Gonçalo Lopes: "A covid mostrou que são os autarcas e não o Estado que resolvem os problemas"

É presidente da Câmara de Leiria desde há um ano e não esconde alguma deceção com a falta de apoio do governo nalgumas matérias. Insiste na criação do aeroporto em Monte Real e aposta na candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura em 2027.

No início desta semana defendeu publicamente o fecho das escolas, ao contrário da decisão inicial do governo neste confinamento. Porquê?
Nós estamos com bastantes dias de atraso neste confinamento, se queremos que seja eficaz. Quando vejo o caso de Leiria, que foi a capital de distrito que teve o melhor desempenho no controlo da pandemia [até ao Natal] e de repente, em poucas semanas, vemos descambar por completo todos os números... isso só é resolvido com um confinamento que não seja a fingir.

Isso quer dizer que está claramente em desacordo com a atitude do governo, que supostamente apoia.
Certo. Já tive oportunidade de falar com membros do governo sobre este assunto. Considero que só há um fator decisivo para a questão do confinamento: o da saúde. Todos os dias reúno-me, presencialmente ou ao telefone, com o diretor do Hospital de Leiria e pergunto quantas camas disponíveis temos. E quando os gestores na área da saúde nos dão indicações claras de que estamos a viver momentos dramáticos, terá de ser a saúde a ditar quais deverão ser as ações de confinamento.

Uma das apostas nos últimos anos eram os eventos, muitos eventos. Está a decorrer no Estádio Municipal a Taça da Liga, um exemplo de um investimento que agora não tem retorno...
Todo o trabalho que Leiria desenvolveu nos últimos dez anos foi feito a pensar como colocar o maior número de pessoas na cidade e no concelho, a participar na nossa agenda cultural e desportiva, para atrair e fixar pessoas e assim afirmar o nosso território. E de repente, no último ano, temos de mudar o chip: não podemos fazer e temos de pôr as pessoas em casa, quando até então era tirá-las de casa e pô-las na rua. Isto para qualquer autarca é a inversão completa das suas prioridades. Quando se pensou na Taça da Liga, o objetivo era atrair as equipas principais, mas também criar na cidade uma atração que iria trazer bastante retorno económico para a hotelaria, a restauração, o comércio...

Perante isso, a candidatura a Capital Europeia da Cultura em 2027 é o que resta. É aí que vai apostar todas as fichas?
O desenvolvimento do nosso território passa muito por apostar em três áreas fundamentais: a promoção do desenvolvimento económico e a digitalização, a preocupação na área do ambiente e uma terceira área dedicada à cultura e à criatividade, que tem um papel muito importante para a afirmação do território - para que seja atrativo para a juventude e para a fixação de pessoas. E a candidatura a Capital Europeia da Cultura representa um objetivo muito grande não só para Leiria mas para uma região constituída por 26 municípios.

Mas é Leiria que assume a liderança... Quanto é que custa ao município esse projeto?
Até ao momento tem sido da ordem de um milhão de euros. Prevê-se para o futuro um investimento muito grande na área da programação e dos equipamentos culturais: um centro de artes que vai funcionar no topo norte do estádio, com uma componente importante para as indústrias criativas; uma black box num edifício histórico do centro de Leiria (Paço Episcopal) dedicada sobretudo às artes de palco, e um centro de artes contemporânea na Vila Portela, através da recuperação do edifício.

Acredita mesmo que conseguirá ganhar esta batalha a cidades como Oeiras, Braga, Aveiro, Coimbra, entre outras?
Acredito que sim porque a decisão é europeia, de um júri independente. E esta candidatura tem na sua base os ideais da constituição europeia: integração (de vários concelhos, assim como a UE integrou vários países), espírito de coesão (os que estão mais desenvolvidos têm de puxar pelos mais fracos, como na Europa), o espírito solidário e de consciência social. E Leiria (e toda a rede) tem todas as condições para ser embaixadora da cultura na Europa: um território de 700 mil habitantes, a norte de Lisboa, com uma pujança do ponto de vista económico e referências na área do património cultural únicas - como o Mosteiro de Alcobaça e o da Batalha que são classificados pela UNESCO -, Fátima e um vasto património imaterial que nos torna uma candidatura potencialmente vencedora.

Leiria e Coimbra protagonizaram no verão passado uma disputa a propósito da construção de um novo aeroporto. Sentiu-se preterido pelo governo quando um ministro veio defender Coimbra?
A minha relação com Coimbra é perfeitamente tranquila. Tenho o máximo respeito pelo trabalho que lá é desenvolvido. Mas a região de Leiria está em profundo crescimento e transformação, e irá passar por momentos de forte afirmação no contexto nacional. O aeroporto é só o que nos está a faltar para sermos muito grandes, para sermos maiores e conquistarmos coisas que até agora não conquistámos. Sei que é um processo demorado, que nos obriga a duas coisas: trabalho de equipa, a exemplo do que temos na rede cultura 2027, e também acordos, regras de ouro que existem entre a Câmara de Leiria, o Núcleo Empresarial, o Instituto Politécnico e o hospital. Independentemente daquilo que cada um faz, nunca criticamos o trabalho uns dos outros.

Se os estudos concluírem que o aeroporto deverá ser construído na região de Coimbra, aceita-o?
A região centro tem polos de atração diversos e muito importantes. Mas o maior de todos, e o que gera movimentações no espaço aéreo europeu, é Fátima. Por isso o aeroporto tem de estar o mais próximo possível deste polo de atração.

No final do ano passado, o ministro do Ambiente recuou na reconstrução de uma estação de tratamento de efluentes, o que vai protelar a despoluição da ribeira dos Milagres e da bacia do Lis. Como é que recebeu essa notícia?
O senhor ministro é livre de dizer o que entende sem dar conhecimento ao presidente da Câmara de Leiria. Mas recebi-a com bastante desagrado. Acho que este tipo de assuntos tem um nível de preocupação e impacto social que merecem outro tipo de trato e acompanhamento político. O assunto devia ter sido tratado não à volta do microfone de um jornalista, no meio de uma visita ao Pinhal de Leiria, mas no momento e na altura certos, com as explicações adequadas.

Tem faltado esse tato e essa interação entre o poder local e o poder central?
Quanto a isso respondo com o exemplo da covid, que mostrou muita coisa. Mostrou que o Estado português, nas suas estruturas descentralizadas, não tem liderança nem capacidade de intervenção, o que se reflete nas estruturas de Saúde, Educação, Segurança Social. Também ficou evidente que são os autarcas que tentam fazer pontes e resolver problemas, porque têm orçamento, coragem e o apoio das pessoas.

Tem insistido em falar dos apoios no âmbito da emergência social. A pandemia alterou o tecido social de Leiria? Em que medida?
Leiria é um concelho extremamente dinâmico do ponto de vista económico. Também tem desequilíbrios sociais, e a pandemia trouxe novas situações de carência económica, provocada pelo encerramento de algumas atividades. Houve um primeiro passo que foi dado através de ajuda alimentar, que foi fundamental para um conjunto de famílias imigrantes, sobretudo brasileiras, e que logo no início do primeiro confinamento ficaram sem rendimentos.

E que outros apoios?
Além disso, criámos o fundo de emergência municipal de apoio às empresas, que permitiu acudir àquele empresário que tem a sua unidade comercial fechada. Também criámos um fundo, com 1,2 milhões de euros, para acudir a quem e quando é preciso. Neste caso é a pandemia, no futuro pode ser uma inundação, um incêndio, qualquer outra catástrofe. As nossas prioridades [enquanto autarcas] mudaram radicalmente. A nossa visão de médio e longo prazo está limitada. Ninguém sabe como estaremos daqui a um ano.

Entretanto já cancelou a Feira de Maio...
Sim, que seria no mês cinco. Mas também estamos a cancelar coisas que eram previstas para o mês sete. Se me perguntar sobre a passagem de ano, não consigo responder.

Mas no mês dez haverá, à partida, eleições autárquicas. Porque é que ainda não anunciou a sua recandidatura?
Porque o momento é ainda de alguma expectativa relativamente ao resto do mandato. E há decisões que têm de ser pensadas e partilhadas, do foro pessoal, mas também do foro político. Tenho tido bastantes pessoas que me incentivam a continuar nesta vida autárquica, mas ainda não tomei uma decisão.

Raul Castro - que saiu da câmara há pouco mais de um ano, deixando-lhe a presidência - teceu duras críticas ao seu desempenho enquanto líder do executivo. Em 2017, "uma referência, uma inspiração, um homem superior". O que é que mudou?
Continuo a ter grande admiração pelo trabalho realizado na Câmara de Leiria. É um trabalho notável de recuperação económica, ao qual continuo a ter um enorme respeito e lealdade.

Mas quando ele lhe dá uma nota negativa, como é que se sente? Traído?
Não posso responder. Terá de lhe perguntar a ele os verdadeiros motivos dessas avaliação. Sinto-me de consciência tranquila e muito motivado. O combate à covid foi uma inspiração como autarca, neste primeiro ano enquanto presidente. E só quem está cá diariamente é que percebe quais são os níveis de prioridade. Felizmente Raul Castro não teve essa chatice de viver esta crise pandémica. Nós fomos dos concelhos do país que mais medidas impulsionaram, e muitas delas em antecipação, como o uso da máscara na rua, os testes aos emigrantes que vieram passar o Natal, as ações de apoio ao dinamismo económico. Todas estas ações levam a que muitas coisas que tínhamos sonhado para Leiria tenham de ser adiadas.

Em que é que Leiria se pode posicionar melhor em relação a outras cidades vizinhas?
Temos de afirmar sempre Leiria - mas também os concelhos vizinhos - como um polo importante de desenvolvimento económico e industrial, com mão-de-obra e empresários de grande capacidade, mas onde o instituto politécnico tem um papel fundamental, na formação. Depois temos de criar condições de investimento público que garantam alavancar toda esta ambição local e regional, coisa que não tem acontecido; o alargamento do hospital, com mais valências, a transição do politécnico para universidade. E tudo isso obriga a um envolvimento do governo. Um dos investimentos que iremos fazer no futuro é o Centro de Negócios Digital no topo norte do estádio. E é importante sublinhar a proximidade a Lisboa. Somos a cidade a norte da capital com mais potencial de crescimento.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG