O dia em que o Porto resgatou Portugal

O fim do Império não começou em 1961, com a perda de Goa e o início da guerra em Angola. O fim do Império começou em 1820, mais exatamente a 24 de agosto, com a Revolução Liberal no Porto, faz nesta segunda-feira 200 anos. Ao movimento militar, que rezou missa antes de agir e jurou sempre lealdade a D. João VI, devemos o início da era liberal em Portugal, com o fim do absolutismo, a Constituição pioneira, as primeiras eleições. Mas devemos também que Portugal, no sentido mais estrito (o atual pequeno retângulo com fronteiras herdadas do século XIII mais os dois arquipélagos descobertos no século XV), exista como tal.

O caminho alternativo que estava a ser seguido, e isso está mais do que estudado, passava por o Rio de Janeiro se manter capital do Império Português, com a dinastia dos Braganças a afirmar um novo poder a partir do imenso Brasil. Não esquecer que desde 1815, com a derrota de Napoleão, D. João não só perdera justificação para se manter do outro lado do Atlântico como elevara o Brasil a condição igual à de Portugal. Tinha nascido o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Enquanto D. João VI se deliciava em ser um monarca nos trópicos, longe das rivalidades das potências europeias e mais poderoso do que nunca - deu uma lição aos franceses mandando invadir a Guiana, deu outra aos espanhóis anexando o Uruguai e ainda pediu ao abade Correia da Serra que convencesse os Estados Unidos a aceitar uma aliança -, no Portugal europeu mandava o inglês Beresford. E o país sentia-se órfão do seu rei, a economia sofria com a devastação das três invasões napoleónicas e com a perda do monopólio das exportações para o Brasil.

Sobretudo o Porto, cidade mercantil desde a Idade Média, perdera muito com a abertura dos portos brasileiros aos navios britânicos, decisão de D. João, ainda príncipe regente, quando chegou ao Brasil em 1808, depois da fuga atribulada de Lisboa sob proteção da Royal Navy, estavam já os soldados franceses às portas de Lisboa.

Sejamos justos com D. João VI. Tornou-se príncipe herdeiro por morte do irmão, regente por causa da loucura da mãe, e teve de governar pressionado pelo velho aliado inglês e pela emergente França napoleónica a escolher um lado numa das épocas mais turbulentas da história europeia. Na corte, havia as duas fações, o que não facilitava a vida do rei que ainda hoje é caricaturado por ter uma mulher feia e infiel e uma gula infinita por franguinhos assados, que trazia nos bolsos da casaca. Mas os historiadores já refizeram a sua apreciação e no Brasil o rei até é hoje popular, com a saga da família real portuguesa - as primeiras cabeças coroadas a atravessar o Atlântico - a alimentar romances e até telenovelas. E quem visita o fabuloso Jardim Botânico do Rio não esquece que nasceu da vontade desse rei.

No Brasil, entre 1808 e 1821, D. João foi feliz. Tanto que ali ficou 13 anos e dificilmente faria planos para regressar. No passado, outros monarcas portugueses chegaram a magicar um império universal lusitano com o Brasil como centro, mas nunca lá foram e muito menos lá criaram um verdadeiro aparelho de Estado. O Brasil ficou mais forte e mais unido graças a acolher o monarca e isso aconteceu ao mesmo tempo que a América de língua espanhola, destinada a ser território de repúblicas, lutava para se livrar de Fernando VII, com os desejos de unidade de Bolívar a serem pouco realistas.

Um Império Português com o Rio como capital em vez de Lisboa, para durar e não apenas uns anos por força das circunstâncias, era uma possibilidade. E não faltavam adeptos então em muitos pontos das possessões dos Braganças. Basta pensar que depois de D. Pedro (I do Brasil e IV de Portugal) ter proclamado a independência brasileira houve em Angola quem quisesse trocar de metrópole. Tivesse D. João VI permanecido no Brasil até à morte, tivesse D. Pedro, criado desde os 10 anos no Rio, lá herdado a Coroa e talvez o Império se tivesse mantido coeso e o Brasil sucedesse a Portugal. São muitos ses, que não têm em conta a vontade dos brasileiros em escolher o seu rumo nem os ventos da história. Na realidade, nenhuma potência europeia trocou de centro, aceitou ser colónia de uma colónia (como se dizia), mais facilmente perderam os impérios, sejam a Grã-Bretanha, a França ou a Espanha.

Em 1820, os liberais revoltados queriam o fim do absolutismo, o fim da influência britânica, também o fim da igualdade entre Portugal e o Brasil. Empurraram assim o imenso território para a independência? Aceleraram, quando muito, o processo. E com um Bragança no trono, e outro a suceder-lhe (D. Pedro II), garantiu-se um gigante de língua portuguesa nas Américas, mais coerente do que as repúblicas de língua espanhola que nasceram em seu redor.


D. João VI voltou em 1821. E Portugal voltou a ter um rei. A Revolução de 1820 deu nova dignidade a Portugal e mesmo tardando a triunfar de vez - ainda houve D. Miguel no trono e guerra civil - os seus princípios triunfaram mesmo. A monarquia durou mais 90 anos, mas tornou-se constitucional.

O Porto, portanto, resgatou Portugal, devolveu-lhe um destino. O Porto também foi decisivo para o triunfo final, pelas armas, dos liberais sobre os absolutistas. E acabou por ser D. Pedro, já nem imperador nem rei mas encarnando os ideais mais progressistas da época, que depois de desembarcar no Mindelo fez do Porto o ponto de partida para o Portugal liberal do qual a sua filha nascida no Rio, D. Maria II, seria rainha. O Porto agradeceu-lhe com uma estátua, ele agradeceu à cidade com o seu coração.

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