O dia em que os soldados brasileiros subiram à colina para dar coça nos nazis

Gritou lá de cima "Castelo é nosso" o tenente-coronel Emílio Rodrigues Franklin, faz nesta sexta-feira 75 anos. O grito foi em português, pois o assalto decisivo à posição nazi no norte de Itália coube à Força Expedicionária Brasileira (FEB), 25 mil militares vindos do outro lado do Atlântico para ajudarem os Aliados a derrotar a Alemanha. Monte Castelo, tomado a 21 de fevereiro de 1945, será uma das vitórias da FEB, junto com outra, em abril, em Montese, novamente em território italiano, novamente contra os nazis, nazistas como se diz no Brasil. Os brasileiros combatiam integrados no IV Corpo do Exército dos Estados Unidos.

Estamos em 2020 e desde o ano passado acumulam-se as efemérides ligadas aos 75 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. Já se celebrou o Dia D, também a libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho, em maio será a vez de se celebrar a derrota de Hiltler. E em agosto também há que recordar as bombas sobre Hiroxima e Nagasáqui que terminaram com o conflito na frente asiática.

Em termos comparativos, os 75 anos da tomada de Monte Castelo são quase um pormenor, e os próprios historiadores brasileiros são pragmáticos, reconhecendo o heroísmo das tropas mas não alinhando na ideia de que se tratou de uma batalha fundamental, como pretendia certa propaganda dos tempos da ditadura militar. O verdadeiro valor de Monte Castelo e de Montese é servirem para relembrar o compromisso do Brasil com o mundo ocidental, e mesmo que o presidente Getúlio Vargas tivesse entre os seus próximos alguns germanófilos, e o seu Estado Novo tivesse inspiração fascista, a declaração de guerra à Alemanha chegou em 1942, sofrendo o país a retaliação dos submarinos nazis. Também na Primeira Guerra Mundial, o Brasil esteve ao lado de americanos, britânicos e franceses contra as potências centrais.

Há um ano, Donald Trump levantou a possibilidade de o Brasil vir a integrar a NATO, fazendo vista grossa a que a sigla se refira a uma aliança de países do Atlântico Norte, quando o Brasil é uma potência do Atlântico Sul. Depois das palavras, o presidente americano passou aos atos e conferiu ao Brasil em agosto o estatuto de aliado extra-NATO, o que facilita o acesso a armamento e tecnologia militar. Na América Latina, só a Argentina estava até agora nesse restrito grupo de 16 países, que inclui Japão, Coreia do Sul e Austrália. Colosso regional, sem verdadeiros inimigos nas fronteiras, o Brasil gasta relativamente pouco em defesa (28 mil milhões de dólares anuais, ao nível da Itália) e tem por tradição emprestar os seus militares à ONU, tendo-se estes destacado no Haiti e na República Democrática do Congo.

A ideia de uma aliança estratégica entre os Estados Unidos e o Brasil é antiga. O abade Correia da Serra, embaixador português amigo de Thomas Jefferson e de James Madison, defendeu-a com insistência quando a corte de D. João VI estava no Rio de Janeiro. E se a parceria nunca se concretizou, sobretudo porque James Monroe não sofria do mesmo encantamento que Jefferson e Madison pela sabedoria do abade, os Estados Unidos apressaram-se a reconhecer em 1824 a independência brasileira, uma monarquia, quando tinham tido, tantos anos, dúvidas com as repúblicas de língua espanhola. Monroe, aliás, reconheceu o novo país poucos meses depois do discurso que deu origem à famosa doutrina da América para os americanos. E Silvestre Rebelo, o embaixador enviado a Washington pelo imperador D. Pedro I, fez alusão a esse discurso para justificar o estabelecimento de relações diplomáticas.

Não é, assim, novidade nenhuma esta proximidade entre a América de Trump e o Brasil de Jair Bolsonaro. Entre elogios mútuos, os dois presidentes também já tiveram desentendimentos vários, com Trump a não facilitar nas questões da concorrência económica, mas com os parceiros europeus e o Japão faz o mesmo. A ligação estreita é, pois, mesmo uma velha tradição, foi forte durante a Guerra Fria (tirando a questão da não proliferação nuclear), e mesmo no tempo das presidências de Lula da Silva e de Dilma Rousseff manteve-se sem grandes sobressaltos talvez por na Casa Branca estar Barack Obama.

Voltemos a Monte Castelo e à bravura brasileira. Em homenagem àqueles bravos pracinhas, não há título melhor para esta crónica do que o dia em que os soldados brasileiros deram uma coça nos nazis, ou nazistas.

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