Presidente da República não é, confessadamente, um fã de redes sociais. Como é que se explica isso? "Acho que a popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa resulta de ele atuar como é, de uma forma genuína e autêntica. E sem filtro, quebrando constantemente o protocolo. Este comportamento fora da caixa ajuda [ao sucesso nas redes sociais]", sublinha.

"Marcelo introduz um estilo [na Presidência] que diria que é praticamente único."

Seixas da Costa concorda que Marcelo é muito genuíno, mas acrescenta que ele é "pensadamente genuíno". "Ele sabe construir o modo de expressar essa genuinidade".

Marcelo sempre foi tido, nos corredores da política, como um digno discípulo de Maquiavel - o mesmo é dizer que não dá ponto sem nó nem um passo que não tenha um objetivo político específico. Mas isso não lhe retira genuinidade, avalia o diplomata: "Marcelo entra-nos em casa desde sempre, é das pessoas que melhor conhecemos, nós sabemos que ele é aquilo. Outra coisa seria construir aquela imagem porque lhe dava jeito. Nem se pode dizer: isto é uma coisa nova. Não, não é, ele foi sempre assim. E continua a ser assim. O que não era normal era que os presidentes fossem assim. Ele introduz um estilo que diria que é praticamente único."

Quem o acompanha é que não deve ter vida fácil: "Deve ser terrível ser assessor ou consultor de Marcelo Rebelo de Sousa, devem ter surpresas a toda a hora. O melhor consultor de Marcelo Rebelo de Sousa é Marcelo Rebelo de Sousa".

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